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XXIV ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS



TÍTULO DO TRABALHO: Gênero e pobreza: o lugar dos homens em famílias de baixa renda


GT 05: FAMÍLIA E SOCIEDADE


SEGUNDA SESSÃO: Homens, Mulheres e Famílias: Reproduzindo Imagens


AUTOR: Pedro Francisco Guedes do Nascimento

Universidade Federal de Pernambuco (FAGES/PAPAI)




GÊNERO E POBREZA: O LUGAR DOS HOMENS EM FAMÍLIAS DE BAIXA RENDA

Pedro Francisco Guedes do Nascimento1

Este texto é resultado de pesquisas realizadas nos últimos três anos, no bairro de Alberto Maia em Camaragibe/PE em torno do modelo de masculinidade apresentado por aquela comunidade e as formas que são utilizadas para a experiência cotidiana deste modelo. Tratarei aqui mais especificamente de questões levantadas através de pesquisa realizada como atividade do Terceiro Programa de Treinamento em Pesquisa sobre Direitos Reprodutivos na América Latina e Caribe (PRODIR III)2. Neste programa desenvolvi a pesquisa "Homens pobres, masculinidades à margem. A construção social da masculinidade em Camaragibe/PE", onde focalizei homens e mulheres em contextos de extrema pobreza, caracterizados pelo fato de os homens não serem os provedores de seus lares e dependerem financeiramente de mulheres (mães, esposas ou irmãs).

Para a realização desta investigação residi no bairro por quatro meses, entre agosto e dezembro de 1999. Além da observação participante, realizei entrevistas com homens e mulheres. O meu objetivo não era identificar homens que estão desempregados e à procura de

trabalho, tendo sua história laboral sempre caracterizada por períodos de desemprego. O que busquei caracterizar foi a condição de homens que apresentaram essa trajetória, mas viviam uma situação em que não mais buscavam superar esses momentos de desemprego e estavam adaptados a uma nova situação em que se identificavam e eram identificados como sendo homens que não trabalhavam e eram, por isso, sustentados por uma outra pessoa.

Na maioria dos casos, os homens que haviam se adaptado a uma vida sem trabalho, estavam separados, vivendo com parentes. Apenas dois casos configuravam a situação de esposa provedora e marido desempregado. Num outro caso, marido e mulher estavam juntos, mas a principal fonte de renda da casa não eram nenhum dos dois, mas a mãe do marido. Os demais casos eram de homens sustentados pela mãe ou irmã ou ambas.

Além disso, é importante perceber que os arranjos de convivência não são fixos. Há uma circulação que depende de vários fatores, o que fez com que, por exemplo, homens que moravam com suas esposas viessem a se separar, outros que vivessem com suas mães ou irmãs, viessem a morar sozinhos, ou que moravam sozinhos e passassem a morar com suas irmãs. Isto aponta para algo que será central para a compreensão das questões postas: a sobrevivência desses homens dependem de sua capacidade de estabelecer redes, sendo estas sempre marcadas pela presença feminina

Desse modo, foram identificados, a partir do meu círculo de convivência, 11 homens que se inseriam no perfil de homens que vivem a condição de serem sustentados por uma outra pessoa e dois outros moravam sozinhos. Desse total, 10 foram entrevistados diretamente. Das mulheres, foram entrevistadas 7, sendo três delas mães cada uma de dois informantes, três, esposas e outra irmã de dois deles.

A pesquisa foi desenvolvida no município de Camaragibe, no bairro Alberto Maia, mas teve como foco de investigação uma área conhecida como a "Invasão" que é a área menos valorizada e apontada como o lugar mais violento do bairro. A Invasão corresponde a uma área habitada por cerca de 1500 famílias ocupada nas últimas duas décadas e formada atualmente, como grande parte da população do bairro, por famílias oriundas do interior do estado, de antigas zonas canavieiras e de demais partes da Região Metropolitana do Recife (RMR).

O gênero, os homens e as masculinidades

Para o desenvolvimento dessa pesquisa, que implica em considerar como as relações de gênero se apresentam quando a principal reivindicação do modelo de masculinidade não pode ser atualizada pelos homens, tornou-se necessário, antes de qualquer coisa, deixar claro qual era esse modelo segundo o qual homens e mulheres se orientavam em sua vida cotidiana. Esta forma de reflexão da masculinidade a partir do reconhecimento da existência de um modelo ideal ganhou força a partir da reflexão de alguns autores que têm sido fundamentais para o avanço dos estudos nesse campo.

