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Encontro01.08.2016
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XXIV ENCONTRO ANPOCS

GT MIGRAÇÕES INTERNACIONAIS



CAMPESINIDADE E MIGRAÇÃO INTERNACIONAL:

novas estratégias dos jovens rurais do Oeste Catarinense

Arlene Renk e Vilson Antonio Cabral Jr

UNOESC/Campus Chapecó.


No Oeste Catarinense, nos últimos anos, ganha visibilidade a emigração de jovens rurais à Alemanha. Formalmente, essa imigração/emigração encontra amparo nas formalidades de convênio, que prevê o estágio de jovens em propriedades rurais alemãs. Trata-se de um recrutamento de descendentes de alemães que aqui vivem as tensões de uma identidade híbrida e relacional, oram consideram-se de origens e alemães, ora são brasileiros. A emigração à terra dos ancestrais é, de certa forma, considerada um evento prestigioso. Neste texto, centramos o foco nos jovens, que estão em situação de liminaridade nas comunidades rurais. Situação essa acionada com sentimento de vitimização.


A questão central da pesquisa consistiu em responder: Como os filhos/as de agricultores/as do Oeste catarinense vivenciam a experiência de emigração internacional?
A pesquisa foi realizada no período de 1998 a 2000 em dois agrupamentos de Municípios: um no extremo oeste, na fronteira com Argentina e outro mais no centro da região. Embora os municípios estudados façam parte do mesmo processo colonização, guardam entre si diferenças profundas, advindas da divisão étnico-confessional, do processo de colonização. Neste texto nos centraremos no grupo de orientação religiosa católica, de Itapiranga e adjacências.
Para a presente pesquisa elegemos a abordagem qualitativa, não interessando em levantar quantos jovens migram, mas em investigar de que modo é avaliada e vivenciada a experiência de migração e como a acionam no retorno. No que diz respeito à delimitação do grupo nos ativemos exclusivamente àqueles/as que emigraram e retornaram.
Na construção dos dados, recorremos à observação participante, no estilo malinowskiano, de "captar os imponderáveis da vida real" , apreendendo o não-dizível, a gestualidade, as "técnicas corporais", habitus e hexis corporal.
As entrevistas, em profundidade foram, colhidas nos preceitos das entrevistas de uma "comunicação não violenta", procurando instaurar uma relação de escuta ativa e metódica1, tão afastada da pura não-intervenção da entrevista não dirigida, quanto do dirigismo do questionário.
Construídas as entrevistas, com uso de gravador, como estabelecem os manuais de pesquisa, as mesmas foram transcritas2. Temos claro que o nosso ponto de vista é "um ponto de vista sobre um ponto de vista". Não podemos reproduzir o ponto de vista do objeto, " e constituí-lo como tal, re-situando-o no espaço social, senão a partir deste ponto de vista singular( e, num sentido, muito privilegiada) onde deve se colocar para estar pronto a assumir(em pensamento) todos os pontos de vista possíveis. E é somente à medida que ele é capaz de se objetivar a si mesmo que pode, ficando no lugar que lhe é inexoravelmente destinado no mundo social, transportar-se em pensamento ao lugar onde se encontra seu objeto (que é também, ao mesmo em uma certa medida, um alter ego) e tomar assim seu ponto de vista, isto é, compreender que se estivesse, como se diz, no seu lugar, ele seria e pensaria, sem dúvida, como ele" (Bourdieu, 1997, p. 713).

DO CONTEXTO:

A crise camponesa “esses tempo difíceis”.


