Willa Hix Estados Unidos, 1910 Pelo amor, vale a pena correr todos os riscos!



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Capítulo V

Jeremy escutou os trovões ao longe quando saiu da reunião. Não esperava que tudo corresse bem, mas a tensão entre os dois grupos o surpreendeu, sobretudo entre Lucy e Eleanore.

A preocupação imediata, contudo, era com a aproximação da tempestade. Observando o céu, viu as nuvens negras vindo com velocidade e trazendo relâmpagos assustadores.

— Harry? — chamou-o à entrada do vagão.

Harry e Shirley, que jantavam, convidaram-no para entrar. A chuva começara a cair, e Jeremy tirou o chapéu molhado, balançando-o do lado de fora.

— Acho que devemos cancelar o espetáculo.

— Mas já vendemos mais de setecentos ingressos. — Shirley meneou a cabeça. — Temos contas a pagar, não podemos perder esse dinheiro. — Suspirou. — O que estou dizendo? Lógico que devemos cancelar.

— Ou podemos fazer um John Robinson.

— Não entendi, Harry.

— Um John Robinson é um show mais curto. Robinson tinha a fama de encurtar a apresentação para ter mais lucro. Ao longo dos anos, o método dele se tornou uma maneira de dizer que fa­remos o show apenas se tivermos toda a segurança para tal. O público entenderá.

— E se adiarmos?

— Jeremy, precisamos estar em Edwardston em dois dias. Além disso, é o show para o governador e...

— Pensei em adiar por algumas horas, até que a chuva melhore.

— Sugere que façamos a apresentação às nove, dez horas da noite?

— Por que não?

— Porque temos de considerar as crianças.

— Mas amanhã não há aula, e será só um pouco mais tarde. Suponha que mandemos os artistas espalhar a notícia. Faremos algo especial... — Jeremy estalou os dedos e sorriu. — Diremos a todos que tragam um convidado!

— O quê?! Entregará centenas de Annie Oakleys em uma única apresentação? — Shirley se exaltou.

Harry começou a explicar o termo, mas Jeremy o interrompeu:

— Esse eu conheço. São entradas grátis. É isso mesmo o que iremos fazer.

— Mas isso significa que metade do público não pagará!

—Não, adorável dama, entenda. Cortando o preço pela metade, ganhamos o dobro de público e quadruplicamos a propaganda boca a boca. As duas últimas apresentações amanhã estarão lotadas, e depois de amanhã, no show para o governador, já seremos o as­sunto do Estado.

— O que eu lhe disse sobre esse rapaz, Shirley? — Harry pou­sou a mão no ombro de Jeremy. — Ele tem jeito para a coisa! Vou organizar tudo e mandar os garotos avisarem a todos para virem depois da tempestade.

— É assim que se fala! Diga para virem ao som da trombeta. — Jeremy deixou o vagão sentindo-se bem mais leve.

Foi quando viu Lucy, que corria pelo terreno enlameado com os punhos cerrados e dizendo algo, mas não havia mais ninguém ali.

— Lucy?


Ela tirou os cabelos do rosto, olhou para ele, mas seguiu sua marcha. Jeremy correu atrás.

— Algum problema?

— Não é de sua conta!

— Você está chorando.

— Não são lágrimas, seu tolo, mas gotas de chuva. — Passou as mãos nos olhos. — O que quer?

— Vamos adiar o show até a tempestade passar.

— Ninguém virá.

— Acredito que virão, e Harry e Shirley concordam comigo, na verdade, temos certeza de que será o assunto do dia amanhã.

Estavam sozinhos ali, e Jeremy não conseguia desviar o olhar dela. Ajeitou uma mecha ensopada atrás da orelha delicada e, com carinho, puxou-a, abraçando-a.

— Não. — Lucy o empurrou e disparou em direção ao vagão de fantasias.

Ela estava chorando. Jeremy foi atrás.

— Sir Jeremy!

Ao se virar, ele deparou com um homem alto, de calça justa dentro de botas que iam até os joelhos, que segurava um chicote, era o domador de leões, aquele por quem Lucy fora apaixonada. Jeremy olhou mais uma vez para ela, que se afastava, e deu atenção a Reggie.

— Pedi a todos que não usassem o "sir", Reggie. O que deseja?

— É sobre Eleanore. Ela está desapontada com sua posição.

— Eleanore ainda não tem posição. Acabamos de unir as duas companhias.

— E ainda assim... — Reggie estalou o chicote.

— Eleanore terá de provar sua capacidade, bem como você.

— De todo modo, comparando-a com a srta. Conroy...

— Deixe-me esclarecer uma coisa para você. — Jeremy arran­cou o chicote da mão de Reggie. — Este circo pertence aos pais da srta. Conroy. Mas, mesmo que não fosse assim, ainda que fosse o seu nome anunciado em letreiros enormes pela cidade, a srta. Conroy manteria a posição de estrela do espetáculo. E o número dela que lota as apresentações, e até que você ou a srta. Wilson provem o contrário, a srta. Conroy continuará sendo a estrela do show.

Jeremy viu nos olhos de Reggie a raiva e a vontade de dar-lhe um soco. Mas viu também que o domador de leões conseguiu se conter, pois compreendeu quem estava no comando.

— O que eu quis dizer é que, apesar de a srta. Conroy ser muito boa no que faz, você ainda não viu Eleanore no trapézio e...