Os elementos da masculinidade hegemônica percebidos em Camaragibe se coadunam basicamente com os estereótipos cristalizados culturalmente do "macho" (Saffioti, 1987), para pensarmos em termos latinos, que são também, em nível mais geral, os valores mediterrânicos (Peristiany, 1971; Brandes, 1985). Valdés e Olavarría (1998: 14-15) referindo-se ao que é ser homem em Santiago do Chile, remetem à existência de um modelo semelhante, segundo o qual o homem tem autoridade, sobretudo no lar; é autônomo e livre frente a outros homens; tem força e coragem e não expressa suas emoções, tampouco chora; é o provedor do lar e é heterossexual.

Para os objetivos deste trabalho não me deterei a apresentar detalhadamente como as características do modelo de masculinidade se apresentam para a população como um todo. Este que foi o objetivo de pesquisa anterior (Nascimento, 1999), serviu de base para as questões que emergiram, onde chamei de atualização o fato de que, mesmo quando os homens estão questionando ou criticando determinados elementos da masculinidade, é a esse mesmo modelo geral que eles estão se referindo.

Para isto, partilho de alguns postulados de autores como Connell (1987, 1997) em seu chamado à percepção de que não existe uma só masculinidade, mas sim, uma masculinidade hegemônica, que seria a masculinidade padrão considerada normal e à idéia de que a masculinidade "é ao mesmo tempo a posição nas relações de gênero, as práticas pelas quais os homens e as mulheres se comprometem com essa posição de gênero, e os efeitos destas práticas na experiência corporal, na personalidade e na cultura" (Connell, 1997: 35).

Deste modo, os significados relacionados ao gênero, acabam por se constituir numa dicotomia fundamental e princípio classificatório a partir de uma simbólica de divisão do mundo em masculino e feminino (Vale de Almeida, 1996: 163), o que foi ricamente sistematizado por Bourdieu (1995).

Estudos realizados no Brasil apontam para questões que estão presentes de modo bastante significativo em minha investigação, apontando para a dificuldade que famílias pobres teriam para atualizar a norma e apontando os caminhos assumidos frente as mesmas (Woortmann, 1987: 66). O fato de homem não poder ser o provedor do lar de acordo com o modelo ideal, associado à instabilidade das relações conjugais e à matrifocalidade do sistema de parentesco, acabava por criar um contexto extremamente desfavorável aos homens que, por não terem propriedade nem herança, veriam destacar-se o papel da mãe (Scott, 1990: 39).

Os conflitos decorrentes desta alteração dos padrões tradicionais dos grupos domésticos têm como conseqüência o padrão de "família das mulheres", segundo a expressão de Woortmann (1987). Sendo que esta reordenação da família toca em questões relativas ao nível da "divisão do poder, autoridade, papéis e funções internos a cada unidade".

Esta idéia não deve obscurecer o fato de que as famílias matrifocais são muito menos uma questão de negação da dominação masculina do que uma situação colocada de impossibilidade de atualização das expectativas acerca do papel de provedor do homem. A importância desta diferenciação está em perceber estes arranjos como uma variação que permite o controle de situações críticas, onde, enquanto se faz possível, a mulher vai procurar "reverter a situação, co-optando o companheiro a assumir os papéis principais ou a assegurar os recursos básicos à reprodução da família, cabendo-lhe, então, a complementação de recursos" (Neves, 1985: 202).

Disto decorre a importância de remeter os dispositivos de masculinidade que estou investigando à discussão da honra enquanto direito ao orgulho de si mesmo, como bem definiu Pitt-Rivers (1971: 13), associando-a à pobreza, onde a honra vincula-se à virtude moral e não à posição social como seria para os aristocratas (Sarti, 1996: 119).

Na seqüência, estarei apresentando alguns dos resultados que apontam para a forma como as relações foram estruturadas a partir desse contexto específico. Embora o objetivo principal seja refletir sobre o lugar dos homens, entendo que isto não pode ser feito sem que se levem em conta as diversas relações travadas entre os sujeitos envolvidos. Isto, para mim, é fundamental, pois evidencia o tão difundido, mas muitas vezes pouco considerado, caráter relacional do gênero.

