Xxi-xxii, 2000-2001 monte mozinho. A recuperaçÃo do sector b



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Nova Série, Vol. XXI-XXII, 2000-2001

MONTE MOZINHO. A RECUPERAÇÃO DO SECTOR B

Teresa Soeiro *



ABSTRACT:

In this paper we aim at reporting the archeological campaigns that took place in the castro of

Monte Mozinho, Penafiel, in the years from 1995 to 1997. They were centered in already digged

areas of B sector, externai to the first wall, N and NE, alongside the road that is the back-bone of

the village, showing occuparions from the l and III/IV th centuries D.C.

Down the slopes of the settlement, outside the ramparts and beyond the necropolis, as found in

other castro sites, a different kind of construction emerged, to be studied in detail in future

excavations.

As escavações arqueológicas efectuadas em Monte Mozinho nos anos de 1995 e 1997, com autorização concedida pelo IPPAR [PNTA001209/95/IPPAR-P e PNTA001097/97/IPPAR-P], incidiram no denominado sector B, talude seguido de grande plataforma pouco ondulada no exterior da mura­lha I, área voltada a Norte e Este, ladeando a calçada que constitui o eixo principal do povoado (Fig.1).

Tratava-se fundamentalmente de continuara recuperara informação possível no remanescen­te das estruturas e estratigrafias postas a descoberto nas décadas de quarenta/cinquenta por Elísio Ferreira de Sousa, o qual nos deixou apenas um parquíssimo relatório dos mais de dez anos de trabalhos efectuados nesta área de Mozinho1. Dessa publicação2 retirámos a fotografia correspon­dente às estruturas (Fig.2.1), para melhor aproveitar este testemunho único, o qual não pudemos valorizar com nenhuma descrição da época3. No levantamento topográfico de 19644 estas estrutu­ras continuam visíveis, mas já com muitas indefinições (Fig.2.2).

Também não possuímos uma recolha de espólio específica, uma vez que todos os materiais

* Departamento de Ciências e Técnicas do Património da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Via Panorâmica, s/ N.° 4150-564 Porto.



1 SOEIRO, Teresa, 1998 - Monte Mozinho: 25 anos de trabalhos arqueológicos. Cadernos do Museu. 2, Penafiel, Museu Municipal
de Penafiel, p. 12.

2 SOUSA, Elísio Ferreira de, 1954 - Relatório das escavações levadas a efeito no Monte Mozinho. Douro Litoral. 6a série, 5-6, Porto,
Junta de Província do Douro Litoral, p. 136-149.

3 Em vão procurámos a documentação relativa a estas primeiras escavações, sobretudo os relatórios anuais, que tão pouco agrada­-
ram a Mendes Corrêa e Mário Cardozo. Mas, o processo parece continuar perdido, como já estava há décadas atrás, quando sem melhor
sucesso o buscaram.

4 s/a, 1965 - Levantamento topográfico do Mòsinho. Penafiel. Boletim da Comissão Municipal de Cultura de Penafiel. 2a série, 3,
Penafiel, Comissão Municipal de Cultura de Penafiel, p. 78

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colectados por aquele investigador, excepto parte dos tesouros numismáticos, deram entrada no Museu de Etnografia e História da Junta de Província do Douro Litoral (Porto), entidade patrocinado­ra, sem outra informação que não a de provirem deste castro.

Quando em 1974 Carlos Alberto Ferreira de Almeida reabriu as escavações de Mozinho5, todo este sector B se encontrava já muito degradado, com um aspecto bem diferente do que apresentava nas fotografias de duas décadas antes. Foi parcialmente limpo de vegetação, tendo os trabalhos começado na sua parte superior, junto do monumento (BC), estendendo-se pouco para as quotas mais baixas por a opção ter recaído na abertura de uma longa vala que permitisse uma primeira leitura da diacronia e distribuição espacial da ocupação do povoado, com particular incidência na descoberta e transposição das suas sucessivas muralhas, muito perceptíveis no terreno mesmo antes da intervenção.