— É justo. Assistirei à apresentação dela, assim como a sua, assim que chegarmos a Edwardston, em dois dias. Agora temos um espetáculo para organizar. A tempestade está chegando e temos de checar se tudo se acha em segurança e se os animais estão calmos. Há muito serviço a ser feito, sr. Dunworthy, e neste circo todos colaboram. Imagino que esse barulho venha de seus leões. Não acha melhor checá-los?

Reggie o encarou com ódio e deu-lhe as costas. Jeremy pensou em ir atrás dele, mas resolveu deixá-lo em paz, por ora. Harry afirmara que Reginald era um excelente domador, mas para ele estava claro como cristal que o camarada poderia ser mais perigoso do que seus animais. Decidiu, então, que já passara da hora de ter uma conversa com Eleanore Wilson.

— Sente-se, por favor — Trixie pediu a Lucy, que não parava de lá para cá. — Está me deixando nervosa, e eu nunca fico ner­vosa. Mas se ficar, Bucko sentirá e atrapalhará meu espetáculo. Então, sente-se.

— Nossa, Lucy, não é de seu feitio ficar tensa desse jeito. — Eleanore sorriu de lado. — É uma capacidade que sempre admirei em você. Conseguir manter-se fria como o gelo. Se tivesse sido capaz de lhe roubar isso, nada mais iria me deter.

Ela se aproximou do espelho para checar os cílios postiços.

— Pensou que roubar o namorado e o número dela bastaria — Trixie disse baixinho, para apenas Lucy escutar.

Ela começou a rir, e em segundos as duas gargalhavam.

— O que é tão engraçado? — Eleanore quis saber.

— Nada. — Trixie soltou outra sonora gargalhada.

— Francamente! — Eleanore virou-se e dirigiu-se à saída. — Oh, olá... — disse em tom adocicado que usava para falar com os homens.

Lucy e Trixie se viraram para a entrada. Jeremy, parado à so­leira, concentrava toda a atenção em Eleanore. Lucy se mirou no espelho e começou a escovar os cabelos com vigor.

— Calma, querida, você não quer arrancá-los pela raiz, não é?

— Boa noite, srta. Wilson, bem-vinda ao Circo Conroy. Ah, é mesmo, já trabalhou aqui antes, não é?

— Gosto dos rapazes que fazem a lição de casa. — Eleanore fez um trejeito sexy.

Lucy sentiu-se enojada, e Trixie a acalmou segurando seu ombro.

— A vida é muito interessante, não é mesmo, srta. Wilson? Uma pessoa começa em um lugar, é desviada por outras circuns­tâncias e, quando menos se espera, retorna aonde tudo começou.

Lucy ficou paralisada. Havia algo no tom de Jeremy... O refle­xo o mostrava sorrindo para Eleanore, mas era um sorriso sarcás­tico, frio.

— Você... — Rindo, Eleanore tocou o braço dele.

— Srta. Wilson, vim até aqui hoje para avisá-la de que em dois dias chegaremos a Edwardston, e quero ver sua apresentação de manhã cedo, assim como a de todos os artistas do Circo Irmãos Parnelli.

— Bem, não costumo estar em minha melhor forma pela manhã, Jeremy, mas por você farei o possível.

— Excelente. — Dirigiu-se a Lucy e Trixie. — Meninas, avi­sarei assim que a tempestade passar e o público começar a chegar.

Jeremy então esboçou seu melhor sorriso, aquele capaz de fazer uma mulher flutuar.

— Certo, chefe. — Trixie piscou para ele, amistosa.

A idéia de adiar a apresentação deu certo, e a animação das pessoas e dos artistas crescia com a constante batida dos tambores. Porém, quando chegou a vez do número de Lucy, nuvens negras voltaram a se formar no firmamento.

— Não sei, Lucinda... — Harry não disfarçava a preocupação. — Talvez não devesse se apresentar.

Em qualquer outra noite, Lucy aceitaria o conselho. Mas Eleanore e Reggie estavam sentados na primeira fila, e sua maior rival se abanava com um enorme leque de plumas coloridas, cha­mando muita atenção para si.

Farei apenas metade do ato, Harry. Irei direto para o giro pelo pescoço.

— Vou conversar com Jeremy. Você sabe que se ele disser para não fazer, você não fará.

— Sim.

Ela avisou o irmão, que começou a preparar o equipamento para o giro. Os relâmpagos estavam cada vez mais perto.



— Não consigo encontrar Jeremy — Arnie disse. — A tempes­tade vem vindo.

— Tem certeza? — Harry olhou para o céu e depois para a fora.

— Façamos do giro a última atração de hoje. Assim, os animais não sofrerão com o barulho da borrasca. Anunciaremos para o público, Otto comandará a contagem e terminamos aí.

— Certo. Vá avisar Otto, então.

Lucy correu para o picadeiro. Reggie e Eleanore cochicharam e riram quando Wally terminou seu número.

Uma barra de ferro se mexeu, fazendo barulho, e ela soube que o vento ia ficando mais forte a cada minuto. Não cometeria nenhum erro. Faria uma apresentação que Eleanore tentaria a vida toda superar. Seria perfeito.

— Pronta? — Ian perguntou.

Lucy assentiu, e Otto a guiou para o centro do picadeiro ace­nando para o público. Quando passou por Eleanore, a rival balan­çou o leque, e uma pena caiu a seus pés. Era uma pena de pavão, outro sinal de má sorte.

Lucy parou por um instante, e apanhou a pena e a entregou para Eleanore.