O não trabalho masculino e suas nuanças

Desde meus primeiros contatos com a população pude perceber que frente à impossibilidade de provimento do lar por parte dos homens, estes se utilizavam dos mais variados recursos com vistas a justificar a sua condição.

A princípio estas questões me chegaram de modo reticente onde eles diziam ser eles e suas esposas quem sustentavam a casa. Na seqüência, começava-se a esclarecer: "Minha mãe me dá. Minha mãe abanca eu e meu irmão". Só assim entendi que sua mãe era empregada doméstica e dizer que também bota dinheiro "pra dentro" de casa, significava um recurso através do qual este homem numa acrobacia lingüística, onde o jogo das relações de parentesco fazia mãe e filho aproximarem-se e quase serem uma só coisa em oposição à estrangeira esposa (ver Fonseca, 1987) via-se desobrigado de me dizer frente a seus colegas que era "sustentado pela mulher".

Quando recursos desta natureza não eram utilizados, a afirmação de que, além de não estar trabalhando, era a esposa quem estava sendo responsável pelo sustento da casa, não era feita de forma direta. Uma das justificativas mais comuns era a de se apresentar o contexto atual de desemprego como algo temporário: "Esses dia eu tô parado..." ou "O negócio num tá muito bom... Quem tá sustentando a casa é a mulher...". Quando não era esta fala de um tempo modificado que, aliás, na maioria das vezes, significa muito tempo, mas seguindo a mesma lógica, muitos apresentam um discurso moderno, sinalizando naturalidade para sua posição de dependência: "Mas ela sabe que comigo é nenhuma, quando eu num tenho ela tem...". Frente ao fato de confrontar-se com uma realidade onde não é possível agir de modo compatível com as prerrogativas do modelo, é preferível antes de admitir-se incapaz, reelaborar o próprio modelo.



O reconhecimento do desemprego: o ócio legitimado

Porém, aos poucos estes recursos foram deixando de ser utilizados e já não se procurava ocultar para mim ou para outros o fato de que já não trabalhavam e além disso não dependia deles a manutenção financeira da casa. Passava-se então a uma nova situação, onde novos recursos eram utilizados, não mais para configurar distintamente sua situação, mas para apresentá-la sob argumentos eficazes. Poderia dizer que não mais uma tentativa de ocultamento, mas de legitimação, utilizados tanto pelos homens, quanto pelas mulheres.

Da parte das mulheres, há um reconhecimento explícito de que não podem mais contar com seus maridos por acreditarem que eles não vão mais procurar trabalho. Além disso, não são todas as mulheres que se referem ao fato com tranqüilidade, nem são todas as vezes também. Um discurso indignado aparece em algumas falas desmistificando a noção de um período sem trabalhar.

Por sua vez, da parte dos homens, percebe-se a noção de que não têm condições de voltar a desempenhar esse papel ou ainda que não o desejam. Eles, à medida em que anunciam sua condição, já apresentam suas muitas justificativas que são as mais variadas, como o fato de que não há trabalho e que o fato de sair da casa para procurá-lo implicaria em perder tempo e dinheiro com passagens e comida. Em outras situações, o reconhecimento da inexistência de emprego aparece igualmente explícito, mas aponta para uma das mais recorrentes figuras neste contexto, a mãe, enquanto a grande provedora.

Frente a esse reconhecimento de uma certa renúncia, não por uma opção no que se refere às mulheres, do modelo tradicional de homem trabalhador e mulher dona de casa, emerge a busca por uma compreensão que justifique a realidade configurada atualmente. Esta será feita a partir de vários recursos como foi anunciado. Entre eles o mais presente na fala de homens e mulheres será o reconhecimento da dificuldade de qualquer homem arrumar emprego, em virtude dos contextos conjunturalmente formados. Mesmo figurando junto à noção de que há desinteresse e preguiça dos homens muitas vezes, o fato de que existem elementos externos à vontade dos sujeitos (mesmo que não só eles) é reconhecida por todos.

Além dos efeitos do desemprego, a bebida também acaba se transformando numa justificativa para o não trabalho. Mesmo que a princípio seja pensada como irresponsabilidade, é reconhecida posteriormente como impedidora.