Assim, a área inferior do sector B ficou então mais uma vez por interpretar6, não sendo de modo algum satisfatória a planta das estruturas esboçada para a publicação, como tantas vezes sublinhou o autor, visivelmente incomodado com a falta de trabalhos neste local, que permitissem a sua integração no quadro do conhecimento sobre o povoado que a cada ano se acrescentava.

Em 1984 publicámos novamente o material que no Museu de Etnografia e História existia de Mozinho7, exceptuados os tesouros numismáticos sobre os quais se debruçara primeiro o achador8 e depois Mário de Castro Hipólito9 e Isabel Pereira10 , sendo de data mais recente um novo trabalho em que foi posto maior cuidado no reagrupamento dos numismas efectivamente pertencentes a cada um dos conjuntos descobertos11.

Para uma melhor exequibilidade do trabalho de recuperação da informação arqueológica divi­dimos este demasiado extenso e diversificado sector B em três subsectores, acrescentando-lhe uma letra, A a C. Assim, a parte escavada do sector B passou a estar repartida entre BA, conjunto a Este da calçada demarcado por uma antiga parede de quarteirão, BB, a Norte da mesma calçada, simétrico ao anterior, e BC, área em volta do monumento, que sobe até à muralha12. A retirada dos antigos montes de entulho que quebravam a ligação visual entre estes subsectores, efectivada em 1998, e uma melhor observação das estruturas que afloram ou já foram escavadas levarão no futuro, certamente, a novos ajustamentos nesta repartição do espaço por unidades de intervenção.

1. A plataforma no exterior da Muralha I

Escavámos em 1995 no talude exterior à muralha I e ao seu reforço, para Norte da porta, espaço que já tinha sido aflorado em 1974, devido à abertura da vala de sondagem no sentido do topo do povoado, partindo de BC. O seu primeiro tramo, designado por I, com a largura de um metro, cruzou o reforço e a muralha em local bem perceptível por estar o pano de muro mais exposto e derribado pelas intempéries. Esta vala foi nesse ano alargada para Sul, sendo lançadas duas quadrí-



6 ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, 1974 - Escavações no Monte Mozinho (1974). Penafiel, Centro Cultural Penafidelis.p. 8-9.

7 SOEIRO, Teresa, 1984- Monte Mozinho. Apontamentos sobre a ocupação entre Sousa e Tâmega em época romana. Penafiel.
Boletim Municipal de Cultura. 3a série, l, Penafiel, Museu Municipal de Penafiel, p. 257-289.

8 SOUSA, Elísio Ferreira de, 1965 -As moedas encontradas na citânia do Mosinho (cidade morta) e as suas possíveis conclusões.
Lucerna. 4, Porto, Centro de Estudos Humanísticos, p. 249-269.

9 HIPÓLITO, Mário de Castro, 1960-1961 - Dos tesouros de moedas romanas em Portugal. Conimbriga. 2-3, Coimbra, Instituto de
Arqueologia, p. 46-47, n° 54 e 55.

10 PEREIRA, Isabel, 1974- Achados monetários do Monte Mozinho, Penafiel. Conimbriga. 13, Coimbra, Instituto de Arqueologia, p. 75-
167.

11 LIRA, Sérgio, 1984-1985 - Um tesouro monetário romano de Monte Mozinho. Nvmvs. 2a série, 7-8, Porto, Sociedade Portuguesa
de Numismática, p. 59-75.

12 SOEIRO, Teresa, 1998 - Monte Mozinho: a escavação do sector D. Cadernos do Museu. 2, Penafiel, Museu Municipal de Penafiel,
p. 91.

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MONTE MOZINHO. A RECUPERAÇÃO DO SECTOR B

cuias de quatro metros de lado. Pela planta e relatório então publicados13 verifica-se que entre o reforço exterior da muralha e a linha de afloramentos graníticos que o sustentavam não apareceram outras estruturas senão os muros de suporte, entre penedos, por vezes apenas com uma face, de direcção nem sempre coerente. Já a uma quota inferior surgiu uma construção circular.