— Acredito que isto seja seu; não meu.

Otto anunciou que o número de lady Lucinda, o Anjo das Al­turas, encerraria a noite. Ela subiu e se preparou para começar.

Lucy olhou para baixo e avistou Jeremy entrando, parecendo aflito. Ele conversou com Harry e Ian, e depois levantou as mãos mostrando os dez dedos. Ela faria dez giros e pararia.

Lucy ouviu a ventania, e as primeiras gotas de chuva baterem na lona. Mas isso por estar tão próxima do topo. Harry mandara reforçar as amarrações, mas será que agüentaria?

A banda começou a tocar a música, e o público a observava sem respirar. Jeremy, no centro do picadeiro, a olhava, aterroriza­do. Lucy se concentrou em sua apresentação e, balançando-se no trapézio, soltou-se, jogou a cabeça para trás e começou a rodopiar.

O público contava os giros em uníssono e, quando chegou ao décimo, Lucy não parou. No vigésimo, o ruído da tempestade es­tava bastante forte, mas ela quis ir até o vigésimo quinto.

Nesse momento, um trovão e um relâmpago estremeceram a tenda, e todos gritaram, em desespero, e se levantaram para tentar sair. Ian, Harry e Jeremy berravam para que se acalmassem, mas a multidão tomou conta do picadeiro.

Lucy segurou o trapézio e ficou pendurada pelas mãos, espe­rando Ian lhe jogar a corda. Ele não aparecia, no entanto, pois ficara preso entre as pessoas.

Os dedos dela começavam a escorregar...

— Ian!

Se a rede estivesse lá, Lucy teria pulado e desceria para o chão. Pela primeira vez na vida ficou apavorada. O suor fazia com que suas mãos deslizassem ainda mais.



Então, Jeremy apareceu perto de onde sua corda fora presa. Rápido por favor! Lucy não sabia quanto tempo mais poderia agüentar.

Jeremy soltou a corda e a jogou para ela, que não conseguiu alcançá-la. A mão escorregou mais um pouco.

— Pegue, Lucy! — ele gritava, desesperado.

Ela agarrou a corda e se pôs a deslizar em uma velocidade alucinante. Sentia as palmas queimarem, mas tudo o que queria era pisar no solo o mais rápido possível. Aconteceu tão depressa que, quando acabou a descida, seu tornozelo se torceu ao aterrissar.

— Graças a Deus! — Jeremy a tomou no colo, levando-a para a saída.

Todos tinham deixado a tenda, e eles conseguiram sair em se­gurança, indo direto para o vagão mais próximo. O dele.

— Estou bem, Jeremy. Coloque-me no chão.

— Calma.


Ele abriu a porta e a pôs deitada no sofá de seda.

— Vou estragá-lo, fiquei ensopada.

— Sente-se. — Jeremy se ajoelhou diante dela. — Deixe-me ver suas mãos. — Ele as virou de palmas para cima. — Irei pegar bandagens e um bálsamo. Não se mova, e coloque o pé para o alto.

Sem reclamar, Lucy o obedeceu.

Em segundos, Jeremy retornou com o curativo. Aplicou o bál­samo e enrolou a gaze com suavidade, mas mesmo assim Lucy gemeu.

— Dói?


— Quase nada.

— Duvido. — Ele sorriu.

— Machucados são comuns quando se trabalha em circo. No entanto, fui muito tola por descer daquela maneira pela corda.

Ao ver seu tornozelo, Jeremy franziu a testa.

— Ficou muito inchado.

— Estarei bem amanhã à tarde.

— Não. Repousará pelo menos até chegarmos a Chicago.

— Jeremy...

— Eleanore pode substituí-la, por enquanto.

— Não!


Ela se ergueu e tentou caminhar. Por sorte, Jeremy estava lá para ampará-la quando não conseguiu se manter em pé.

— Tem razão.

Jeremy a aconchegou contra o peito.

— Mas o governador...

— Daremos um jeito, Lucy. Sabe que jamais colocaria ninguém desta companhia em perigo.

— Veja bem...

Lucy não deixaria Eleanore tomar seu lugar sem lutar.

— Srta. Conroy?—Jeremy a fitou, muito sério, e a fez se deitar de novo no sofá. — Sabe que sou o responsável por este circo, não?

Jeremy acariciou o rosto dela. Lucy arrumou uma mecha de cabelos que caía na testa dele. A única luminosidade vinha de uma pequena lâmpada na entrada. O único som era o da tempestade batendo nas janelas. Parecia que não havia mais ninguém no mun­do além dos dois, e ela viu no semblante de Jeremy que ele não se lembrava mais de Eleanore. Aliás, nenhum dos dois pensava nela.

Lucy mirou os lábios de Jeremy, enquanto ele aproximava o rosto. Ela cerrou as pálpebras, esperando ser beijada.

— Olhe para mim, Lucy. Não sei o que pensou sobre a outra noite, mas há algo que tenho de lhe dizer. Entende que se come­çarmos novamente ficará muito difícil de parar? Pelo menos de minha parte.

Ela compreendia que era apenas atração física. Estavam entran­do em um território perigoso, mas pelo menos Jeremy era honesto. Muito diferente de Reggie, com suas promessas vazias que tinham por único fim conseguir o que desejava.

— Entendo, sim.

— Então? Está disposta?

— Curiosa.

— Curiosa? — Ele achou graça.

