Xviii seminário Nacional de Distribuição de Energia Elétrica sendi 2008 06 a 10 de outubro



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XVIII Seminário Nacional de Distribuição de Energia Elétrica
SENDI 2008 - 06 a 10 de outubro

Olinda - Pernambuco - Brasil



Os Resultados de Estratégias para Mitigar os Impactos Ambientais Causados pela Fotopoluição na Conservação de Tartarugas Marinhas

Victor José de Andrade Patiri

Sandra Neusa Marchesini Ferreira

Elizabete Lacerda Domingos

Fundação Pró TAMAR

COELBA

COELBA

victor@tamar.org.br

sferreira@coelba.com.br

edomingos@coelba.com.br




Gustave Gilles Lopez







Fundação Pró TAMAR







guslopez@tamar.org.br






Palavras-chave:

Fotopoluição

Gestão Ambiental

Mitigação de Impactos

Tartarugas Marinhas

Resumo


Este trabalho mostra os resultados da gestão ambiental na mitigação dos impactos causados pela fotopoluição, nos ecossistemas costeiros utilizados pelas tartarugas marinhas para a realização do ciclo reprodutivo.

As áreas remanescentes de reprodução das tartarugas marinhas, consideradas prioritárias para a conservação destes animais ameaçados de extinção, localizam-se no litoral leste e nordeste do país. São áreas que possuem belezas cênicas e vocação turística, a exemplo do litoral norte do Estado da Bahia, que vem atraindo a implantação de diversos empreendimentos.

Como resposta a esta pressão antrópica, desde 1990 vêm sendo desenvolvidas ações de cooperação técnica envolvendo a participação do Setor Público, através do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade - ICMBIO, autarquia vinculada ao Ministério do Meio Ambiente, da Sociedade Civil, através da Fundação PRÓ-TAMAR e Setor Privado, através da COELBA. Como resultados dessa parceria foram obtidos os seguintes resultados: Diagnóstico dos impactos ambientais causados pela fotopoluição na reprodução das tartarugas marinhas, Elaboração de normas e critérios para mitigar esses impactos, Orientações para os diversos segmentos da sociedade (órgãos públicos, empreendedores, fabricantes de material elétrico, projetistas e comunidade local) para o cumprimento dos critérios e Início da construção de consensos visando superar os interesses antagônicos no uso de solo.



  1. INTRODUÇÃO

As tartarugas marinhas são consideradas espécies ameaçadas de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, 2005) e Governo do Brasil, através  das Portarias IBAMA nº.186/90, nº. 1.522 e n° 45/92; Decreto nº. 3.842/2001. No litoral brasileiro é registrada a ocorrência de 5 espécies de tartarugas marinhas: Caretta caretta (tartauga cabeçuda); Chelonia mydas (tartaruga verde); Eretmochelys imbricata (tartaruga de pente); Lepidochelys olivacea (tartaruga oliva) e Dermochelys coriacea (tartaruga de couro) (2) (MARCOVALDI & MARCOVALDI, 1999, p. 35-41).

Populações dessas espécies visitam regularmente partes das costas sudeste e nordeste do Brasil em períodos sazonais para desovarem. A postura ocorre entre os meses de setembro e março nas regiões costeiras, e de dezembro a julho nas ilhas do Oceano Atlântico ( Atol das Rocas, Fernando de Noronha e Trindade).

No Brasil, desde 1980, através do Programa Nacional de Proteção, Conservação e Manejo das Tartarugas Marinhas – Projeto TAMAR- ICMBIO são executadas políticas públicas afirmativas para a conservação destes animais. Em complementariedade às ações do Estado, a partir de 1988, a Sociedade Civil através da Fundação PRÓ-TAMAR, participa ativamente como suplementação às ações governamentais. Hoje o TAMAR monitora cerca de 95% das áreas prioritárias de nidificação e alimentação das tartarugas marinhas no Brasil (veja Figura 1).

Estes animais são espécies migratórias que ocupam uma ampla variedade de ambientes e regiões geográficas

distintas, em diferentes fases do ciclo de vida - reprodução, alimentação e repouso. Assim, segundo a Convenção Sobre Diversidade Biológica (CDB) – Nairobi, Kenya, 2000, possuem o status de patrimônio natural compartilhado. As estratégias prioritárias para conservação e manejo destes animais são elaboradas em fóruns internacionais.