Nos anos seguintes só esporadicamente se voltou a escavar aqui, permanecendo os dados por publicar até ao relatório de 198414. Maior atenção fora concentrada no corredor entre a muralha e o seu reforço, com o objectivo de datar e relacionar as duas construções15.

Em 1995 retomámos a escavação desta plataforma (Fig.3), abrindo caminho ao percurso em redor da muralha, pelo exterior, importante para os itinerários de visita. Actuámos sobre o terreno de forma diferenciada, de acordo com a situação pré-existente, ou seja, dividimos a área a Sul da vala e quadrículas de 74 em três lotes perpendiculares à muralha, em grande parte já escavados mas nos quais restavam banquetas; enquanto para NW da vala de 74 o terreno estava pouco explorado, pelo que optámos pela quadrícula de 4x4m, agrupando alguns quadrados já parcialmente abertos e que recaíam sobre a muralha. Como limites da escavação utilizámos por um lado a muralha e seu reforço e, por outro, como diferenciação em relação ao restante sector B, os penedos que, com a ajuda dos muros de suporte, demarcam a plataforma. No extremo Norte da área escavada, a plataforma alar­ga-se e suaviza-se, não nos tendo sido possível abarcá-la, pelo que só em novas campanhas dirigidas neste sentido se poderá interpretar as estruturas construídas que agora começámos a descobrir.



1.1. Estruturas e estratigrafia

As estruturas construídas, em blocos irregulares de granito trabalhado a pico unidos por uma argamassa de saibro, estão, nesta plataforma, profundamente destruídas, ao nível das fiadas inferi­ores, e incompletas, o que não permite uma leitura clara da planta. O afloramento da rocha também criou desequilíbrios e ajudou a esta má preservação das construções, excepto as pequenas parcelas que ficaram anichadas nos seus requebros.

Como dissemos antes, a plataforma está delimitada por uma série de penedos proeminentes, existindo no intervalo entre eles muros de suporte, muito derrubados, já registados na planta de 1974. Na área agora escavada pela primeira vez, estes muros, genericamente, já não existiam, restando algumas pedras esparsas. Tudo o mais deve ter sido levado pela erosão, até porque a potência estratigráfica junto dos penedos da borda é quase nula.

De Sul para Norte a primeira construção com que deparamos, próximo ao penedo que ladeia a entrada, está reduzida à última fiada, de pedras grandes e picadas colocadas com cuidado sobre um lastro de saibro. Descreve um arco, adossado ao penedo, e está incompleta do lado da encosta. Pela irregularidade do solo deve já estar a um nível inferior ao de utilização.

Um pouco mais para Norte, sensivelmente paralelo à muralha e cruzando a vala de 1974 e a leitura de 95, está um outro troço de parede feita de pequenos blocos de granito, unidos por saibro, de que se vêem também só as últimas fiadas, algo mais numerosas sob a protecção do penedo a que se encosta. Primeiramente desenvolvendo-se em recta e depois descrevendo um ângulo de vértice arredondado, estes vestígios poderiam ter pertencido a um pátio. No interior encontrámos um penedo aplanado, restos de piso e parte do lastro de uma lareira. Pela leitura estratigráfica verificá­mos que apenas o pouco material do nível 3, o mais fundo entre o reforço da muralha e o muro, pode

13 ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, 1977 - Escavações no Monte Mozinho II (1975-1976).Penafiel, Centro Cultural Penafidelis p.
8elO.

14 SOEIRO, Teresa, 1984 - Monte Mozinho. Apontamentos sobre a ocupação entre Sousa e Tâmega em época romana. Penafiel.
Boletim Municipal de Cultura. 3a série, l, Penafiel, Museu Municipal de Penafiel.

15 ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, 1974 - Escavações no Monte Mozinho (1974).Penafiel, Centro Cultural Penafidelis, p. 7.

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ser contemporâneo da utilização deste.