—Tive pouca experiência com... Quero dizer... Beijá-lo daque­la vez foi diferente. Deixou-me...—Lucy enrubesceu. — Ah, pelo amor de Deus, beije-me!

— Tudo o que eu puder fazer para satisfazer sua curiosidade será feito, srta. Conroy.

Jeremy roçou os lábios nos dela e, em vez de beijá-la com pai­xão, o fez com delicadeza, provocando uma imensa onda de prazer no corpo de Lucy. E naquele minuto ela soube que não haveria mais retorno. Nem arrependimentos.

Céus, como desejo esta mulher!, Jeremy pensou ao beijá-la. Lucy provocava nele emoções conflitantes. O corpo perfeito, atlé­tico, e ainda assim feminino, o excitava como nenhum outro, mas a inocência dela demandava respeito, não apenas por ser filha de Harry e Shirley, mas por ela mesma, por algo em seus olhos que Jeremy não conseguia definir.

Ele tirou a gravata e desabotoou a camisa, deitando-se ao lado de Lucy, pressionando-se contra ela e beijando-a com ardor. Os dedos passeavam pelo decote do uniforme, provocando arrepios em Lucy, que se arqueava, sussurrando o nome de Jeremy.

A mão direita alcançou um seio e, com a ponta do dedão, aca­riciou o mamilo com movimentos circulares, enquanto a esquerda deslizava pela coxa, coberta apenas pela saia fina.

— Começo a achar que você me enfeitiçou, srta. Conroy — ele sussurrou, mordiscando-lhe o lóbulo.

Jeremy a queria, sem sombra de dúvida. Contudo, Lucy Conroy não era mulher para apenas uma brincadeira inconseqüente e na­da mais.

— Lucy — disse, com a voz trêmula de lascívia.

Ela viu a volúpia nos olhos dele. Jeremy queria fazer amor, e o sentimento era recíproco. De alguma maneira, depois da primeira vez em que se beijaram, a imagem dele começou a invadir seus pensamentos sem cessar. No entanto, tratava-se de mera atração física, e isso nunca mudaria.

Será que a experiência com Reggie não lhe ensinara nada? Es­taria disposta a se entregar a alguém que queria apenas seu corpo, e não seu coração?

Espalmou as mãos no tórax de Jeremy e o empurrou com força, derrubando-o do sofá. Levantou-se com um pé só e apoiou-se na mesa, para equilibrar-se. Jeremy continuou sentado no piso, olhan­do, atônito, para ela.

— A chuva passou, Jeremy. Por favor, vá chamar Ian.

— Por quê? — Ele começou a se erguer.

— Porque está tarde e não consigo andar sozinha, com este tornozelo inchado. — Lucy ajeitou a cabeleira e a roupa. — Meu irmão me carregará até meu vagão.

— Você não irá para lugar algum com o pé assim.

— Bem, aqui não ficarei de jeito nenhum. — Respirando fundo, tornou a se sentar.

— Ah, vai ficar, sim! — Jeremy a fitava de cenho franzido.

— Muito bem. É muito gentil de sua parte permitir que eu durma em seus aposentos. Mas e você, dormirá onde?

— Eu... Bem...

— Porque não pode ficar aqui comigo. Quero dizer, claro que está sendo tão generoso, porém todos irão comentar.

— É...

— Tenho certeza de que há uma cama para você em algum vagão masculino. Ainda mais agora que incorporamos o trem do Parnelli. E existe também o hotel.



— Hotel? Aqui?

— Springfield é uma cidade adorável. — Ela sorriu. — Oh, antes de ir gostaria de saber se tem mais um travesseiro. Acho que seria bom colocar meu pé para cima.

— Não pode ficar aqui sem ninguém para ajudá-la. E se precisar se levantar, ou...

— Jeremy, você tem toda razão.

— Até que enfim resolveu colocar a cabeça no lugar!

— Lógico. — Lucy ajeitou as almofadas e se acomodou melhor no sofá. — Quando for para o hotel, será que poderia passar no vagão de meus pais e chamar minha mãe para vir dormir comigo?

Jeremy arqueou uma sobrancelha, e Lucy teve de se segurar para não rir. Nunca o vira tão sem ação e estupefato antes.

Jeremy tentou dizer algo, mas desistiu. Resmungando, saiu do carro.



O que foi isso que acabou de acontecer?, Jeremy se perguntou ao pisar no terreno enlameado.

Estiveram prestes a se entregar à paixão. Lucy o fitara com aqueles incríveis olhos azuis, o acariciara, chamara seu nome. E de repente o empurrou para longe! Além de ficar com seu quarto e despejá-lo de lá.

Com certeza vinha trabalhando demais. Perdera o jeito com as mulheres, e isso ele não admitia. Jamais fora rejeitado, muito me­nos por uma jovem do interior de Wisconsin. A carreira pouco importava, porém tinha uma reputação a zelar. Com isso em mente, virou-se e voltou decidido ao vagão.

— Onde está Shirley?

— Ainda não localizei a sua mãe — Jeremy respondeu, puxando uma poltrona para perto do sofá. — Por que mudou de idéia?

— Não mudei, ainda quero que minha mãe venha dormir comigo.

— Sobre fazer amor comigo, Lucy. Quero saber o motivo.

— Não entendi.

— Você escutou o que perguntei.

— Não posso acreditar! O que o fez achar que eu faria uma coisa dessas?

— Deixe de ser tola! Estava tão envolvida quanto eu, e não precisei forçá-la.