Apoiados no sociólogo argelino Sayad (1998), estudamos as condições sociais objetivas da sociedade que engendram a emigração de seus habitantes. Esse aspecto remete a tratar do contexto e da região na qual estão inseridos os atores.
A constituição do que convencionamos chamar por região Oeste Catarinense foi processo de fluxos migratórios, no qual a constituição de um campesinato de diferenciação étnica (principalmente de descendentes de alemães, italianos e poloneses) representou a expropriação e migração do campesinato local, o caboclo. Os dados construídos a partir de entrevistas e observação na localidade Itapiranga exige que se remeta ao processo de colonização.
A partir de 1927, colonos descendentes de alemães do Rio Grande do Sul, sob orientação dos Padres Jesuítas, fundaram em Santa Catarina, às margens do Rio Uruguai, o núcleo colonial de Porto Novo, destinado exclusivamente a colonos alemães católicos. A decisão de fundar esse núcleo ocorreu no Congresso dos Católicos, em Santa Cruz do Sul-RS, em 1925. À frente desse empreendimento estava a Volksverein ( Sociedade União Popular do RS –SUP). Caixas Rurais – Caixa Rural União Popular (Volksverein-Sparkassen) e a Revista Sankt Paulusblatt, em língua alemã, órgão oficial da SUP no Rio Grande do Sul, em 1912, pelo Padre Theodor Amstad, S.J.
As colonizações confessionais católicas podem ser lidas como integrantes da “reação católica” após a Proclamação da República, com a separação Igreja-Estado. No sul do Brasil, de forma concreta, temos o surgimento de estabelecimentos de ensino confessionais3 e as associações confessionais. Dentre essas, encontramos os Congressos Católicos, que estimularam a fundação da Sociedade União Popular e as Caixas Econômicas Rurais, no sistema Raiffeisen. Lideradas pelos padres jesuítas, faziam parte da “Utopia Católica”, no enfrentamento da Questão Social, no movimento nominado Ação Católica4. A prática associativa de caráter cooperativista e devocional seria uma alternativa contra os movimentos anarquistas, socialistas e liberais, na Europa e na América. Apoiava-se nas encíclicas Rerum Novarum, de Leão XIII, e na Il Fermo Proposito, de Pio X. A Igreja assume a questão social e tem como corolário a utilização da liberdade constitucional para recatolicizar o país. Foi nesse contexto, e sob os auspícios da Sociedade União Popular, que o padre Theodoro Amstad idealizou a colonização de Porto Novo (atual Itapiranga-SC).
Os moradores do núcleo colonial fundado vieram das colônias velhas como Selbach, Cerro Largo, Santo Cristo, Santa Cruz do Sul de orientação católica. Uma fração veio diretamente da Alemanha, no período de depressão econômica. Esses imigrantes entraram nos anos de 1929 a 1932. Este fluxo caracterizou-se por ser constituído de imigrantes de maior grau de escolarização, muitos dos quais com curso superior. Observou-se movimento similar em São Carlos, Mondaí e Cunha Porã. Os imigrantes alemães centraram-se na Linha Presidente Becker [Presidente da SUP].
Os migrantes e emigrantes centraram esforços na construção de equipamentos comunitários, tais como a capela, a escola, salão paroquial, cemitério, abertura de estradas vicinais. Itapiranga foi considerado um município “tipicamente alemão”, com profundas raízes devocionais católicas. A exemplo de outros núcleos coloniais, seria um “celeiro de vocações”, fornecendo jovens para ingresso na carreira religiosa.
Inicialmente, foi construído um Seminário Eclesiástico, em Sede Capela. O mesmo contou com recursos da comunidade local e do exterior. Diversas famílias alemãs ofereceram recursos para construção do prédio. Muitos desses, mais tarde, vieram ao Brasil para visitar a obra. Com o passar dos anos, a procura pela carreira eclesiástica foi minguando. Os futuros religiosos dirigiam-se ao Rio Grande do Sul para completar os estudos. O prédio, anteriormente destinado à formação religiosa, passou a servir para a formação de filhos de agricultores, transformando-se no Colégio Agrícola São José, pelo qual passaram os jovens que emigraram.
Atualmente, a documentação da Sociedade União Popular e da Caixa Popular encontra-se em Nova Petrópolis na Fundação Pe. Amstadt. Aqui se estabelecem os vínculos com a Associação de Ex-Estagiários Amigos da Cultura Germânica – Verein der Ehemaligen Praktikanten und Freunde Deutscher Kultur, uma das agenciadoras do processo de deslocamento dos filhos e filhas de agricultores.
A pesquisa realizada aponta à emigração de jovens rurais à Alemanha, em busca de estudo e trabalho. Essa saída ocorre num contexto de crise da agricultura familiar tradicional, contribuindo para que as fronteiras rural/urbana se tornassem mais tênues. Na migração desses jovens se evidencia a negação da condição camponesa, na penosidade inerente à vida da colônia, do trabalho (na acepção ponos). O assalariamento, mesmo com baixa remuneração, é interpretado mais favorável que a situação de dependência e subordinação dos filhos em relação ao pai-patrão na agricultura.
Na literatura sobre o campesinato, e como traço constitutivo deste, aparece a sua condição subalterna (Galeski, 1972, Shanin, 1971, Foster, 1967), o que culmina com a classe objeto (Bourdieu, 1977), por ser dominada até na produção de sua imagem de mundo social, de sua identidade, não falando, mas sendo falada.
Para esses agricultores, classicamente, o mundo era o oposto da colônia. Esta era representada à semelhança de um enclave, com alta taxa de endorreprodução, na qual os “filhos iam no rastro do pai” e com reduzidas inserções fora da comunidade rural. Aqueles com trânsito e vivência em outras atividades e paisagens, que não a da colônia, tinham mundo. Ter mundo era passagem obrigatória para deixar de ser cru.
Tradicionalmente, os horizontes dos colonos ampliavam-se aos elementos masculinos, quando se deslocavam a duas instituições fora do mundo rural: ao Seminário Eclesiástico e ao Exército. Mesmo não seguindo as carreiras, ao retornarem, o faziam acrescido dos atributos da inserção nessas instituições.
A saída era marcada por um divisor de gêneros, aberta unicamente aos elementos masculinos. Às mulheres, além das saída para o convento, as retiradas temporárias da colônia foram para o assalariamento, trabalhando como empregadas domésticas, no intento de adquirir o enxoval, ou para aprender corte e costura. Deslocavam-se às comunidades próximas e sob responsabilidade de “alguém de confiança”, dado o capital lábil em que consistia a honra feminina.
Entre os agricultores, na faixa etária acima de sessenta anos, é recorrente ouvir-se que o “Exército foi uma escola”, por suprir defasagens, como a baixa escolaridade ou as dificuldades de se expressarem no vernáculo. Lá tiveram aulas e voltaram com nova bagagem.
De modo geral, os recrutados avaliam positivamente o afastamento físico da família para uma iniciação no mundo, análogo ao rompimento do cordão umbilical, possibilitando-lhes “sair das asas do pai” e adquirir novas informações, não disponíveis na colônia. O quartel proporcionava a alfabetização, maior fluência na língua portuguesa, bem como o aprendizado musical para atuar em bandas. Representou uma aquisição adicional em relação àqueles que não saíram, aos que não foram convocados. Esta inserção na sociedade nacional, através da instituição exército, principalmente para aqueles com pouca familiaridade na língua nacional, foi avaliado equivalente a cursar a faculdade, próximo a distintividade e privilégio, pela respeitabilidade que a instituição castrense inspirava. Não se pode esquecer que a instituição Exército, principalmente no Estado Novo, foi utilizada como recurso de nacionalização, à medida em que recrutava os filhos de colonos deslocando-os para fora das áreas coloniais, aproximando-os dos “elementos nacionais”.
A convocação ao Exército representou uma saída compulsória e pode ser tomada de forma análoga às migrações estudadas por Woortmann (1990, p. 37) entre os camponeses de algumas regiões, quando se referem à viagem, isto é, à saída ao mundo.