Na área escavada pela primeira vez descobrimos, nos quadrados 12 e 13, um outro muro semelhante, também muito destruído que, pela curvatura que apresenta, pouco cuidado de apa­relho e falta de consistência do piso interior, poderá ser igualmente de delimitação de uma unida­de habitacional, possibilidade a verificar aquando da ampliação da área escavada. Deixámos para o fim uma referência ao curioso sistema de escoamento das águas acumuladas no interior do primeiro circuito defensivo. Os esgotos, vazando a muralha, parecem contemporâneos da construção desta e são mais um elemento a contribuir para a sua fragilização, uma vez que um humano poderia, com não muita dificuldade, penetrar por estas aberturas. Recordámos, da esca­vação de 1978 e 79, que o canal de esgoto que atravessa a muralha e o reforço era, no espaço entre ambos, formado por paredes de alvenaria bem picada e capeado, permitindo portanto a elevação sobre ele do pano defensivo. O segundo esgoto encontrava o muro de reforço no ponto de junção com a muralha. No penedo em que esta assenta e diante dos dois esgotos parece existirem, entalhados na rocha, dois regos que depois se unem; mais um factor para, por dirigir o escoamento das águas encosta abaixo, explicar a má conservação das estruturas que estivessem diante dele.

A estratigrafia (Fig.4) de toda a área escavada é bastante semelhante, ao menos na sua pouca potência e precaridade de informação. Em alguns locais alcança maior volume, como na­quele em que realizámos a primeira leitura, mas isso deve-se ao acumular de entulhos das ante­riores campanhas. Pelo contrário, junto da muralha, as camadas de derrube já haviam sido levan­tadas para permitir a consolidação.

Na primeira das leituras, paralela à vala de 1974, cerca de meio metro recuada, vemos um grande amontoado de entulhos das anteriores campanhas, seguindo-se o primeiro estrato, de terra negra e com muita pedra de construção proveniente do derrube das defesas. Sob este encontrámos uma terra amarelada e saibrosa, ainda com pedras grandes junto da muralha mas, mais afastado desta, sobretudo com pedra miúda. A terceira camada, de terra acinzentada, com pouca pedra pequena e algum pico do trabalho do granito, estende-se apenas entre o reforço da muralha, onde tem maior potência, e o muro que lhe é paralelo. Corresponderá à ocupação da área.

Na segunda leitura, no limite Norte da escavação, reconstituiu-se o perfil completo a partir de vestígios aderentes à face da muralha e de apontamentos antigos, sendo que em 1995 os dois níveis superiores, um de terra vegetal com muita pedra proveniente do derrube e outro, inferior, mais amarelo e saibrento mas ainda com bastante pedra picada, já não existiam. Restava-nos apenas, junto da muralha, um terceiro nível, de terra cinzenta e fina. Para o interior da parede aqui posta a descoberto reencontrámos estes mesmos níveis, a que se sobrepunha o entulho das escavações. Rapidamente, porém, desapareciam as camadas inferiores, deixando que a terra vegetal de superfície pousasse directamente sobre o penedo.

1.2. Espólio

Na escavação de 1974 o espólio recolhido nesta plataforma exterior ao reforço da muralha apresentava já pouca homogeneidade. De fragmentos castrejos a ânforas imperiais antigas e sigilatas hispânicas, tudo se juntava, inclusivamente apareceu um asse do centro emissor hispâni­co de Calagurris16. Nessa altura o conjunto de materiais foi analisado, mas faltava ainda conhecer outros sectores do povoado para se aferir da sua significação. Já o mesmo não aconteceu quando,



16 ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, 1974 - Escavações no Monte Mozinho (1974).Penafiel, Centro Cultural Penafidelis, p. 19.

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MONTE MOZINHO. A RECUPERAÇÃO DO SECTOR B

em 1977, foi publicado novo relatório17. Três anos de trabalho e sobretudo a escavação do sector A haviam revelado a riqueza e variedade de espólio que caracterizam Mozinho, em claro contraste com a escassez e relativa antiguidade dos materiais recolhidos imediatamente no exterior da muralha, considerados dos mais antigos do castro. Aliás, em vários níveis profundos do sector B voltou a surgir este espólio antigo18.