— Que exagero! — Lucy cruzou os braços e olhou a escuridão, pela janela.

— Não tente me ignorar.

— Desculpe-me, esqueci que a cláusula sobre obedecer suas ordens consta de meu contrato — comentou, sarcástica.

— O que deu em você?!

— Gostaria de saber o mesmo a seu respeito.

— Pensei que estivéssemos próximos. Você pareceu... Não, você queria. — Passou os dedos pelos cabelos, frustrado. — Não a entendo, Lucy.

— Bem, eu entendo você. Até bem demais.

— Há! — Jeremy abriu os braços, estupefato.

— Duvida de mim?

— Não sabe nada sobre mim, Lucy Conroy.

— Sei que é um homem muitíssimo charmoso e que seu charme sempre o ajudou, em especial para se relacionar com o sexo oposto.

— Não conseguirá me convencer de que o momento que quase dividimos não foi de vontade mútua.

— Tive um lapso momentâneo.

— Você é impossível!

— E você está furioso comigo por um único motivo: recuperei a razão e o impedi de continuar com seu jogo de sedução. Suspeito que tenha sido a primeira vez, mas pode ficar tranqüilo que será nosso pequeno segredo.

— Pensa que sabe tudo, não é?

— Acha mesmo? Então iríamos nos beijar, nos tocar e depois o quê?

— Lembre-se de que naquela noite, depois da festa, você não estava tão preocupada com...

— Seria um erro, Jeremy.

Lucy estava certa. Ele mesmo não tivera dúvidas enquanto a beijava? Seria um desastre envolver-se com ela.

Lucy viu Jeremy parar para pensar. O interesse dele era apenas físico; nada além. Mas o pior era que, mesmo tendo consciência disso, ela ainda queria mais.

— Vou procurar sua mãe.

— Obrigada.

Assim que Jeremy fechou a porta, Lucy apanhou uma almofada e a atirou no outro sofá. Conseguira o que queria. Então por que sentia-se tão desapontada?

— Você tem de se recompor e voltar para o alto, Lucy — Trixie se sentou no vagão comunitário. — Em algumas semanas estare­mos em Chicago, e neste momento Eleanore está roubando seu número. Isso sem falar em seu homem.

— Não quero mais saber de Reggie. Aliás, ela me fez um grande favor.

Mas o número no trapézio a preocupava. Eleanore se superava a cada apresentação, ao passo que Lucy auxiliava Shirley na bi­lheteria.

— Não me refiro a Reggie — Trixie sussurrou. — Estou falando dele.

Lucy corou quando, ao olhar para a frente, viu Jeremy a fita-la.

— Ele não é meu!

— Você não engana nem a mim, nem a ninguém. — Trixie ficou de pé.

— Aonde vai?

Lucy não queria que a amiga se fosse. Se Trixie saísse, sobraria um lugar a seu lado. E se Jeremy viesse se sentar ali?

— Vou procurar Ian. Quem sabe ele consegue convencê-la.

Lucy pegou uma revista e a abriu diante de si, espiando Jeremy, que caminhava em sua direção.

— Jeremy querido! — Eleanore o chamou da mesa em que ela e Reggie jogavam cartas. — Reservamos esta cadeira para você.

Reggie a encarou, furioso, e Lucy flagrou Eleanore chutando a canela dele.

— Venha jogar conosco — ele convidou, enfim.

— Boa noite, Lucy — Jeremy a cumprimentou, gentil, e depois se virou para se acomodar junto de Eleanore.

— Está me evitando — ela falou, passando a língua sensual­mente pelos lábios.

— Imagine. Não foi intencional.

— Gostaria de lhe mostrar uma nova acrobacia, Jeremy. Quero apresentá-la em Chicago.

—Tenho viajado bastante, mas ouvi dizer que sua apresentação está ótima. Duvido que seja necessário acrescentar algo nela. — Sorrindo, Eleanore colocou a mão sobre a dele.

— Ah, Jeremy, sabe tanto quanto eu que para nos mantermos no topo é necessário inovar e mostrar ao público algo que jamais esperariam.

Lucy notou que Reggie os observava com raiva, embaralhando as cartas.

— E o que tem em mente? — Jeremy recebeu seu jogo e o estudou.

— Terá de ver meu número.

Durante várias rodadas, o flerte de Eleanore foi tão óbvio quanto o tamanho de seu decote. Ela ria de tudo o que Jeremy dizia, se debruçava sobre o tampo para tirar um fio solto de seu paletó, manipulava o baralho, provocando-o.

Lucy também percebeu que ele não estava desconfortável com a situação, pelo contrário. Jeremy ria com Eleanore e não tirava os olhos de seus seios, na certa fantasiando que os botões arreben­tariam a qualquer momento, desnudando-os.

De repente, Reggie ficou de pé e jogou as cartas na mesa.

— Vou tomar um pouco de ar. — E saiu, pisando duro. Todos o fitaram, curiosos, e em seguida voltaram a seus afazeres.

— Ele está aborrecido. — Eleanore meneou a cabeça. — Antes de ir para o Parnelli, Reggie tinha uma posição de destaque aqui no Conroy. Claro que demoraria um pouco para recuperá-la, mas você tem de admitir, Jeremy: Reggie e os leões são destaque.

— Isso é um pedido para que eu coloque a imagem dele nos pôsteres?

— Bem, querido, o que sei sobre negócios? — Pela primeira vez, ela perdeu a autoconfiança. — Você entende disso muito me­lhor do que eu.