Não trabalho, bebida e doença

Quando surgem as comparações com o tempo passado, a bebida é uma das implicações principais junto com a acomodação por ter alguém que os sustente. Não só no sentido de que eles deixaram de trabalhar e viraram "vagabundos", se "entregaram à bebida", mas também o reconhecimento de que a bebida os debilita fisicamente. Assim, quando se fala em doença como justificativa, ela pode ser tanto uma outra enfermidade como as próprias conseqüências do álcool que têm o poder de ser ressignificadas no tempo presente, fazendo com que o que bebe não seja abandonado totalmente. Embora na fala das mulheres exista indignação e desapontamento, é possível perceber o reconhecimento da impossibilidade de forma concreta. No caso dos homens, às vezes, o recurso da doença dá lugar a uma admissão explícita de que não querem voltar a trabalhar, mesmo usando argumentos semelhantes. Na fala das mulheres, muitas vezes, há uma ambigüidade na caracterização da condição de homens desempregados enunciado às vezes no discurso de que não tem emprego mesmo para os qualificados, outras vezes, ao argumento de que eles não se interessam, acrescenta-se o fato partilhado largamente de que não trabalham porque eles têm quem os sustentem.

Embora a necessidade de uma mulher que represente o cuidado seja sempre presente, é a mãe a primeira e mais importante referência. Dois dos informantes localizaram na morte de suas mães a passagem para períodos de maiores dificuldades. Mesmo que surja uma mulher que ocupe o lugar da mãe, este nunca é pensado como sendo substituído de modo satisfatório. Tão significativo quanto o fato de que nenhum homem foi localizado sendo cuidado por um outro homem, como o fato de que quando sozinhos esses homens vivem em piores condições do que qualquer outro é o de que, quando não há a figura da mãe, a possibilidade de sobrevivência de um homem passa pela presença feminina.

Trabalho e honra ou Quando é melhor não trabalhar

Mesmo esclarecendo que não é apenas em relação ao sustento financeiro que a figura da mãe e da mulher em geral é importante na vida dos homens, a dimensão do trabalho é vital na definição de suas identidades. Bem mais do que uma simples justificativa para o fato de não trabalharem - o que é apontado como preguiça por todos, há uma marcante compreensão dos homens acerca de que trabalhar é muito mais do que ter algo para fazer. Além de ter um trabalho (não existe uma categoria transcendental que por constituir o modelo oprime os homens fazendo-os assumirem qualquer trabalho que se lhes oferecer), este precisa ser uma categoria que os faça vislumbrar a possibilidade de virem a estar em uma situação melhor do que a atual. Várias vezes ouvi homens reclamarem quando eram requisitados para fazerem alguns trabalhos (ajudar em construções ou reformas de casas, transportar material de construção, limpar quintais, etc.) dizendo que os que os chamavam queriam sempre lhes pagar com bebida ou que prometiam dinheiro e depois nunca os pagavam. De outra forma ainda quando achavam que o trabalho era muito pesado, diziam que não iriam se humilhar frente aos outros pra "receber mixaria".

Essa idéia de que não se trabalha porque os trabalhos que aparecem ou são muito pesados ou são negociados de forma injusta pelos que os oferecem, caracteriza o discurso de muitos homens. Um deles, casado, cuja esposa é empregada doméstica, certa vez, ao lhe perguntar em que trabalhava anteriormente, me mostrou as mãos calejadas e as unhas corrompidas dizendo que trabalhava enchendo caminhão com areia e pedras, ao mesmo tempo que afirmava que se o trabalho que aparecesse fosse desse mesmo tipo ele não iria querer. Some-se a isso o fato já anunciado acima de que quando se tem a expectativa de que uma outra pessoa irá trabalhar pra sustentá-lo o homem "se acomoda", poderemos entender a diferença entre esses e aqueles que já não podem contar com ninguém. A situação dos homens que moram sozinhos, quanto a este aspecto, é paradigmática. Estes são os que eu vi quotidianamente à procura de algum trabalho, dos mais variados tipos. Mesmo que eu os tenha ouvido reclamar de outras vezes, sua possibilidade de abrir mão de qualquer atividade será sempre bastante reduzida pelo fato de que não poderão esperar por outra pessoa. Se eles não fizerem, ninguém o fará.

Assim surgem tanto esses homens sozinhos como aqueles que têm grande família para sustentar. Alguns homens remetiam ao fato de ter muitos filhos a razão porque alguns conhecidos seus acabavam por se humilhar frente a outros homens. Torna-se, assim, significativo o fato de que de todos os principais informantes, mesmo que a maioria tenha filhos, apenas um mora na mesma casa que estes, sendo que em seu caso, a esposa é empregada.