Vários sitiantes referiam-se com evidente orgulho às suas viagens; aos lugares “adiantados” que conheceram, cidades ou regiões agrícolas; à intimidade adquirida com implementos agrícolas modernos; a tipos de alimentação distintos daquelas habituais na região. Ter viajado torna as pessoas superiores a quem nunca saiu do lugar.


Paralelo ao processo de fragmentação das propriedades rurais no Oeste Catarinense, há um movimento de inserção dos colonos no mundo e deste na colônia. A escassez de terras e o retalhamento das propriedades ocorre no momento de alargamento do espaço camponês, cuja reestruturação é correlata a outras modificações, alterando sua morfologia. Abreviadamente, aponto algumas práticas que contribuíram para as novas incursões, no sentido de mão dupla, num processo de circularidade (Ginzburg, 1987), no qual mutuamente modifica-se o espaço do colono e este contribui para alterar o da sociedade circundante.
Nos últimos anos, os dados censitários (IBGE, AMOSC, EPAGRI) apontam fluxos migratórios em diversos municípios, apontando à diminuição da população. Essa migração ocorre paralalelo à “crise na agricultura” e no “declínio econômico da região”. Um olhar de dentro apontará diversas configurações do processo migratório recente. Abramovai et alii (1997) trabalham na perspectiva da masculinização da agricultura, em razão do fluxo migratório feminino. Este caso não seria exceção. A literatura apresenta recorrências (Bourdieu, 1962 e Mendras, 1984) apontavam essa situação no contexto rural europeu.

Há intenso fluxo de migração de rapazes e moças a São Paulo e outras capitais, nas quais trabalham como garçons. No entanto, a migração internacional é mais seletiva. Neste momento, restringe-se aos jovens, descendentes de alemães, nesta região. Requer escolarização mínima e domínio de certas habilidades.


A categoria juventude tem sido tema de controvérsias. Partilhamos com a perspectiva de Meyer Fortes (1968), compreendendo-a como um dos momentos do ciclo de vida, não a substantivando. Ao contrário, é, por excelência, um conceito relacional, uma construção social, caracterizada por seus marcado caráter de limite: entre a infância e a vida adulta. Por essa razão, para Levi e Schmitt (1996), apoiados em Ariès, afirmam que:

"dentre os princípios que servem de base para classificar as pessoas, a idade tem uma característica específica e evidente: por definição, do ponto de vista dos indivíduos, é uma condição transitória. Ao contrário do enquadramento de uma classe social (...), à diferença de definição sexual, pertencer a uma determinada faixa etária - e à juventude de modo particular - representa para cada indivíduo uma condição provisória (Levi e Schmitt, 1996, p. 8/9)
Aliando-se juventude com campesinato, levamos em conta a configuração familiar camponesa da região. Nesta, há uma integração diferencial dos membros da família, cabendo ao pai-administrador o gerenciamento do destino dos bens e da prole. Não rara, são permeadas de conflitos as relações entre pai e filhos/filhas.
A migração da juventude ocorre num contexto de crise da agricultura. Não obstante o mesmo significado, há diferentes conotações significativas para a crise. Estas são retraduções das evidências empíricas que, por sua vez, não permitem leituras reducionistas. Os discursos, invariavelmente, remetem a uma situação de degradação, de declínio, da condição camponesa, em oposição à sociodicéia vivenciada pelas gerações anteriores, seja ela idealizada ou não. Num contexto de mudança social, na impossibilidade de produzir e reproduzir-se nos moldes anteriores, apresentam-se alteração nas percepções internas, que afetam e contaminam aspectos da vida familiar, de sua hierarquia e interferem no esquema axiológico. Enfim, os colonos explicitam uma crise que afeta não só a terra, mas todas as concepções que agregam os nucleantes da vida na colônia. A crise que explicitam não diz respeito somente à colônia, mas a todas as transformações por que passa o mundo.