Eleanore se arqueou para arrumar os cabelos dele, mas Jeremy não permitiu.

— Para sua informação, estou um passo a sua frente, e hoje de manhã pedi para os artistas incluírem Reggie nos pôsteres do res­tante da turnê. Presumindo que ele não irá embora de novo com outro circo.

— Que ótimo... para Reggie.

— Talvez queira lhe dar as boas notícias.

Lucy sorriu, satisfeita, e enterrou o rosto na revista, sentindo-se leve pela primeira vez desde a fatídica ocasião em que o rejeitou. Jeremy desvendara com facilidade o jogo de Eleanore.

— Lucy?

Ela abaixou a revista e o encarou.



— Soube que seu tornozelo está quase bom.

— De fato.

— Poderemos colocá-la de novo em cartaz quando chegarmos a Chicago?

— Sim!


— Excelente. Então, presumo que esteja se preparando para esse retorno.

— O que quer me dizer?

— Que parece muito confortável na posição de convalescente. Não a vi no picadeiro nem uma vez sequer, nem para se alongar. Isso não é bom, nem para mim, nem para você.

— Eu lhe garanto que não tem nada com que se preocupar. — As pupilas dela expeliram faíscas de raiva. — Boa noite!

Lucy tornou a erguer a revista a sua frente e se calou.

Jeremy deu alguns passos, tomou-lhe a publicação, virou-a de cabeça para cima e a devolveu a ela.

— Boa noite, Lucy.

No dia seguinte, Lucy teve de admitir que Jeremy estava certo.

Enquanto todos desfilavam nas ruas, ela se exercitava no tra­pézio. Era incrível como apenas algumas semanas parada puderam minar suas forças. Isso sem falar nos quilos extras que ganhou por não controlar a alimentação.

— E bom vê-la de volta — Trixie disse ao chegar do desfile.

— Estou sofrendo. Como meus músculos podem ter encurtado tanto em tão pouco tempo? Mal encosto as mãos no chão!

Trixie deu risada.

— Não é engraçado.

— Eu sei. Mas talvez isso seja um incentivo. — Ela abriu um pôster. — Acabou de ser impresso.

O anúncio mostrava os três principais números do circo: Wally, Reggie e Eleanore.

— É o que veremos! — Lucy tirou o papel da mão da amiga e dirigiu-se, furiosa, ao vagão de Jeremy.

Encontrou-o à escrivaninha, rodeado de documentos. Jeremy tirara o paletó e arregaçara as mangas da camisa.

— Sim? — Pareceu irritado ao ser perturbado, mas sorriu quan­do viu de quem se tratava. — Olá, srta. Conroy, a que devo a honra desta visita?

— Importa-se de me explicar isto?

— Bem, me parece um pôster anunciando nossa apresentação em... Ah, o local está em branco! Então pode ser em qualquer lugar. — Tornou a sorrir. — O que você acha que é?

— Eu chamaria de traição!

— Sinceramente, não concordo. — Jeremy examinou o anúncio mais uma vez.

Lucy apontou para a imagem de Eleanore.

— E do que chama isto?

— Essa é a srta. Eleanore.

— Não brinque comigo, Jeremy. Você substituiu minha ima­gem pela dela.

— Se é que se lembra, eu substituí sua imagem pela de Trixie logo depois que se machucou, e você não demonstrou ter proble­mas com isso. Será que está com ciúme, Lucy?

— Ora! Trixie merece o destaque. Isto... — Lucy bateu com a ponta do dedo no papel. — ...é um insulto!

— Isso é negócio, Lucy. Nada mais, nada menos.

— Quer dizer que as tentativas descaradas de sedução dela não deram certo? Eu conheço você, sr. Barrington!

Jeremy segurou com força os pulsos dela, puxando-a para si.

— Não me conhece, não, Lucinda Conroy. Apenas pensa que sim.

Lucy não tentou escapar, e o encarou com intensidade. Por um momento ambos permaneceram calados.

— Vou beijá-la agora, Lucy. Eu quero, você quer, e Deus sabe o quanto nós dois precisamos disso. Quando terminar, darei ex­plicações sobre o pôster e não falaremos mais no assunto. Entendeu bem?

Ela fez que sim, e Jeremy a beijou, ansiando satisfazer seus desejos, e Lucy retribuiu pelo mesmo motivo. Relutando em parar, ele a abraçou com carinho, aninhando-a em seu peito.

— Preciso que compreenda a necessidade que tenho agora de focar toda minha energia no trabalho. — Jeremy afagava o rosto dela.

— Sei disso.

— Mesmo? Então entende que esse pôster faz parte da estraté­gia, nada mais que isso. Assim que sarar, você voltará a figurar nele, mas enquanto isso... Estamos muito perto do sucesso, Lucy. Muito perto.

As palavras de Jeremy eram sinceras, e o comprometimento dele com o circo se tornara algo muito importante em sua vida. Lucy se emocionou com a mudança dele, e se envergonhou por ter duvidado disso.

— Está certo. Desculpe-me.

Ele beijou-lhe a mão, provocando-lhe um arrepio.

— Oh, srta. Conroy, sente frio? Deixe-me esquentá-la. — Jeremy tornou a beijá-la até que ficassem sem ar. — Você tem de ir agora.

— E... — ela sussurrou ao ouvido dele.