O príncipe que não veio: conjugalidade e desemprego masculino

Embora não seja possível dizer que o fato de os homens não trabalharem é percebido de forma tranqüila por qualquer um dos envolvidos na relação, é possível apontar uma certa resignação na fala das mulheres, onde a queixa não se transforma com facilidade em atitude de ruptura e mudança. Mesmo quando fazem comparações entre o tempo em que esses não bebiam e agora, o que se percebe é mais um lamento por não se poder vivenciar o sonho acalentado do que por uma crítica à postura masculina. Muito embora existam discursos emancipatórios e críticas vorazes, essas não são feitas como uma cobrança insistente do tipo "agora ou nunca". Parece haver uma maleabilidade ou uma plasticidade que dá a essas relações capacidade de manutenção maior do que a que nossos padrões nos impõem perceber.

Além de um argumento dessa natureza, podemos pensar no fato de que algumas mulheres dependem da mãe de seus maridos, ou têm com esses algum tipo de vínculo não facilmente solucionável, tal qual a casa ou os filhos. Em outros casos, podemos pensar que não só se provém alimento e teto. Numa sociedade marcada pelas reivindicações à conjugalidade, as imagens de alguém sozinho ou abandonado, como citado anteriormente, não são o que se pode chamar de um projeto acalentado.

Reforçando essa idéia, o discurso de alguns homens afirmando não se incomodarem com as críticas e xingamentos que recebem por conta de sua condição, sugere a possibilidade de pensarmos sua condição não apenas através das justificativas que venho apresentando, mas como uma situação legitimada que não parece buscar modificações, em virtude das vantagens intrínsecas ao contexto supostamente deteriorante.

Particularmente na fala de um desses homens em que afirma que sua esposa "nunca se preocupou com isso não", na seqüência o mesmo reforça que sua esposa já sabia de sua condição de desemprego e de não procurar trabalho desde que se conheceram. Frente a esse conhecimento, ele não se apresenta destituído, como alguém que não tivesse nada a dar em troca na relação. A casa é citada como contrapartida e outros homens, bem como mulheres usam o argumento de não abrir mão da casa, como razão para a não separação. Por sua vez, as mulheres referem sua condição de independência financeira em relação aos maridos como sendo algo positivo, em alguns momentos, dizendo não sentir falta da ajuda do marido, muito embora digam que se seus homens trabalhassem elas não trabalhariam tanto.

Assim, entendo que a queixa principal das mulheres é à impossibilidade de experimentar a situação clássica, romanticamente idealizada de mulher dona de casa - mãe - esposa. A falta aqui é não apenas de um homem provedor de alimento, mas de elementos subjetivos como o respeito e a companhia.

Importante notar que essa falta é remetida a um tempo anterior ao atual de maior ausência do marido. Paradoxalmente, mesmo sentindo essa falta desde que o conheceu, a relação foi mantida. Isso indica que não houve uma ruptura radical com relação ao quadro original do casamento. Ao longo dos anos de convivência, continuou ela a esperar que isso se efetivasse talvez. Parece não esperar mais que o provimento financeiro se efetive. Mas será possível pensar que o demais pode ainda ser conseguido? Daí a idéia de não separar... Ou ainda, não haverá, para além das queixas, uma certa noção de que de algum modo esta dimensão se atualiza pela presença do homem - mesmo insatisfatória. Percebo uma reconfiguração clara do quadro tradicional, por exemplo quando a mesma mulher fala acerca das coisas que manda o marido fazer. Não se trata de mandá-lo procurar emprego ou mudar totalmente de costume. Sua cobrança é pela execução de pequenas tarefas compreendidas como masculinas, como encher os reservatórios de água, comprar botijão de gás, etc. Esta noção se associa às falas onde aparece a idéia de que não quer mais conviver com o marido, mas ao mesmo tempo não o põe para fora de casa por variadas razões. Mesmo assim e ainda com o uso da violência pelo homem, às vezes, a separação não se efetiva com facilidade. Ao mesmo tempo que as mulheres apontam para a sua insatisfação, a efetivação da separação é colocada no outro.