Figura 1- Distribuição de desovas de tartarugas marinhas ao longo da costa brasileira


O Brasil, signatário da CDB, e conforme as prioridades estabelecidas pela “ Estratégia 2” da Agenda 21 Brasileira recomenda que devem ser estimulados procedimentos voltados à proteção e conservação das espécies ameaçadas de extinção, envolvendo técnicas in situ e ex-situ, proteção de ecossistemas e habitat, incluindo, dentre outras, o manejo sustentável (1) (BRASIL, 2002, p. 52-53).


Neste contexto, o plano de manejo do Projeto TAMAR- ICMBIO, foi elaborado tendo em vista três estratégias principais: 1) a conservação das tartarugas marinhas que foi concebida a partir da bioecologia das 5 espécies; 2) a identificação dos agentes que levaram estes animais à ameaça de extinção e, 3) a identificação e intervenção nas relações de causa e efeito.
Uma das principais metas para a conservação das tartarugas marinhas é reduzir ao máximo os efeitos negativos causados pelos seres humanos, como a alteração das características ambientais do habitat. Atualmente, a iluminação artificial é um dos tensores antrópicos de maior causa de distúrbios para o sucesso da conservação destes animais. Conhecida como fotopoluição, a presença prejudicial da iluminação artificial no meio ambiente afeta as tartarugas marinhas, principalmente em suas áreas de desova, mas também no mar ( Salmon & Lorne 2007). As intensidades luminosas artificiais entre 0 (zero) e 1 (um) lux sensibilizam e desorientam as tartarugas marinhas (3) (PATIRI & FERREIRA & MOREIRA Fº., 1992, p. 11), podendo inclusive colocar em risco a sobrevivência destes animais, e consequentemente, os programas de conservação estabelecidos.
Possuem igualmente o potencial de interferir em etapas fundamentais do ciclo de vida, pois: 1) alteram o comportamento das fêmeas matrizes no momento da seleção das áreas utilizadas para a nidificação, 2) provocam a desorientação das fêmeas matrizes desovantes no momento do retorno para o mar e 3) causam, principalmente, a desorientação dos filhotes no momento de migrarem para o oceano. Como a postura dos ninhos é realizada nas praias preferencialmente durante à noite, o efeito negativo mais claro demonstrado pela fotopoluição é que as fêmeas matrizes desistem de sair da água em praias com a presença de luzes artificiais originadas de edificações, estradas, avenidas e calçadões públicos à beira-mar. Muitas vezes, essas fêmeas são forçadas a buscar outras áreas menos apropriadas, colocando em risco o sucesso da eclosão dos ovos. Alguns autores citam a diminuição das atividades de nidificação em praias iluminadas e urbanizadas (7) (TALBERT & STANCYK & DEAN & WILL, 1980 pp.709-719) restringindo, assim, o número de áreas remanescentes utilizadas para a desova, o que torna estes animais mais vulneráveis à extinção. Outros tensores antrópicos também influenciam de forma sistêmica na alteração das características ambientais dessas áreas como o aumento das atividades humanas ao largo das edificações próximas à linha de praia, originadas pelas instalações de complexos turísticos, condomínios, áreas de lazer e terminais marinhos adjacentes ou integrados a complexos industriais.
Os filhotes, por sua vez, nascem preferencialmente à noite e caminham imediatamente em direção ao mar. As incidências de luzes artificiais próximas aos ninhos causam a desorientação dos filhotes. Ao invés de entrarem no mar, os filhotes vão em direção dos raios luminosos polarizados pelas luzes artificiais, ao contrário da iluminação natural difusa originada dos corpos celestes. Podem também ficar andando em círculos, facilitando e induzindo a predação por outros animais, comprometendo processos de seleção natural. Ao amanhecer, com ação dos primeiros raios solares, os filhotes acabam morrendo por desidratação. Podem causar a morte de até 95% dos filhotes de um mesmo ninho (4) (MC FARLANE, 1963 p 153).
O Projeto TAMAR- ICMBIO e a COELBA vêm atuando, em regime de cooperação técnica, com o objetivo de mitigar os impactos ambientais causados pela interferência da fotopoluição nas áreas de reprodução das tartarugas marinhas.
Neste contexto, desde 1990 vêm sendo realizadas ações específicas visando não só identificar e intervir nas relações de causa e efeito, como também buscar alternativas de desenvolvimento viáveis, considerando que a maioria das áreas afetadas possui grande beleza cênica e vocação turística. Assim, com seus ecossistemas frágeis (restingas, dunas, praias arenosas, recifes de coral, e manguezais), as adjacências das áreas de reprodução de tartarugas vêm sendo ocupadas por um grande número de empreendimentos, fator que pode colocar em risco a capacidade de suporte destes ambientes e que, sem critérios específicos, pode, inclusive, comprometer o sucesso das atividades de proteção. As ações promovidas pela Cooperação Técnica Projeto TAMAR- ICMBIO e COELBA encontram-se descritas no próximo ítem.