— Tenho uma reunião com seu pai em cinco minutos. — Embora relutante, Lucy suspirou e caminhou até a porta. — Lucy?

Jeremy a chamou, com o pôster na mão. Quando ela se virou, ele o rasgou em pedacinhos, jogando-os no lixo.

—Nós usaremos Trixie até que você esteja boa. Seja bem-vinda!

Naquela noite, Shirley descobriu que estava faltando dinheiro. Ela e Harry sempre o mantinham guardado no cofre, e só faziam depósito no banco quando a turnê acabava. Vinham fazendo tanto sucesso que Shirley, preocupada, quis depositar uma parte quando chegassem a Chicago. Assim não teriam de manter tamanho vo­lume consigo.

Harry e Lucy jogavam cartas, ouvindo Shirley explicar sua idéia de contar e separar uma quantia para que fosse depositada, quando se calou.

— O que foi, querida?

— Está faltando muito dinheiro, Harry. — Os três nada disseram durante minutos.

— Não pode ser. Eu mesmo fechei o cofre.

— Não somos os únicos que sabemos a combinação.

— Mãe, não está pensando em Jeremy... — Lucy sentiu o chão lhe faltar.

— Ele é o único que conhece a combinação, além de nós dois.

— Mas eu confiro o livro-caixa com Gus e Karl a cada show. — Harry coçou a nuca.

Gus Walton recolhia os bilhetes de entrada do público. Karl Oglethorpe, o contador e caixa que Jeremy contratara, era quem efetuava as vendas. Como os bilhetes eram reaproveitáveis, Gus os levava para o escritório e os deixava ao lado do livro-caixa, para serem contados e vendidos na apresentação seguinte.

Karl, e agora Shirley, contavam o dinheiro e conferiam com o número de bilhetes vendidos. Anotavam a soma no livro-caixa, que era guardado junto com os bilhetes e o dinheiro em uma caixa de aço, que Jeremy ou Harry colocavam no cofre.

— Mesmo ao levar em conta as Annie Oakleys que Jeremy fornece às crianças, os números não conferem. — Shirley abriu o livro-caixa para mostrar ao marido. — Veja isso.

— Qual é o problema? — Lucy franziu o cenho

— Agora compare. — Shirley entregou um papel escrito à mão por ela mesma. — Este é o valor que encontrei no cofre.

— Preciso de papel e lápis — Harry falou, checando os nú­meros.

Lucy via o pai, muito preocupado, conferir as contas. Apreen­sivo, Harry encarou Shirley.

— De fato, é muito dinheiro que falta. Pensei que pudéssemos confiar nele.

— Deve haver outra explicação, papai.

— Jeremy sabe que, você está com o livro-caixa, Shirley?

— Não, nem Karl. Não que eu imagine que ele esteja envolvido.

— Só pode ter sido Karl — Lucy tornou a protestar.

— Lucy, Karl não sabe a combinação do cofre.

— Bem, o que vamos fazer? — Shirley perguntou.

— Qual a programação para esta noite?

— Deixei os bilhetes e o dinheiro para que Gus e Karl os con­tassem, e pretendia adiantar a organização do depósito.

— Você comentou algo sobre esse depósito com eles?

— Não. Apenas disse que iria ao escritório trabalhar um pouco. Karl falou que viria me entregar o quantia que tinha consigo assim que a tivesse em mãos.

— Onde está Jeremy?

— Assistindo ao espetáculo. Temos de agir, Harry.

— Volte para o escritório, porque Karl deve estar indo para lá. Tenho de ponderar melhor.

— Sei que não quer acreditar, querido, mas Jeremy é o único que conhece a combinação. Além disso tem o episódio de Nova York.

— Vá. Deixe que eu resolvo.

Shirley se foi, e Harry se concentrou nos números diante de si.

— Papai, o que Jeremy fez em Nova York para ter sido enviado para cá?

— Não se importe com isso.

— Mas e se...

— É sua vez de dar as cartas, Lucy — ele decidiu mudar de assunto.

Quando Shirley retornou, afirmou não ter encontrado Jeremy, mas trancara o livro-caixa e o dinheiro no cofre. Harry lançou-lhe um olhar, indicando Lucy, como se não quisesse discutir aquilo em sua presença. Ela disse estar exausta e deu boa-noite aos pais, mas, em vez de ir dormir, escondeu-se atrás da tenda, esperando a apresentação terminar.

Todos se reuniram na saída, e Lucy ficou observando Jeremy cumprimentá-los e fazer os comentários pertinentes.

— Tenho boas novas — ele informou aos artistas. — Recebi notícias de Chicago, e creio que iremos estender nossa temporada por lá em uma semana.

Todos aplaudiram, comemorando. Eleanore segurou os braços dele e beijou-lhe os lábios, agradecendo em seguida.

Jeremy aceitou o beijo e sorriu para ela. Lucy deu as costas para ir embora e esbarrou em Karl. O homem não se desculpou e con­tinuou caminhando em direção ao escritório, onde ficava o cofre, com a mesma expressão zangada de sempre.

— Karl? — Ela sorriu, fazendo charme. — Nossa, você estava tão ensimesmado que acho que nem me viu.

— Desculpe-me. Precisa de algo, srta. Conroy?

— Não, obrigada. — Sorriu de novo. — É que me sinto um tanto perdida desde que machuquei o tornozelo. E então, como foi o show de hoje? Escutou a boa nova? Ficaremos uma semana a mais em Chicago. — Lucy apoiou-se no ombro dele. — Não se importa se eu lhe der o braço, não é? E que esqueci minha bengala.