Mesmo não contando com a contrapartida masculina do provimento, as mulheres dizem manterem suas atividades de dona de casa. Não me parece que essa (aparente) inversão dos papéis altere as relações entre estes de forma muito significativa. É como se a mulher que se vê no mundo do trabalho, na rua, enquanto seu marido está em casa, não se percebesse como uma mulher desempenhando uma função de homem. Tanto Zefinha como Dona Alaíde, por exemplo, apontam para a noção de que desempenham papéis que não gostariam de desempenhar. O reconhecimento da desistência do trabalho por parte dos homens não as faz assumirem com legitimidade seu lugar. Como foi apontado, há a queixa ecoando sempre.

Interessante perceber aqui que sua reivindicação não é de que ele rompa totalmente com a situação configurada, mesmo que depois apresente seus sonhos. O que ela reivindica é que ele faça certas coisas, não se entregue totalmente. A essa noção corresponde a percepção masculina de como sendo legítimo o cuidado que as mulheres lhe devotam, mesmo que eles não tenham nenhuma atividade extradoméstica. A possibilidade de eles virem a fazer alguma atividade doméstica é colocado nos casos de não ter ninguém que o fizesse.

Não quero apresentar os homens como vítimas de uma estrutura injusta de desemprego, tampouco quero apresentá-los como vilões exploradores do trabalho feminino. O que tenho feito é traçar um panorama de que como os homens e mulheres se posicionam frente a certas situações, bem como eles ressignificam as mesmas a partir de certos posicionamentos. Considero importante perceber estes homens enquanto perfazendo uma rede de relações que lhes permite atualizar sempre certos conteúdos caracterizando-os como masculinos. Para tanto, um item fundamental é a percepção de que sua condição atual de não trabalhador é sempre acionada através de uma observação de que as coisas já foram diferentes. Se não há mais a expectativa de que as coisas vão se modificar, há o discurso de que chegou-se à situação atual por razões outras que não só a indisposição ao trabalho dos homens.

A percepção do lugar da bebida e seus efeitos torna-se importante para afastar a idéia de que estes homens estariam vivendo todos em situações favoráveis. O que tentei demonstrar é que, mesmo em meio à adversidade, torna-se possível encontrar outros caminhos e que o fato de estarem vivendo um determinado lugar não os impossibilita de virem a conseguir inserções mais favoráveis. Quando estas não acontecem, sim, a possibilidade mais provável será mesmo esta impotência sobre a bebida a que eles se referem. Por esta razão, talvez, é que como argumentei inicialmente, acabei sendo influenciado a ponto de não perceber qualquer saída para esses homens que não fosse o álcool. E fui levado a vê-los muitas vezes como arruinados e totalmente à margem. À margem estão, mas não impossibilitados de construírem vias que, a todo momento possam afastá-los deste fim que é o daqueles todos querem se afastar.

Diante dessas considerações, percebo como que homens e mulheres dizendo coisas muito próximas mesmo quando estão trocando acusações, queixando-se, brigando ou insatisfeitos com o perfil atual. As mulheres lamentando por seus homens não fazerem o que se espera deles, ao mesmo tempo em que acreditam que eles não o farão e não abrem mão por completo da convivência com os mesmos, pois isto implicaria em mais perdas. Homens lamentando não fazerem o que esperam, mas já se adaptando a uma nova conjuntura onde está sendo possível dizer que é homem, não por cumprir a demanda tradicional, mas por encontrar quem o faça. O grande desafio posto no momento para esses homens parece ser exatamente o de conseguirem se inserir numa rede em que estas prerrogativas que não mais são capazes de atualizar, possam ser feitas por uma outra pessoa. Quase sempre a mãe, a esposa ou a irmã, mas sempre uma mulher. A impossibilidade de efetivar esta estrutura e não o reconhecimento de que fracassou frente ao projeto original é o grande desafio dos homens. Conseguir que seus homens não se "entreguem à bebida", não sejam violentos e não as abandonem por completo, parece ser o desafio das mulheres e não a experiência plena do ideal burguês, muito embora este esteja sempre presente, como presente estão aquelas mesmas orientações que dizem o que ambos deveriam fazer.




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1 Mestre em Antropologia Cultural pela Universidade Federal de Pernambuco; Pesquisador do Núcleo Família Gênero e Sexualidade (FAGES); Membro da coordenação do Programa PAPAI; Bolsista da Fundação MacArthur (PRODIR III e FCDP).

2 O PRODIR é realizado pela Fundação Carlos Chagas e financiado pela Fundação MacArthur



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