2. METODOLOGIA
As atividades relacionadas à mitigação dos impactos ambientais causados pela fotopoluição nas praias de nidificação de tartarugas marinhas, podem ser divididas em três diferentes etapas de trabalho, embora ocorram sobreposição e interação entre elas:

  • 1ª etapa - O desenvolvimento de legislação específica;

  • 2ª etapa - A realização de campanhas de educação ambiental e;

  • 3ª etapa - A promoção de pesquisas para o aprimoramento do conhecimento científico na área de fotopoluição.

2.1 O Desenvolvimento de Legislação Específica


Trabalhou-se para a criação de Legislação específica, a nível Federal e Estadual, que restringem a presença de luzes nas principais áreas de desovas. A idéia não era apenas obter um instrumento jurídico, mas também de prover meios legais para direcionar os futuros projetos de iluminação nas adjacências das áreas prioritárias e consideradas críticas para a proteção e manejo das tartarugas marinhas. Em 28 de setembro de 1990, o IBAMA publicou a Portaria nº. 1.933 proibindo a instalação de qualquer fonte de iluminação artificial direta à beira-mar em 63 diferentes praias ao longo da costa do Brasil .
Seguindo a experiência prática, com o conhecimento das relações de causa e efeito, esta Portaria foi substituída em 30 de janeiro de 1995 pela Portaria nº. 11 que além de ter incluído novos trechos de praias, estabeleceu critérios específicos para o nível de iluminação. Assim, ficou proibida a instalação de qualquer fonte de iluminação que ocasione intensidade luminosa superior a ZERO LUX, numa faixa compreendida entre a linha de maior baixa-mar até 50 metros acima da linha de maior pré-a-mar do ano (maré de sizígia) nas áreas de nidificação.
Em 13 de fevereiro de 1997, o Estado da Bahia promulgou a Lei Estadual nº. 7.034, adotando os mesmos critérios técnicos estabelecidos pela Portaria nº. 11. Destaca-se que a promulgação da Lei Estadual proveu poder legal para reforçar as atividades do Projeto TAMAR- ICMBIO, principalmente, no Litoral Norte da Bahia. Essa região litorânea é reconhecida a nível mundial, pelo Comitê Executivo da Convenção Interamericana para a Proteção e Conservação das Tartarugas Marinhas, como a principal área de nidificação da América Latina para as tartarugas marinhas Caretta caretta (tartauga cabeçuda); e do Atlântico Sul para as Eretmochelys imbricata (tartaruga de pente).


    1. A Realização de Campanhas de Educação Ambiental

O foco principal das campanhas de educação ambiental é a de informar ao público alvo, usuários das praias, moradores, visitantes e empreendedores, que estejam diretamente envolvidos com a utilização de luzes artificiais adjacentes às áreas de nidificação. A experiência vem mostrando que, geralmente usuários das praias bem informados tornam-se aliados em mudar ou reduzir as luzes para mitigar os efeitos negativos sobre as áreas de desovas. Assim, reduzindo-se as luzes eles se tornam ativos protagonistas na conservação das tartarugas marinhas.


