Zecharia Sitchin a escada para o céu o caminho percorrido pelos Povos Antigos para atingir a Imortalidade



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Zecharia Sitchin
A ESCADA PARA O CÉU

O Caminho percorrido pelos Povos Antigos para atingir a Imortalidade
Livro II de As Crônicas da Terra

Tradução de EVELYN DE MASSARO

EDITORA BEST SELLER

1980
SUMÁRIO
1. Em Busca do Paraíso 7 

2. Os Antepassados Imortais 29 

3. A Viagem do Faraó para a Outra Vida 49 

4. A Escada para o Céu 65 

5. Os Deuses que Vieram ao Planeta Terra 91 

6. Nos Dias Antes do Dilúvio 125 

7. Gilgamesh: O Rei que Não Queria Morrer 149 

8. Cavaleiros das Nuvens 181 

9. O Local de Aterrissagem 211 

10. Tilmun: A Terra dos Foguetes 237 

11. Monte Enganador 261 

12. As Pirâmides de Deuses e Reis 287 

13. Falsificando o Nome do Faraó 317 

14. O Olhar da Esfinge 353 



1

EM BUSCA DO PARAÍSO
Contam as antigas escrituras que houve uma época em que a imortalidade estava ao alcance da humanidade. Era uma idade de ouro, o homem vivia com seu Criador no Jardim do Éden, cuidava do pomar e Deus passeava, gozando a brisa vespertina. "Iahweh Deus fez crescer do solo toda espécie de árvores formosas de ver e boas de comer, e a Árvore da Vida no meio do jardim e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Um rio saía do Éden para regar o jardim e de lá se dividia formando quatro braços. O primeiro chama-se Fison (...); o segundo rio chama-se Geon (...); o terceiro rio chama-se Tigre (...); o quarto rio é o Eufrates.”

Adão e Eva tinham permissão para comer os frutos de todas as árvores, com exceção do fruto da Árvore do Conhecimento. Quando desobedeceram à ordem (tentados pela serpente), Deus ficou preocupado com o assunto da imortalidade:

Depois disse Iahweh Deus:

Se o homem já é como um de nós,

Versado no bem e no mal,

Que agora ele não estenda a mão

E colha também da Árvore da Vida,

E coma e viva para sempre!”

E Iahweh Deus o expulsou do Jardim do Éden

Para cultivar o solo de onde fora tirado.

Ele baniu o homem e colocou,

Diante do Jardim do Éden,

Os querubins e a chama da espada flamejante,

Para guardar o caminho da Árvore da Vida.


Assim, o homem foi expulso do lugar onde a vida eterna esperava por ele. E, embora banido, jamais cessou de recordar, ansiar e tentar atingir a imortalidade.

Desde a expulsão do paraíso, os heróis têm ido aos Confins da Terra em busca da imortalidade. A alguns escolhidos foi dado encontrá-la; gente simples afirmou ter chegado a ela por acaso.

No decorrer dos tempos, a procura do paraíso foi algo que sempre dizia respeito a cada indivíduo. Entretanto, nos meados deste milênio, essa busca tornou-se uma empreitada oficial de poderosos reinos.

Segundo nos levaram a acreditar, o Novo Mundo foi descoberto quando os exploradores procuravam uma rota marítima para a Índia em busca de riquezas. Isso é verdade, mas apenas em parte, pois o que Fernando e Isabel, os reis da Espanha, mais desejavam era encontrar a Fonte da Eterna Juventude, uma fonte de poderes mágicos cujas águas rejuvenesciam os velhos e mantinham as pessoas eternamente jovens, porque brotava de um poço do paraíso.

Nem bem Colombo e seus homens desembarcaram no que pensavam ser as ilhas da Índia (as "Índias Ocidentais"), eles passaram a combinar a exploração das novas terras com a busca pela lendária fonte cujas águas "tornavam os velhos novamente jovens". Os espanhóis interrogaram, sob tortura, os "índios" capturados para que revelassem a localização secreta da mítica fonte.

Quem mais se destacou nessas investigações foi Ponce de León, soldado profissional e aventureiro espanhol, que saiu das fileiras para terminar como governador de parte da ilha de Hispaniola, que atualmente é o Haiti, e de Porto Rico. Em 1511, ele assistiu ao interrogatório de alguns índios aprisionados. Ao descreverem a ilha que habitavam, os nativos falaram de suas pérolas e outras riquezas, e enalteceram as maravilhosas virtudes de suas águas. Existe uma fonte, contaram, onde um ilhéu "gravemente oprimido pela velhice" foi beber. Depois disso "ele recuperou sua força varonil e praticava todos os desempenhos viris, tendo novamente tomado uma esposa e gerado filhos".