A escavação de 1995 foi paupérrima em espólio (Fig.5), como aliás seria de esperar dado o pouco volume dos níveis de ocupação e a sua marginalidade. Do que recolhemos, posto de lado o material proveniente dos aterros, obtivemos informação coincidente com aja expressa. O espólio é do mais antigo de Mozinho, castrejo nas formas e fabricos. Um pé de fíbula transmontana não destoa do conjunto.

Predominam os dólios de pasta arenosa e micácea, superfícies alisadas, de tom castanho escuro, em que por vezes brilham partículas de moscovite propositadamente arrastada. Os perfis dos bordos, bem como o fabrico e acabamento, levam-nos a uma comparação não com a cerâmica indígena vulgar no Mozinho da primeira metade do século l dC, que conhecemos dentro da muralha em a, d, D ou g, mas antes com materiais comuns a outros castros da região com desenvolvimento anterior à mudança de era.

Os púcaros de perfil em S acompanham o fabrico dos dólios, sendo de salientar a presença de uma original asa em orelha, ímpar neste povoado. Os tachos de asas interiores surgem também nos perfis e fabricos dessa época, que conhecemos na região. Alguns cossoiros feitos a partir de frag­mentos de vasos completam o leque de produções indígenas, a que se juntam uns poucos fragmen­tos de ânforas Haltern 70.

Como começámos por dizer, o espólio é diminuto e muito fragmentado, não se encontrando conjuntos suficientemente isolados para o seu estudo ser mais proveitoso, para além da significativa informação que fornecem acerca da existência destes níveis antigos.



2. A re-escavação do subsector BA

Iniciámos em 1997 a recuperação desta área procedendo ao corte sistemático da vegetação que o cobria desde há anos, fazendo-a desaparecer totalmente da vista do visitante e mesmo da observação dos investigadores que se interessam pelo castro. De facto, a actual abordagem de Monte Mozinho a partir das quotas mais baixas da vertente Norte deixa não só que se perceba a imponência da acrópole, no seu posicionamento característico dentro de um povoado castrejo, como permite ainda realçar o papel estruturante da calçada que o atravessa e que suporta a disposição tendencialmente ortogonal do plano das principais estruturas construídas dos sectores escavados.

Condicionados pelo facto de, no momento dos trabalhos, não estarem ainda retirados os montes de entulho, quadriculámos o espaço disponível como se indica na planta (Fig.6) para uma mais fácil referência do espólio, embora tenhamos feito a escavação, sempre que possível, seguindo as unidades criadas pelas estruturas construídas.

Desde início constatámos e lamentámos ausência, nestas quadrículas, de níveis correspon­dentes à ocupação tardo-romana, pois foram removidos durante as antigas escavações, que desce­ram até ao alicerce das paredes. Estas, durante cerca de meio século descobertas e ao abandono, foram também esquivas a uma completa leitura, pois em alguns pontos restava apenas a última fiada de pedra, ou mesmo um alinhamento de pedras com face mas sem traço a uni-las, o que tanto



17 ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, 1977 - Escavações no Monte Mozinho H (1975-1976).Penafiel, Centro Cultural Penafidelis,
p.8-10.

18 SOEIRO, Teresa, 1984 - Monte Mozinho. Apontamentos sobre a ocupação entre Sousa e Tâmega em época romana Penafiel.
Boletim Municipal de Cultura. 3a série, l, Penafiel, Museu Municipal de Penafiel, p. 259 e segs..

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pode resultar da prolongada exposição às intempéries como de um arranjo feito pelo escavador, com base não sabemos em que critérios.

2.1. Estruturas

Seguramente tardo-romana é a grande construção quadrangular a Nordeste da rua (M97 Q 1), que surgiu totalmente esventrada, até a um nível inferior ao do alicerce, cujo arranque é suporta­do por pedras salientes e de face menos cuidada. O aparelho interior das paredes é de pequenas dimensões e a colocação das pedras muito incerta. Não conhecemos hoje o piso correspondente à utilização da construção, o que dificulta não só a explicação da pouca qualidade do aparelho, que poderia ser devida ao facto de toda a parede actual lhe ser inferior, ou, por exemplo, à situação do paramento ser rebocado, como bem conhecemos em outros pontos do povoado. A falta de quota interna de utilização e o facto de dois dos lados ainda não estarem escavados pelo exterior, faz com que se mantenham as dúvidas sobre onde localizar a entrada e de como se estabeleceria a relação da construção com as calçadas que a ladeiam.