Desta forma são utilizadas diversas ferramentas de comunicação para promover e desenvolver campanhas educacionais sobre o tema “Fotopoluição e Tartarugas Marinhas”. Estas ações incluem marketing (publicidade, relações públicas, eventos especiais), grande mídia (rádio, televisão, jornais, revistas e internet), e material educativo (vídeos de curta duração, panfletos, pôsteres) e palestras. Muitas vezes, durante o período de alta estação, que coincide com parte do período de reprodução das tartarugas marinhas, utiliza-se o espaço publicitário da própria conta de luz para se divulgar mensagens educativas dirigidas ao público alvo. Também se utiliza da estratégia de distribuir porta a porta mensagens procurando atingir diretamente os residentes nas casas ou negócios localizados à beira–mar (veja Figura 2).\

Figura 2- Exemplo de mensagens procurando atingir diretamente aos usuários das praias/






    1. A Promoção de Pesquisas para o Aprimoramento do Conhecimento Científico na Área de Fotopoluição

Com a publicação da Portaria nº.1.933, tornaram-se públicas aos diferentes stakeholders (Poder Público, Companhias de Distribuição de Energia Elétrica, Fabricantes de Materiais Elétricos, Projetistas dentre outros), as questões referentes ao tema “fotopoluição e tartarugas marinhas”. Entretanto, na ocasião, ainda não havia, no Brasil, conhecimentos específicos sobre o assunto. Assim a COELBA e o PROJETO TAMAR- ICMBIO, em regime de parceria, iniciaram uma série de pesquisas científicas visando encontrar soluções técnicas e propor a elaboração de normas e critérios de iluminação para as áreas protegidas pela Legislação Vigente.
As atividades práticas foram iniciadas no litoral norte da Bahia. O trecho de praias delimitado entre o Farol de Itapuã, município de Salvador, e Mangue Seco, município de Jandaíra, foi escolhido como “piloto”. Assim, durante os primeiros anos da década de 90 foram testados, em ambiente natural, diversos tipos de luminárias e lâmpadas que eram frequentemente utilizadas nas redes de Iluminação Pública com o objetivo de se investigar a reação dos filhotes de tartarugas marinhas à iluminação artificial, ou seja, procurou-se diagnosticar o menor nível de iluminação necessário capaz de causar a desorientação dos filhotes de tartarugas marinhas, no momento em que eles caminham em direção ao mar. Em paralelo, também se procurava identificar eventuais sistemas de iluminação menos impactantes. Os experimentos foram realizados na Praia de Interlagos, município de Camaçari, importante área de nidificação. Utilizou-se como metodologia, a realização de diversos transects a partir de 01 poste com diferentes luminárias e lâmpadas com altura de montagem oscilando entre 6 m e 8 m. Utilizando-se de uma trena de 50 m e luxímetro digital, em pontos pré-determinados, relacionados com a distância do poste como ponto de origem, eram liberados filhotes de tartarugas marinhas e medidos os níveis de iluminação e observado o comportamento dos animais. A cada experimento, os filhotes eram substituídos (5) (PATIRI & FERREIRA & MOREIRA Fº., 1992, p. 5-9). Os resultados encontrados mostraram que, independentemente dos diversos tipos de luminárias e tipos de lâmpadas testadas (incandescente, mista, fluorescente, vapor de mercúrio, vapor de sódio) em diferentes potências (entre 40 w e 360 w), o nível de iluminamento entre zero lux e menor que 1 lux sensibilizavam algumas espécies, impedindo que a maioria dos filhotes caminhassem em direção ao mar. Assim, recomendou-se por precaução que a liberação dos futuros projetos de iluminação de ruas, condomínios, hotéis e similares, propostos para as áreas protegidas pela Legislação Vigente, fosse submetida à aprovação prévia do Projeto TAMAR- ICMBIO em parceria com as concessionárias de distribuição de energia elétrica do referido local (PATIRI & FERREIRA & MOREIRA Fº., 1992, p. 10-11). Esta recomendação foi posta em prática no Estado da Bahia a partir de 1993.
Com a chegada de novos sistemas de iluminação ao mercado, vêm sendo realizados novos experimentos, conforme a oferta de fabricantes de material elétrico, utilizando-se sempre a mesma metodologia. Entretanto, em que pese a melhoria do desempenho das luminárias, principalmente quanto à capacidade de controlar a dispersão dos raios luminosos, a limitação do nível de iluminação de ZERO LUX continua a ser o fator limitante para a desorientação dos filhotes de tartarugas marinhas.
Tomando como base os resultados de pesquisa, com a definição do limite de Zero Lux, e aplicando o critério da precaução, foi sugerido e acatado pelo Poder Público a adequação da legislação e definida a área de restrição de iluminação conforme a disposição normal da distribuição dos ninhos ao longo da linha de praia, ou seja, até 50 m acima da linha de maior pré-a-mar das marés de sizígia.