A crise passa por um sentimento de ordem rompida, mas sentida coletivamente. Sempre aconteceram crises, mas de dimensões mais individuais, ou de responsabilidade das unidades familiares. Ao contrário, nesse momento atinge a condição de colono.


TIPOS DE MIGRAÇÃO


Não vale a pena ficar na colônia”.

Os “programas de percepção” dos camponeses alteram-se: “os colonos estão morrendo”; “o colono é escravo”, “[somos]a classe mais baixa”, “[somos]os únicos honestos”. Neste momento a crise atinge a condição camponesa. E o momento em que ocorre é o do “encolhimento do mundo”, no contato com outros, na percepção relacional, quando passam a perceber a penosidade da condição de pequeno produtor. É nesse momento que ganha fôlego a migração interna e migração internacional.


Uma das possibilidade de emigração consiste nos Programa de Estágios na Alemanha, destinados originalmente aos rapazes da área da agricultura. Dentre as exigências consta a idade 18 a 25 anos e a documentação. Dentre os papéis exigidos insere-se a carteira de habilitação C ou B, declaração do Sindicato, Emater, Prefeitura ou Colégio Agrícola indicando a atividade do candidato no setor agropecuário e o pagamento da passagem. Em Nova Petrópolis - a Associação de Ex-Estagiários Amigos da Cultura Germânica – Verein der Ehemaligen Praktikanten und Freunde Deutscher Kultur, uma ONG fundada há onze (11) anos, realiza uma seleção.
Essa Associação mantém convênio com duas Associações de Agricultores Alemãs, uma no norte e outra no sul. Envia de 40 a 45 jovens, anualmente. Noventa por centro dos inscritos no Programa são originários do município de Itapiranga e adjacências.
O período de estadia na Alemanha era de dois anos, com prorrogação de mais um ano. Atualmente está restrito a um ano. Em caso do jovem pretender retornar há uma remota possibilidades com apresentação de carta de solicitação da família alemã.
A inscrição inicial do recrutamento é feito na Prefeitura Municipal de Itapiranga junto à Fundação Cultural do município. Posteriormente, com subsídio da Prefeitura, os inscritos dirigem-se a Nova Petrópolis para a outra etapa de seleção. Nesse momento deve comprovar que domina alguma habilidades, como saber falar, escrever, ler em alemão, ser descendente de alemães, possuir conhecimentos específicos de agricultura, conhecimentos gerais e ser filho de agricultores. Existem no Brasil outras associações conveniadas com a Alemanha para fornecer estagiários.
Além do estágio formal aos filhos de agricultores, mais recentemente, abre-se um espaço para inserção de filhas de agricultores, ora para o estágio na agricultura no Programa anteriormente mencionado ou no Programa Au Pair, para trabalho específico de babá e aprendizado/aperfeiçoamento da língua alemã.
O Programa Au Pair é realizado em conjunto em conjunto com GUK (Gesellsschaft für Internationale Jugendkontakte. As tarefas consistem em cuidar das crianças da família e ajudar no trabalho doméstico, trabalhando aproximadamente 30 horas por semana e duas ou três vezes à noite. Inclui um período de férias por ano. A ajuda de custo mensal é de DM 400 Marcos, não tendo custo de moradia, alimentação, a família concede-lhe um quarto individual. Oferecem seguro de vida e plano de saúde. Dentre as exigências às candidatas estão: a idade de 18 a 24 anos, saber falar o alemão, apresentar atestado de saúde, folha corrida do Fórum, Histórico Escolar (com escolarização mínima do ensino fundamental completo), passaporte, fotos 3x4 e de corpo inteiro, adquirir uma carteirinha de estudante com a Associação. Exigem experiência em cuidar de crianças e adquirir passagem aérea de um ano, de ida e volta, na Agência conveniada com a Associação.
Outra possibilidade é a saída com visto de turista, por três meses, e trabalhar por um período de seis meses, ou no verão, ou no inverno, conforme a atividade. Trata-se de atividade sazonal. Não tendo autorização para o trabalho, executa-o no “trabalho preto”, ou seja, clandestinamente. Em geral, os empregadores são parentes e conhecidos. Voltam, periodicamente, aos mesmos patrões. Não obstante falarem das dificuldades e penalidades do trabalho clandestino, das multas impostas, da vigilância, das dificuldades, mesmo assim o fazem.
A quarta possibilidade é aquela da emigração definitiva à Alemanha ou Áustria. Neste caso inserem-se as nacionalizações e os casamentos, principalmente de mulheres brasileiras com agricultores alemães. A maior parte daqueles que emigram em definitivo passaram anteriormente por um período de estágio formal.
De qualquer forma, a possibilidade de migrar ao primeiro mundo, em especial à Alemanha, representa uma ascensão social e um investimento de capital cultural e técnico, bem como acumulação, mesmo que parcimoniosa, de recursos pecuniários advindos da bolsa-estágio ou da remuneração exercida. Do ponto de vista da sociedade imigrante, a facilidade para o fluxo de descendentes de alemães prende-se ao fato destes executarem atividades braçais e desqualificadas, preteridas pelos europeus.