Pelo interior baixámos até ao solo natural, que em muitos pontos já tinha sido atingido, mas ainda conseguimos recuperar algum espólio, sem contexto, nomeadamente uma fivela em ómega, uma conta de jogo de pasta vítrea azul clara (Fig.7.2 e 3), alguns fragmentos pequenos de sigilata do século l dC, bracarense, branca e cinzenta fina, e de cerâmica comum de gosto romano. Esta limpeza levou-nos ao que restava da parede de uma construção circular e do lajeado circundante (Fig.7.1), vestígios construtivos relacionados com a ocupação antiga que reencontraríamos por todo o subsector. Aqui, em locais encovados, preservava-se pouco espólio, mas este era cerâmica castreja, antiga para Mozinho, e rara ânfora.

Numa primeira observação de conjunto parece-nos que estas construções, tanto a antiga como a tardia, deveriam de facto ser enquadradas em outro subsector, já que em ambas as épocas prevalecia a rua calcetada que as separa do restante quarteirão escavado, embora se verifique que as paredes que delimitam esta via sofreram na época mais recente uma ligeira deslocação em relação à disposição primitiva, bem documentada na parede Este que, quando não se adossa à casa, é rebaixada até ao nível do lajeado; e na oposta que, quando não serve de suporte à posterior, é simplesmente soterrada por novos pisos.

A rua (M97Q2), calcetada no primeiro lanço e muito destruída depois por causa de um enor­me raízeiro, sobe consideravelmente em direcção ao eixo principal, com o qual entronca. Escavámos alguns níveis neste último ponto, sendo a sequência a habitual, entulho das antigas escavações, terra vegetal então coberta, um nível de derrube, amarelado e com muita pedra, e um outro, cinzen­to e fino, sobre as lajes. O espólio é sobretudo do último terço do século l dC, cronologia afirmada pelas sigilatas19 mas também pela presença até à camada mais funda de bracarense (p.e. formas 27 e 36) e de um bordo e gargalo de garrafa quadrangular em vidro verde gelo (Isings 50). Uns, poucos, fragmentos de cerâmica comum do século III/IV dC, certamente caídos, já na zona intervencionada, apartam-se claramente das formas e fabricos do l dC, grandes dólios, vasos de asas interiores evoluídos, panelas, potes, etc.

Prosseguindo para Sudoeste encontrámos aquilo que deveria ter sido um antigo quarteirão, constituído provavelmente por mais do que uma unidade residencial, delimitado num sentido pela rua, em outro pela calçada principal e num terceiro por um alto muro de sustentação de terras, que serve de caixa a nova rua perpendicular à anterior, em quota elevada. No sentido Sudeste impõe-se



19 A classificação e estudo das sigilatas de Monte Mozinho está a cargo de Teresa Pires de Carvalho, que sobre elas publicou uma monografia abrangendo as exumadas até 1995 (CARVALHO, Teresa Pires de, 1998 - A terra sigillata de Monte Mozinho (Contributo para a história económica do povoado). Cadernos do Museu. 3, Penafiel, Museu Municipal de Penafiel.) e prepara agora o estudo das restantes, incluindo as sumariadas neste relatório. Agradeço a colaboração e a disponibilização dos dados.

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MONTE MOZINHO. A RECUPERAÇÃO DO SECTOR B

apenas o limite artificial criado pela marcação da escavação.

Tardo-romanas são as construções de paredes rectas visíveis em 3, 4 e 5, já antes escavadas até abaixo dos alicerces. Dois antoninianos de Galieno20, embora avulsos, apontam para uma crono­logia bem na segunda metade do século III dC, que infelizmente não corroborámos com outro tipo de espólio estratigrafado, por este ter sido já retirado aquando da primeira escavação.