  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES

As três etapas de trabalho descritas foram sendo implantadas gradativamente ao longo dos últimos 15 anos de trabalho, através do “learning by doing”. Elas interagem entre si, dando sustentabilidade às ações e visando, principalmente, compatibilizar a conservação das tartarugas marinhas com o uso e ocupação criteriosa das áreas adjacentes às praias.


Apesar dos paradigmas contemporâneos de desenvolvimento (Desenvolvimento Sustentável, Desenvolvimento Local) estarem sendo incorporados gradativamente nas políticas públicas do País, este tipo de pesquisa aplicada ainda é considerado uma área nova e portanto, sujeito a uma série de percalços. A seguir são apresentados alguns desafios e recomendações para continuidade das ações.
Com referência aos aspectos legais, recomenda-se que as Assembléias Legislativas dos Estados que possuam áreas de desova de tartarugas em seu litoral, elaborem Leis específicas de proteção a estas espécies, a exemplo do que foi feito no Estado da Bahia.
Do mesmo modo, recomenda-se que os empreendedores, ao elaborarem seus projetos, considerem a necessidade de evitar a fotopoluição nas praias de desova e utilizem os seguintes critérios:

  • Construir o mais afastado possível destas áreas;

  • Consultar os órgãos ambientais competentes e o Projeto TAMAR- ICMBIO sobre os requisitos exigidos para os projetos de iluminação;

  • Evitar a ocorrência de riscos de fotopoluição desde o início da construção a sua fase de operação. Na fase de construção, a iluminação nos canteiros de obra e os horários de trabalho devem ser compatíveis, de modo a evitar a fotopoluição. Na finalização da obra devem ser feitos os eventuais ajustes necessários para a preservação das características ambientais. Em paralelo, devem também ser realizadas campanhas de educação ambiental para contínuo esclarecimento dos empregados locais e para a posterior orientação dos usuários;

  • Privilegiar o uso de sistemas de iluminação indireta em construções direcionadas para as áreas de desova, como varandas, restaurantes, áreas de lazer, vias de acesso e etc.

Os empreendedores de complexos turísticos devem considerar que a conservação preservação da tartaruga marinha é um atrativo turístico e que a destruição das áreas de desova reflete negativamente na imagem do empreendimento, tanto nacional como internacionalmente, provocando como conseqüência, o afastamento dos turistas.


Os órgãos ambientais, responsáveis pela emissão de licenças, a nível federal, estadual e municipal, devem estar atentos à questão da fotopoluição tanto na fase de construção do empreendimento quanto no seu funcionamento e só devem liberar empreendimentos que atendam os critérios técnicos de ZERO LUX nas áreas de desova de tartarugas marinhas e na ausência de horizonte luminoso.
As prefeituras municipais, no momento de solicitação do alvará de construção, devem previamente orientar o empreendedor sobre a sensibilidade ambiental das áreas de desova de tartarugas marinhas.
Com referência à continuidade das pesquisas, uma vez diagnosticado o nível de iluminação capaz de desorientar as tartarugas marinhas, o desafio atual é de aprimorar a melhor compreensão sobre a forma de se mensurar o impacto ambiental causado pelo efeito do horizonte luminoso. Observa-se a construção, quase que simultânea, de diversos empreendimentos em diversas áreas do litoral do nordeste do Brasil, consideradas prioritárias para a conservação destes animais ameaçados de extinção. Uma má avaliação sobre a fragilidade dos ecossistemas costeiros e seus respectivos limites da sustentabilidade ambiental pode colocar em risco o trabalho de conservação das tartarugas marinhas desenvolvido há cerca de 25 anos no Brasil.
Para esta situação fática, recomenda-se a aplicação do princípio da precaução conforme o previsto em legislação vigente que dispõe sobre as regras de uso e ocupação da zona costeira e estabelece critérios de gestão da orla marítima. Assim, a título de recomendação, é apresentado um quadro contendo informações, recomendações e conceitos atualizados, referentes às características de sistemas de iluminação para auxiliar a elaboração de projetos adjacentes ou próximos às áreas de desovas de tartarugas marinhas (veja Tabela 1).