Mediadores

A subalternidade camponesa facilita, num primeiro momento, a inserção de mediadores externos ao mundo da colônia. Esses mediadores podem ser externos mas não desconhecem a dinâmica da colônia. Muitos desses são deserdados das pequenas propriedades rurais. Obtiveram escolarização formal e atuam no espaço urbano.


Na área em estudo, na década de sessenta, a SUP mantinha convênio de estágio na Alemanha. Pretendia, no retorno dos jovens, estabelecê-los em áreas rurais no Mato Grosso para aplicarem os conhecimentos obtidos. A iniciativa foi infrutífera, de modo que a encerraram. Egressos desse convênio formaram a Associação de Ex-Estagiários, em Nova Petrópolis, e dão continuidade aos estágios.

Essa Associação não é única a recrutar os jovens rurais. No Estado do Rio Grande do Sul outras fazem-se presentes. Aqueles selecionados pela Associação avaliam etnocentricamente sua mediadora. Referem-se ao “nosso estágio é bem visto lá na Alemanha. Outros não, porque ele traz muitas pessoas pra lá que não têm o objetivo de fazer o estágio. Eles vão mais em si prá fazer turismo. Depois quando eles se confrontam com a realidade, daí é duro pros praticantes, porque tu se vê numa situação. Os caras que te levaram pra lá, eles falam o seguinte: ‘agora tu veio, tu vai ter que se virar’. Aí é meio complicado. O nosso programa em si, ele tem certas condições que eles exigem mais do candidato antes. Mas depois tu também não pode dizer que eles não te avisaram”.


Similar ao que ocorre no Brasil, na Alemanha há diversas entidades, como a Escola DEULA, que mantêm vínculos com diversos países para o recrutamento de jovens rurais.
Não encontramos casos de agenciadores formais. A Associação cobra uma taxa pelo processo de seleção e colocação dos jovens em propriedades alemãs. Há mecanismos informais de mediação para obtenção de trabalho na Europa. Nestes casos, não há remuneração. São favores prestados, aos quais se deve a “obrigação”, no jogo dons e contra-dons. O requisito fundamental para mediar é possuir informações. Nesta uma rede informal, o parentesco e as relações de amizade desempenham um papel preponderante, principalmente no caso de trabalho informal, clandestino.
Um exemplo é Silvestre. Participou há sete anos no Programa de Estágio. Casou-se com alemã, há cinco anos e subsidia com informações parentes e amigos no Brasil. Outro exemplo é de Silene. Migrou clandestinamente à Áustria, à procura de trabalho. Casou-se [“por amor”, acentuam seus familiares no Brasil] com austríaco, obteve a nacionalidade, e já levou mais de oito parentes, os quais, por sua vez, ampliam rizomaticamente os vínculos e mediações. Neste caso, o recrutamento é para trabalhar em restaurantes, nos Alpes, nos meses de verão. Paralelo, ocupam-se da ordenha, que é feita por brasileiros, com conhecimento das lides do campo. Avaliam que “esse trabalho possui um retorno, vale a pena mesmo”. Sazonalmente fazem as viagens de ida e de retorno.


Ser estrangeiro: um peão entre patrões.

Você sempre é um estrangeiro lá”.


Na Alemanha e Áustria, por parte da sociedade receptora, há uma clara preferência pelos jovens egressos do Brasil, por apresentarem um habitus de trabalho, pela semelhança física (em termos de fenotipia), pelo uso da língua alemã (mesmo que seja dialetal), colocando-os em posição favorável frente a outros imigrantes ou mesmo aos alemães da antiga República Democrática.
Tanto numa quanto noutra modalidade de migração, os vínculos de lealdade primordiais- expressos na ascendência alemã - são fatores que propiciam uma aceitação mais "tranqüila" pela sociedade receptora. De outro lado, as atividades exercidas pelos brasileiros são consideradas estágios ou atividades de curta duração e não estariam competindo no mercado formal do trabalho. Não são considerados Gastarbeiter [trabalhador estrangeiro], mesmo que a atividade de "estágio" tenha, muitas vezes, como finalidade a acumulação pecuniária.
Entre um Gastarbeier de outros países, sem vínculos de germanidade, há preferência pelos descendentes daqueles que emigraram do século passado e início deste. Acresce-se a isso a socialização e a incorporação do habitus camponês, que será o valor-mór. Esse capital incorporado, fruto da educação difusa, familiar, será usado emblematicamente. É lícito tomar a atitude frente ao recrutamento como uma reatualização das virtudes étnicas, avaliadas como inerentes aos alemães, como o fazem no Brasil.
A saída do Brasil é impulsionada pela crise camponesa. Ao entrar na Alemanha deixa de sentir-se alemão, para adquirir o estatuto de estrangeiro, o vivenciando a experiência de desterritorialização (Feldmann-Bianco, 1997). Segundo a autora, a experiência de desterritorialização implica em mudanças dramáticas nas condições de existência. A entrada em território estrangeiro os transforma em imigrantes, nessa condição defrontam-se com códigos culturais e práticas sociais antagônicas.
Sobretudo, como tornam-se simultaneamente sujeitos e atores ativos dos processos hegemônicos de seus países de origem e de recepção, esses processos acabam por redefinir 'as categorias através das quais vivem as suas vidas, recriam os seus imaginários e compreendem os seus mundos'. Por conseguinte, esses processos refletem também as relações de dominação, de resistência e de classe, bem como as contradições que permeiam os embates, as negociações e as (re)construções de identidade. ( Feldman-Bianco, 1997, p 66)”.
Não obstante fenotipia, a hexis corporal e a despossessão lingüística agudizam a experiência de estrangeiridade. Apesar de ser exigência a fala em língua alemã, deparam-se que se expressam numa bricolagem de dialeto aqui falado. Referem-se ao “show de enxertos”, pela inclusão de termos aportuguesados, o que torna difícil a comunicação inicial no estrangeiro.