Antoniniano - Gallienus, Roma, 267-8 A) GALLIENVS AVG

cabeça radiada à direita R) [DIAN]AE CONS AVG XI RIC 181

Antoniniano - Salonica (sob reinado conjunto de Valerianus l e Gallienus), Roma, ant. a 260 A)SALON[INAAVG]

busto diademado com manto à direita; em baixo, crescente R) IVN[0 RE]GINA RIC 29; Cunetio 651

De momento interpretámos o desenho final do espaço 3, em L, como um átrio, com entrada directa a partir da calçada, através do qual se passaria para o compartimento 4, quadrangular, comunicando pela porta de que nos ficou a soleira, uma placa de granito alisado e com a marca do assento das ombreiras. Este último não tem piso de utilização, e aqui ficou enterrada, apenas para melhor se preservar, uma pia rectangular achada durante as antigas escavações.

Já até 5, recanto rectangular aparentemente aberto, se chegaria facilmente pela passagem 7, rua na época tardia. Todas estas construções, de aparelho bem picado mas assente em sapatas de fiadas irregulares, sobre camadas de terra, estão bastante danificadas, ficando patente na estratigrafia de 6 (Fig.10.1) a existência de potentes capas/pisos em saibro, que nivelaram quase todos os vestígios anteriores, criando um novo solo de ocupação, totalmente subtraído dentro dos comparti­mentos pela escavação de Elísio Ferreira de Sousa.

Curiosa é a adaptação da parede da construção circular de 6 à parede do compartimento tardio 5, uma vez que esta lhe passa por cima, anulando o arco de círculo que fica no seu interior, mas ao mesmo tempo, recebe na face exterior o encosto da parede circular refeita nas fiadas superiores. Aliás, a parede tardia poderá ter rematado mesmo sobre a circular, criando uma compo­sição que nos é difícil de explicar funcionalmente (Fig.8.1).

Ao lado da construção circular, o muro do núcleo foi anulado, ficando enterrado sob camadas de terra e saibro em que assenta o compartimento tardio.Trata-se da parede primitiva que ladeava a rua, na época tardo-romana substituída por outra, desviada cerca de um metro.

Transfigurada por estas adaptações tardias, vislumbramos a planta antiga desta casa-pátio: com o seu longo muro divisório (ora enterrado ora reaproveitado) a delimitar a rua; um muro arredon­dado no ângulo Norte de 3, sob os quadrangulares, de delimitação do quarteirão mas simultanea­mente de habitação, uma vez que pelo interior o seu aparelho de pedra muito miúda se acha coberto por um espesso reboco; uma terceira parede perpendicular à anterior e logo interrompida por des­truição; e por fim a casa circular, ainda com o seu sólido piso em saibro calcado sobre o qual se acharam pequenos fragmentos de sigilata hispânica do terceiro quartel do século l dC e alguns



20 Agradecemos mais uma vez a classificação das moedas de Mozinho, bem como os comentários pertinentes, ao colega Rui M. S. Centeno.

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PORTVCÍ/LIFl

restos de objectos em bronze.

Mas, mesmo que a construção no recanto de 3 seja um compartimento sub-rectangular, existiria entre este, a construção circular e o outro muro do núcleo/casa 8 a 10 demasiado espaço vazio. O centro dele pode interpretar-se como pátio, para o qual abriria a porta daquele, mas ficámos com a sensação de que qualquer outra construção teria daqui desaparecido.

Este último núcleo/casa tem a rodeá-lo, por dois lados, a parede que suporta os arruamentos, em pedra de média dimensão, que teve de ser reforçada no traçado da curva por uma segunda face interna, certamente a fim de garantir a sua capacidade para sustentar todo o peso de terras que implica a grande diferença de quota em relação ao lajeado da rua. Um muro recto separa estas construções do grupo anterior, muro esse que originalmente dispunha de uma porta, depois encerra­da com pedras (Fig.8.2). A quarta frente está por escavar, como se indica na planta. Uma casa circular (Fig.9.1) apenas emerge dos limites da escavação, estando pelo interior à altura do piso, em saibro21. Todo o recanto 9, sob a curva da calçada, parece ter sido descoberto e apresenta como superfície de utilização o afloramento granítico, aliás com uma grande mancha de forte calcinação e um lajeado contíguo.

