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Folha de São Paulo

19/08/97


MEIO AMBIENTE
Estudo de 11 cientistas afirma que redução de área alagada põe em risco vida de animais e plantas
Hidrovia pode secar áreas do Pantanal


WILSON SILVEIRA
da Sucursal de Brasília

Estudo inédito de 11 cientistas latino-americanos e norte-americanos concluiu que o projeto da hidrovia Paraná-Paraguai, se for executado conforme os planos oficiais, vai destruir parte do Pantanal mato-grossense e trazer pouco benefício econômico para o Brasil.


O estudo, chamado Relatório de uma Análise Independente, será divulgado simultaneamente no Brasil e nos Estados Unidos amanhã. No Brasil, a divulgação ocorrerá na Comissão de Meio Ambiente da Câmara.
O objetivo do projeto é dragar um canal de navegação mais profundo ao longo de 3.442 km dos rios Paraná e Paraguai, retirar rochas, aumentar o ângulo de curvas desses rios e fazer outras obras de engenharia pesada para permitir a expansão do tráfego de carga. O custo do projeto não foi calculado pelo Ministério dos Transportes.
Esse tipo de projeto provoca o rebaixamento do nível do rio, o que deve acontecer no caso do rio Paraguai. Por causa disso, parte do Pantanal deixará de ser alagada.
Como os estudos oficiais deixam de seguir os padrões científicos na determinação desse rebaixamento da cota do rio Paraguai, segundo os hidrólogos que assinam a análise independente, não é possível prever o tamanho da área que deixará de ser alagada.

Prejuízos
Qualquer rebaixamento, entretanto, pode causar prejuízos, especialmente na época da seca, "quando as áreas úmidas são de fundamental importância para muitas espécies", segundo o ecólogo John Melack, da Universidade da Califórnia.
Estudo recentemente publicado pelo cientista Stephen Hamilton, da Universidade Estadual de Michigan, que há mais de dez anos estuda o Pantanal, mostra as áreas dessa região que sofreriam impacto mais forte com o rebaixamento do rio Paraguai.
Uma redução de 10 cm no nível desse rio pode provocar, segundo ele, diminuição de 41% na área alagada do Pantanal em Cuiabá (MT), na época de estiagem. Se o rio baixar em 25 cm, essa ecorregião ficará toda seca, conforme o estudo.
Segundo Maurício Galinkin, 53, diretor técnico da Fundação Cebrac (Centro Brasileiro de Referência e Apoio Cultural), a consequência do rebaixamento será a morte da vegetação e dos animais que, no período de estiagem, sobrevivem graças às áreas alagadas espalhadas pelas chamadas planícies de inundação.
Os benefícios econômicos previstos são custo mais baixo de transporte e aumento das exportações de minério de ferro.
Segundo o estudo independente, as projeções de safras de soja e os preços do minério de ferro foram superestimados no estudo de viabilidade econômica do projeto.
Além disso, afirmam, não foram incorporados os custos ambientais e sociais, bem como os investimentos necessários para modernização e construção de portos, da frota fluvial e estradas e ferrovias para ligar a hidrovia às regiões produtoras, todos considerados essenciais ao projeto.
O estudo
O estudo independente foi realizado por especialistas em geografia, biologia, antropologia, economia, engenharia, gestão ambiental, hidrologia e zoologia, entre outros (veja relação abaixo).
Foi feito por iniciativa de duas organizações não-governamentais: a norte-americana EDF (Fundo de Defesa Ambiental) e a Fundação Cebrac, de Brasília.
O estudo se baseia em relatórios oficiais dos cinco países envolvidos no projeto (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia), que receberam financiamento do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) para fazer os estudos.
Os estudos foram feitos por dois consórcios internacionais: Hidroservice-Louis Berger-EIH (projeto de engenharia e estudo de viabilidade econômica) e Taylor-Golder-Consular-Connal (estudo ambiental). Segundo os cientistas independentes, os consórcios entregaram os estudos incompletos em dezembro de 96, depois de consumir 20 meses e US$ 7 milhões.


Os 11 especialistas são: Michael Clemens, mestre em economia e em gestão ambiental; Thomas Dunne, doutor em geografia; Israel Klabin, engenheiro e matemático, presidente da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável; John Melack, doutor em zoologia com concentração em limnologia (área da biologia que trata das águas doces e seus organismos); Bartomeu Melià, doutor em religião; Juan Cesar Paggi, mestre em limnologia; Susana José de Paggi, mestre em limnologia; Theodore Panayotou, doutor em economia; Henrique Rattner, mestre em sociologia e doutor em economia política; Eneas Salati, doutor em agricultura, e Thayer Scudder, doutor em antropologia.



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