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
(1) BRASIL. AGENDA 21 Brasileira - Ações Prioritárias.. Brasília: Ministério do Meio Ambiente/PNUD, 2002, p. 52-53.

(2) MARCOVALDI, Maria Angela; MARCOVALDI, Guy . Marine turtles of Brazil: the history and structure of Projeto TAMAR-IBAMA. Biological Conservation, [S.I.], v. 91, 1999, p. 35-41.

(3) MARCOVALDI, Maria Angela, PATIRI, Victor., THOMÉ João Carlos. Projeto TAMAR-IBAMA: 24 Years of a community-based conservation program to protect brazilian sea turtles In: Maritime Studies – MAST. Special Issue 3(2): Sea Turtles as a Flagship Species – Frazier Jack (Org) Chapter 2, Amsterdã, Holanda, 2005 , p.39-62.

(4)Mc FARLANE, R.W. 1963. Disorientation of logger-head hatchilings by artificial road lightning. Copeia [S.I.], Estados Unidos, 1963, p. 1-153

(5)PATIRI, Victor José de Andrade; FERREIRA, Sandra Neusa Marchesini e MOREIRA Fº., Godofredo Carneiro. A Influência da iluminação artificial na reprodução das tartarugas marinhas. XI Seminário Nacional de Distribuição de Energia Elétrica. SENDI, Blumenau, 1992, p. 1-20.

(6) PATIRI, Victor, Ferreira Sandra; Lopez Gustave e Domingos, Elisabete. The results of strategies to mitigate environmental impacts caused by light pollution in the conservation of sea turtles in Brazil In: Abstracts Volume – 27th Annual Conference International Association for Impact Assessment –IAIA, Seoul, Korea, 2007, p .113-114.

(7)TALBERT, O.R., Jr., S.E.STANCYK, J.M.DEAN and J.M.WILL 1980. Nesting activity of the logger-head turtle (Caretta caretta) in South Carolina. I. A rookery in transition. Copeia [S.I.], Estados Unidos, 1963, 1980, p. 709-719.
Tabela 1- Recomendações e Conceitos para a elaboração de projetos adjacentes próximos a áreas de desovas de tartarugas marinhas - Iluminação de Vias e ornamentação e de varandas. (PATIRI; FERREIRA ; LOPEZ & Domingos, 2007)


Características do

Sistema


de Iluminação

Melhor para a Conservação

das


Tartarugas Marinhas

Pior para a Conservação

das


Tartarugas Marinhas

Conseqüências

Impactos ambientais



1º Ecoeficiência

dos Sistemas de Iluminação



Maior Performance: maior eficiência e controle sobre as áreas a serem iluminadas.


Menor Performance: menor eficiência e controle sobre as áreas a serem iluminadas.



Maior possibilidade de dispersão dos raios luminosos e formação de horizonte luminoso.

Maior consumo de energia elétrica.



2º Orientação da Luminária

Praia - Interior

(Anteparo).



Interior - Praia

(Sem Anteparo).



Maior possibilidade de dispersão dos raios luminosos.

3º Altura do Poste

Mais baixo.

Mais alto.

Maior possibilidade de dispersão dos raios luminosos.

4º Luminárias / aplicações

  • Para Iluminação de vias de rolamento e calçadões.




  • Para Iluminação de varandas e fachadas.




  • Para iluminação de passeios e caminhamentos.

Cut – off, em postes paralelas ao solo com vidro plano e anteparo.

Luminárias embutidas em paredes e tetos.

Luminária com anteparos.



Sem anteparos e vidro multifacetado.


Luminárias externas inclinada para cima.

Luminária sem anteparos.


Maior possibilidade de dispersão dos raios luminosos.

Formação de horizonte luminoso.



5º Braço do Poste


Paralelo ao solo formando ângulo de 90º com o poste.

Inclinado para cima.

Formação de horizonte luminoso.

6º Bulbo Luminoso


Embutido na luminária.

Exposto.


Maior possibilidade de dispersão dos raios luminosos e formação de horizonte luminoso.

7º Lâmpadas


Vapor de Sódio.

Mista, Metálica e Incandescente.

Lâmpadas mais sensíveis para as tartarugas marinhas.

8º Potência da lâmpada


Menor

Maior

Formação de horizonte luminoso e maior consumo de energia elétrica.


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