— De maneira alguma, srta. Conroy.

— Por favor Karl, trate-me por Lucy.

Jeremy e Eleanore vinham em sua direção. Karl tomou a mão de Lucy.

— Como quiser, minha querida — ele falou alto, quando Jeremy e Eleanore passaram.

Lucy notou que eles o escutaram, pois olharam para os dois, intrigados. Na verdade, Eleanore sorria, satisfeita, mas Jeremy pa­receu bastante confuso. Ela não sabia a razão, mas Karl demons­trou ter a intenção de que escutassem o comentário.

— O que acha de minha idéia, Jeremy? — Eleanore falava com uma entonação melosa, quase se jogando para cima dele.

Lucy não ouviu a resposta, e continuou em frente, ao lado de Karl.

— Tivemos um bom público, hoje.

— A casa estava cheia. — Karl meneou a cabeça.

— Que ótimo! Deus sabe o quanto necessitamos do dinheiro. Seu trabalho deve ser cansativo em uma noite como esta, confe­rindo todos os bilhetes para que coincidam com o valor arrecadado. Já aconteceu alguma vez de os números não baterem?

Lucy tinha certeza de que ele sabia algo sobre a quantia desa­parecida. Era Karl quem cuidava de tudo durante as freqüentes viagens de Jeremy.

— Podemos ter alguns fatores externos que interfiram nessa contagem, Lucy.

— É mesmo? — Ela demonstrou interesse. Tinha de descobrir se eles agiam juntos.

— Sim. Por exemplo, há pessoas que entram de graça. Ou surge alguma emergência que temos de solucionar.

— No entanto, na contagem final você inclui esses percalços, não é?

— Sem dúvida, mas... — Karl se surpreendeu com aquele in­terrogatório repentino. — Olhe, eu adoraria explicar todo o fun­cionamento do caixa, mas no momento devo trabalhar. Posso cha­mar alguém para levá-la a seu vagão?

— Muito obrigada, eu consigo ir daqui. Boa noite.

— Boa noite.

Lucy o escutou destrancando o vagão e resolveu dar a volta para espionar. Queria saber se Jeremy viria encontrá-lo, ou se che­garia mais tarde para pegar o dinheiro sozinho.

Mas por que Jeremy acharia que nunca seria pego? Decerto porque Harry fazia um único depósito por temporada, e, quando o fizesse, Jeremy já teria retornado a Nova York, e Karl também estaria longe. Era o plano perfeito, Lucy concluiu.

— O que está esperando? — Jeremy sussurrou a seu ouvido.

— O que faz aqui? — indagou, irritada. — Pensei que você e Eleanore tinham ido para seu vagão discutir a carreira dela.

— Foi uma conversa rápida. Não era necessário ter ido a meu vagão. O que está fazendo aqui?

— Nada, apenas tomando um pouco de ar antes de ir dormir.

— Ou será porque suspeita de Karl?

— Como?! Que ridículo!

— Ficou bastante óbvio para mim quando passaram de braços dados. Acha que acredito em um romance entre vocês dois?

Jeremy não desistiria tão fácil; Lucy sabia disso. Assim, espreguiçou-se, dizendo que tinha de repousar.

—Mas tão cedo? Há sempre a chance de Karl receber uma visita, sair escondido no meio da noite... Por que resolveu espioná-lo?

— Enlouqueceu, Jeremy? — Ela se virou, mas ele prendeu-lhe o braço.

— O que há, Lucy?

— Nada!

— Muito bem, vou acompanhá-la a seu vagão. Vejo que não trouxe sua bengala. — Ele apoiou a mão dela em seu braço, e puseram-se a andar. — Soube que o médico a liberará em uma semana.



— Sim. Espero que ainda haja um lugar para mim — respondeu, com sarcasmo.

Jeremy respirou fundo e mudou de assunto:

— Há um ar outonal esta noite, não acha?

— Estamos no verão.

— Mesmo assim, sinto algo na atmosfera. E incrível que a tem­porada tenha passado tão rápido.

— E bem-sucedida. O sr. Porterfield deve estar satisfeitíssimo com seu desempenho. Nós ganhamos muito dinheiro até agora, e ainda tem Chicago pela frente.

— Adam só considera o valor de um trabalho depois que ele termina.

— O que aconteceu em Nova York, Jeremy? Quero dizer, o que de fato houve por lá? — Lucy tinha de constatar se seus pais não estavam cometendo um equívoco em acusá-lo.

— Eu lhe disse; cometi um erro.

— Que o mandou para o interior de Wisconsin.

— Pois é. Não é um absurdo? Fiquei enfurecido com a idéia de passar meses com um circo, mas a verdade é que esta foi uma experiência rica e compensadora para mim.

— De todo modo, o que...

— Faz diferença? Se eu lhe der todos os detalhes sórdidos, mudará algo entre nós?

— Não é essa a questão — afirmou, confusa.

— Para mim, essa é a única questão. — Ele parou e a forçou a encará-lo.

— Jeremy...

Uma carruagem de aluguel passou por eles, e Jeremy fez um sinal.

— Quero ter uma conversa com você, Lucy, e em algum lugar onde não sejamos importunados. Se quer uma resposta, venha comigo.

Ela aceitou e subiu no veículo atrás dele. Jeremy pagou ao con­dutor e pediu para rodarem até que ele lhe dissesse para retornar.


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