Já a construção 8 nos levanta mais problemas. É que parece ter duas fases de elaboração, uma primeira com pedras mais miúdas, em que as paredes vão divergindo levemente desde o suporte da calçada ao qual encostam, e uma segunda, de aparelho com pedras algo maiores e colocadas com tendência à horizontalidade, apresentando na esquina um cunhal bem talhado (Fig.9.2).

Teríamos assim, em síntese, pelo menos uma ocupação tardo-romana, provisoriamente atri­buída aos últimos decénios do século III, início do IV dC, esventrada pelas antigas escavações. Quando ela se ergueu os muros anteriores estariam certamente ainda à superfície, pelo que são muitas vezes reaproveitados e tendencialmente respeitados os seus alinhamentos, ou então arrasa­dos até quota baixa e soterrados por camadas de terra e saibro sobre as quais se levantam os novos alicerces.

Na base deparamos com um panorama de casas-pátio, com as suas construções circulares e sub-rectangulares organizadas em redor de espaços abertos e por vezes lajeados, delimitados por parede envolvente. O espólio, particularmente de 10/11, não deixa grande margem a dúvidas quanto a, no arranque, estarmos num momento do primeiro terço do século l dC, com três numismas, dois asses de Augusto e um denario de Tibério, acompanhados por objectos metálicos e cerâmicas comuns em consonância. Este conjunto é em tudo comparável aos níveis mais profundos dos secto­res antigos do povoado como o a ,d, D e o g.

Asse - Augustus, NO Hispânia, 26-25 aC

A) l M P AVG DlVI F

cabeça descoberta à esquerda, entre caduceu alado e palma

R) Caetra

Villaronga 4; RPC 4

Asse - Augustus, Calagurris, 27-2 aC


  1. MVN CAL-AG IMP-AVGVSTV

cabeça descoberta à direita

21 Aquando da consolidação das estruturas construídas de Mozinho, em Janeiro/Abril de 1998 (veja-se QUEIROGA, Francisco M. V. Reimão, 1998 - Monte Mozinho: questões e opções na preservação do sítio. Cadernos do Museu. 2 Penafiel, Museu Municipal de Penafiel, p. 243-266) vimo-nos obrigados a alargar este recanto da escavação para atingir a parede de suporte que estabiliza a contensão de terras da rua, pelo que esta construção está agora visível em pouco menos de metade da sua área.

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MONTE MOZINHO. A RECUPERAÇÃO DO SECTOR B

R) Touro à direita; em baixo C-MAR-MVAL; em cima PR II VIR RPC 440; Vives 158/6

Denário (forrado?) - Tiberius, Lugdunum, 31-37 A) TI[CAESAR D] lVI - AVG F AVGVSTVS

cabeça laureada à direita R) PONTIF - MAXIM

Lívia no trono à direita, sobre uma linha RIC 2 30

Sobre o anterior, e antes da acumulação de terra e do nivelamento tardio, temos as camadas mais problemáticas, não quanto à datação, pois o espólio cerâmico, abundante e rico, é por demais característico do período claudiano final - flávio, o mais conhecido em Mozinho, mas por não lhe corresponderem novas construções ou grandes remodelações, a não ser a reformulação da casa 8, com alargamento para um grande edifício rectangular, e o fechar da porta existente no muro divisó­rio.

A estratigrafia de 7 (Fig.10.2)) apoia esta interpretação, ao mostrar no nível terceiro abaixo dos alicerces tardios uma camada de terra castanho-amarelada, com muita pedra miúda, pedaços de telha rolada e espólio, sobre o qual temos outra camada de terra castanho-negra, também com espólio. No extremo da escavação, em 6, também se verifica que sobre o muro recto antigo, mas abaixo dos alicerces tardios, há camadas com espólio de época flávia e mesmo um piso de saibro/ barro, calcado e avermelhado por ter servido de lastro de lareira, sobre o qual ficou uma camada de carvões e cinzas.

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