É no contato com os outros que percebem a sua condição de jovens do terceiro mundo. “Quando tu sai do país tu nota. Assim tu acha que no Brasil tá tudo bom. Mas quando tu sai prá fora, tu vê como o Brasil tá atrás ainda em muitas áreas. Pelas próprias estradas lá e as condições que tu tem aqui. É muito diferente. A infra-estrutura aqui ele está muito defasada nessa área de transportes. Assim deve ser na grande maioria das coisas que nós tamo muito atrás ainda”.

Ao entrar em contato com os agricultores alemães, causa espanto a tecnologia avançada “nós aqui estamos mais de cem anos atrasados”, o acesso aos bens de consumo, como Ter um aparelho de televisão no quarto e dispor de automóvel. Bens esses que no Brasil partilharia com a família.
Frente à despossessão linguística, ao desconhecimento da tecnologia empregada nas propriedades alemães, os jovens valem-se do habitus camponês, ressaltando o valor da campesinidade.
A categoria campesinidade é trabalhada a partir da perspectiva adotada por Bourdieu (1962), Woortmann (1988) e Delbos (1982). Em síntese, entendem que a condição camponesa, os valores camponeses, os esquemas de percepção e as metáforas práticas são passíveis de desterritorialização. Trata-se de um valor, de uma cultura internalizada e que acompanha os indivíduos em sua trajetória, além do espaço rural. Expressa-se nas noções de habitus e na hexis corporal, ou seja, na dimensão da história internalizada, na história feito corpo dos indivíduos.
Paradoxalmente, os jovens que migram valem-se do capital incorporado da condição de colono, da campesinidade (cf. Delbos, 1982 e Woortmann, 1988) e da socialização no alto grau de auto-exploração que fazem valer frente àqueles socializados noutro contexto, que não o da colônia. Essa inculcação pode ser positiva, expressa nos esquemas mentais em que retiram da campesinidade os aspectos favoráveis às novas situações, ou seja, valem-se de uma campesinidade desterritorializada num mundo que se move rapidamente.
Esse valor que ostentam emblematicamente é acionado em oposição aos outros, isto é, àqueles recrutados de outros contextos nos quais não está tão presente a auto-exploração. “Pra eles nós valemos mais como mão-de-obra que estudo. Realmente do jeito que está a situação, hoje ninguém mais quer ficar na agricultura. Então se tem pessoal daqui que consegue ir pra lá, mesmo que seja pra um ano, conseguindo pra fazer esse convênio, se a licença por um ano ou mesmo com dupla nacionalidade, com certeza eles vão aceitar com braços abertos, porque de lá realmente são poucos os que se interessam em passar”.
São recorrentes as narrativas de que os alemães não desejam fazer o trabalho pesado. “O alemão jamais quer trabalhar com vacas ou em cima de trator. Isso aí ele não quer mais fazer. (...) Na época da colheita do aspargo, que é uma agricultura que aplica muita mão-de-obra, não existe alemão querendo colher aspargo. É uma coisa simples, só que entram milhares e milhares de turcos e polacos na época do aspargo e fazem esses trabalhos”.

Não são irenistas as avaliações do tempo de permanência em estágio na Alemanha. Alguns reportam-se ao relacionamento frio dos germânicos. Posteriormente, foram cativados de modo a sentirem-se membros da família. Noutras propriedades há grande rotatividade de jovens estagiários no mesmo ano, o que pode ser um indicador do tratamento dispensada pelo “patrão”, transformando o jovem em “mero peão”.


A rotatividade de jovens brasileiras é observada em algumas propriedades que aceitam o trabalho clandestino. Em janeiro de 2000, uma propriedade austríaca recebia a quarta jovem brasileira. As anteriores tiveram a mesma história: foram para trabalhar na propriedade, casaram e saíram da propriedade, deixando outra brasileira em seu lugar. Fatos similares são comentados em Itapiranga, nas entrelinhas: “acabou achando alguém”, ou “já tinha alguém na mira”. O mercado matrimonial é favorável às jovens brasileiras. Mesmo reticentes, é vista como “alguém de sorte na vida”.
Aos jovens que migram, formalmente, para realizar o estágio em propriedades agrícolas, há uma rotina de trabalho de três a quatro dias na propriedade, e de um a dois dias na escola. No verão as atividades são mais intensas e há menor tempo para ir à escola. Quinzenalmente têm o final de semana livre. Havendo negociação com o “patrão” pode permanecer na propriedade, trabalhando, e receber uma quantia extra. Após um ano de estágio têm direito a férias. Período esse que alguns transformam em recurso pecuniário.
Se na saída do Brasil, os jovens recrutados ao estágio na agricultura, avaliam favoravelmente a remuneração de 300 ou 400 marcos alemães, ao lá chegarem deparam-se que a remuneração a um trabalhador alemão é muito superior.
Objetivamente, esse processo migratório propicia uma alteração no substrato morfológico do mundo camponês, que rebate no interior da unidade familiar afetando as percepções, as visões e representações do mundo, que passam pela ressemantização de algumas categorias nucleantes, tais como trabalho, do papel da mulher, do jovem e da subalternidade da condição de colono.

No retorno ao Brasil.

Geralmente se fala que só fica na agricultura quem é muito burro ou não tem outra opção”.



Os estagiários, trabalhadores sazonais, ou os jovens que optaram pela cidadania alemã e lá permanecem, quando do retorno ou das visitas ao Brasil afirmam ficarem perturbados, “pelo contraste”. “Quando volta pro Brasil a gente numa fossa. Entra num buraco que de repente não tem saída. Tive colegas que tiveram que lutar pra conseguir, que realmente a realidade não muda. Tanto que eu digo: é mais fácil sair de uma pior e tá numa melhor. Quando eu cheguei, os irmãos e irmãs me ajudaram bastante. Consegue superar”.
Com Sirlei, não foi diferente: “Eu quase não sabia falar o português, estranhava tudo, como o nosso alemão ele é um pouco diferente que lá, em casa todo mundo falando o alemão e eu não podia falar o alemão. Tinha que acostumar de novo, semanas ficar até me acostumar. Eu só falava português nas primeiras semanas, que não sabia falar mais o alemão nosso, o dialeto. Só sabia mais falar o alemão lá da Alemanha mesmo.(...) Tu tava num país rico. Tu volta, tu já vê que tu tá no terceiro mundo de novo, mesmo. É favela, é casinha, é tudo que lá, mesmo tendo, é difícil, pelo próprio frio, o ambiente torna diferente. Quando você chega no Brasil é um choque tremendo. Primeiro é muita coisa no sistema de trânsito, não é tão organizado. Mesmo se tu atravessar numa faixa de pedestre aqui se tu não olhar direito eles te atropelam. E lá isso é impossível, porque lá tu pisou eles já param. É muito difícil mesmo”.
Formalmente, o intento do convênio é o aprendizado e aplicação deste nas propriedades rurais brasileiras. Vários são os fatores que o impedem. De um lado, há a resistência paterna em aceitar as sugestões e orientações dos filhos, pela quebra da hierarquia familiar (Woortmann, 1988). De outro lado, a descapitalização das pequenas propriedades não permite o incremento de novas técnicas. Como ocorreu com Wanderley: “Eu vim, eu vou dizer uma coisa bem sincera prá você, eu vim da Alemanha com um projeto muito bom, de leite, e só que analisando tudo que teria que ser feito, o gasto que eu ia gastar com a instalação nova, a estrutura aqui, a terra já tá mais ou menos delimitada, então não há condições e perspectivas de um crescimento, muito ainda, e tudo isso me levou a, no fim das contas eu via que não teria muitas chances aqui não. Acabei decidindo ir prá lá [emprego urbano], onde graças a Deus eu tô bem, não me arrependo e enquanto der eu vou tocar por lá, né. De repente algum dia quando, não sei o pai até quando ele vai agüentar, de repente algum dia a gente volte. Hoje tem tantas opções que você pode fazer com uma propriedade dessas, não é necessariamente que eu more aqui, uma propriedade pode-se tocar mesmo assim, tudo tão fácil hoje”.
Como foi apontado na parte inicial do texto, hoje permanecer na agricultura é avaliado como “serviço de escravo”, seja pelo tempo empregado nas atividades diárias, pelo exíguo retorno financeiro, quando há, pela posição de subalternidade do colono. Esses fatores fazem com que os jovens que retornem empreguem-se em atividades urbanas. “O que falta aqui é o governo dar incentivo, porque senão nem tanta gente ia sair, se tivesse mais oportunidade na agricultura. O que desanima o pessoal, o que faz o pessoal sair, é que na agricultura tu não tem feriado, não tem final de semana. Isso é a grande diferença. É que aqui você não se planejou direito. Um final de semana um faz o teu trabalho, no outro final de semana tu faz o dele, como é nos países europeus: lá eles se programam. Que nem quando eu tinha folga era o meu chefe que fazia. Quando eu trabalhava ele não trabalhava no final de semana e assim aqui a gente também tinha que fazer”.
A permanência no exterior serve como currículo, de modo a haver uma demanda por esta mão-de-obra qualificada por parte dos empregadores locais. Estes, de modo geral, mantêm atividades do setor agropecuário, onde atuam como técnico agrícola.
A experiência é vista como extremamente válida por todos os entrevistados. Foi citada apenas uma pessoa da região que teria voltado por não ter se adaptado. A viagem significa ter mundo, uma oportunidade para crescimento pessoal e profissional.
Em especial, para aqueles que exercem o estágio, ressaltam os novos conhecimentos obtidos, tais como, a oportunidade de aprender a falar o alemão corretamente, conseguir resolver seus problemas num país estranho, além do conhecimento técnico há aquele de cultura geral, adquirido através das viagens realizadas nos períodos de folga ou de férias.
Para os trabalhadores sazonais, a migração possui um caráter mais financeiro que cultural. O motivo para procurar esses trabalhos são os salários compensadores que recebem nesse período. A remuneração é mais condizente com a realidade deles. Há escassez de mão de obra para esses serviços. Muitas itapiranguenses permanecem clandestinamente até casar.
Essas viagens são possibilidade de avivar a cultura alemã, no Brasil. Sentem-se orgulhosos de sua origem, de sua língua, de seu reconhecimento pela família de “patrões”. Geralmente possuem contato com ex-patrões, recebendo-os e visitando-os novamente. Diversos alemães vieram ao Brasil visitar os ex-estagiários.
As comunidades locais sabem da ida dos estagiários e os recebem bem no retorno. São procurados para fornecerem opiniões sobre vários manejos nas propriedades de vizinhos e conhecidos. A ida para o exterior é vista com bons olhos pela comunidade. Essa vivência é reconhecida como oportunidade de vida.
Com relação à aquisição de bens, no caso dos estagiários houve alguns que puderam contribuir com a compra de alguma máquina ou investimento nas terras de seus pais. Ressaltam que o montante recebido por mês dava apenas para os gastos pessoais, que aproveitavam para viajar, pois não se faria muita coisa com esse dinheiro no Brasil. No entanto, pode-se perceber que quem investiu seus ganhos em viagens maiores tinham maior infra-estrutura em suas casas, podendo-se talvez dar “ao luxo” dessa viagem.
Aqueles que foram para Áustria tiveram outro encaminhamento, já que lá a intenção é mais especificamente o salário, e não a vivência em si. A maioria das pessoas é do sexo feminino, iniciou o trabalho clandestinamente, em propriedades de conhecidos ou parentes, até casarem. Aquelas que não casam, pretendem continuar fazendo esse trabalho enquanto “é nova e tem disposição para tanto”.
As pessoas que podem ir para Alemanha são pessoas de sorte, que possuem bastante conhecimento e experiência de vida. São consultados por grupos que desejam viajar ou que desejam consultar seus conhecimentos específicos da agricultura. Não se comenta sobre fluxo de bens, não são citados como significativos os bens ganhos com estágio. Já os de trabalho temporário são bastante valorizados e procurados. Um dos egressos é também músico da Fundação Cultural. As partituras e músicas estudadas e executadas por sua banda vêm da Alemanha.
Outros egressos, o retorno agem como mediadores passando vídeos, filmes nas comunidades, proferindo palestras, etc. Incorporam hábitos europeus, como ocorre com Ana, que passou a ler diariamente jornal. “Na Alemanha, de manhã eu sentava na mesa do café, tomar café, primeira coisa se tinha o jornal. Pegava o jornal pra ler. E aqui eu não fazia isso”.
Os jovens rurais que emigram à Alemanha, ao retornarem ao Brasil, acionam um fluxo de informações e relações que contribuem para o "desenclave" do mundo rural, acionando estratégias de distintividade, que os afastaria daqueles que não tiveram oportunidade de emigrar. No que diz respeito as interpretações da experiência de emigração, há disputas. Alguns ressaltam as cores positivas e outros, não obstante as informações e o conhecimento geral acrescido, lembram que eram os brasileiros.


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1 "Deste modo sob o risco de chocar tanto os metodólogos rigoristas quanto os hermeneutas inspirados, eu diria naturalmente que a entrevista pode ser considerada como uma forma de exercício espiritual, visando obter, pelo esquecimento de si, uma verdadeira conversão do olhar que lançamos sobre os outros nas circunstâncias comuns da vida." ( Bourdieu, 1997, p. 704).

2 Observamos que "transcrever é necessariamente escrever, no sentido de reescrever: como a passagem do escrito para o oral que o teatro faz, a passagem do oral ao escrito impõe, com a mudança de base, infidelidade que são sem dúvidas a condição de uma verdadeira fidelidade. As antinomias bem conhecidas da literatura popular lembram que dar realmente a palavra àqueles que habitualmente não a têm, é apenas lhes dar a palavra tal qual. Existem as demoras, as repetições, as frases interrompidas e prolongadas por gestos, olhares, suspiros ou exclamações, há as digressões laboriosas, as ambigüidades que a transcrição desfaz inevitavelmente, as referências a situações concretas, acontecimentos ligados à história singular" (idem, ibidem, p. 710)


3 Willems (1980), Roche (1969) e Kreutz (1991) têm dedicado espaço para a análise da emergência e proliferação de instituições educativas confessionais.



4 Além da assistência religiosa os Congressos Católicos, que seriam imitações das Assembléias Gerais de Católicos na Alemanha e na Áustria, objetivavam a gradativa elevação do nível das colônias. Nas questões seculares abordavam a conservação do solo, rodízio de culturas, seleção de sementes, melhoria de técnicas agrícolas, adubação e reflorestamento (Kreutz, 1991, e Marchi, 1992).







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