Ouvindo com crescente entusiasmo, Ponce de León, ele próprio um homem de mais de 50 anos, convenceu-se de que os índios descreviam a mítica fonte das águas rejuvenescedoras. A observação final dos nativos lhe pareceu a parte mais notável do relato, pois na corte da Espanha, bem como em toda a Europa, abundavam quadros feitos pelos maiores artistas e sempre que eles pintavam cenas de amor ou alegorias sexuais incluíam uma fonte no cenário. Talvez o mais famoso desses quadros seja O Amor Sagrado e o Amor Profano, de Ticiano. Na pintura, a fonte insinua o máximo em matéria de amor - as águas que tornavam possíveis "todos os desempenhos viris" ao longo da eterna juventude.

O relatório de Ponce de León para o rei Fernando aparece nos registros mantidos pelo historiador oficial da corte, Pietro Martire di Anghiera. Como este afirma em seu Decade de Orbe Novo (Décadas do Novo Mundo), os índios vindos das ilhas Lucaias, ou Bahamas, revelaram que "há uma ilha onde existe uma fonte perene de água corrente de tal excelsa virtude que ingerida, quem sabe acompanhada de alguma dieta, torna os velhos novamente jovens". Muitos estudos, como a obra de Leonardo Olschki, Ponce de León's Fountain of Youth: History of a Geographical Myth (A Fonte da Juventude de Ponce de León: História de um Mito Geográfico), estabeleceram que a "Fonte da Juventude era a mais popular e característica expressão das emoções e expectativas que agitaram os conquistadores do Novo Mundo". Sem dúvida, Fernando, rei da Espanha, era um dos que esperavam ansiosamente a confirmação da notícia.

Assim, quando chegou a carta de Ponce de León, o rei não perdeu tempo. Concedeu de imediato ao aventureiro uma patente de descobrimento (com data de 23 de fevereiro de 1512), autorizando a partida de uma expedição da ilha de Hispaniola tomando rumo norte. O Almirantado recebeu ordem de auxiliar Ponce de León e dar-lhe as melhores embarcações e marinheiros, com os quais talvez descobriria sem demora a ilha de "Beininy" (Bimini). O rei deixou bem explícita uma instrução: "Depois de teres atingido a ilha e ficares sabendo o que existe nela, tu me mandarás um relatório".

Em março de 1513, Ponce de Leon partiu para o norte com a intenção de encontrar a ilha de Bimini. A desculpa pública para a expedição era "procurar ouro e outros metais", mas a verdadeira meta era encontrar a Fonte da Eterna Juventude. Os marinheiros logo desconfiaram disso quando viram não apenas uma ilha, mas centenas delas, as Bahamas. Ao ancorarem em uma após outra, os grupos de desembarque receberam instruções de procurarem não ouro, mas uma fonte incomum. Águas de riachos foram testadas e bebidas sem efeitos extraordinários aparentes. No Domingo de Páscoa - Pasca de Flores, em espanhol -, foi avistado um longo litoral e Ponce de León chamou a "ilha" de Flórida. Acompanhando a costa e desembarcando várias vezes, ele e seus homens exploraram as florestas e beberam a água de inúmeras fontes. Todavia, nenhuma delas pareceu realizar o milagre tão almejado.

Contudo, o fracasso da missão não conseguiu abalar a convicção de que existia mesmo a tal fonte no Novo Mundo. Ela só precisava ser descoberta. Mais índios foram interrogados. Alguns aparentavam muito menos idade do que realmente afirmavam ter; outros repetiram lendas que confirmavam a existência da água milagrosa. Urna delas, transcrita em Creation Myths of Primitive America (Mitos da Criação da América Primitiva), de J. Curtin, diz que quando Olelbis, "aquele que está sentado no alto", estava para criar a humanidade, mandou dois emissários à Terra para construírem uma escada que ligaria o Céu e a Terra. A meio caminho, deveriam instalar um local de repouso, onde haveria uma lagoa da mais pura água potável. No topo da escada criariam duas fontes, uma para se beber e outra para banhos.

Disse Olelbis: "Quando um homem ou uma mulher envelhecer, deixem-no subir a esse cume, beber e banhar-se. Com isso, sua juventude será restaurada".

A convicção de que a fonte existia em algum lugar daquelas ilhas era tão forte que em 1514 - um ano depois da malograda expedição de Ponce de León - Pietro Martire escreveu (em sua Segunda Década) ao papa Leão X informando:
A uma distância de 325 léguas de Hispaniola, dizem, existe uma ilha chamada Boyuca, aliás Ananeo, que, segundo aqueles que exploraram seu interior, possui urna fonte extraordinária, cujas águas rejuvenescem os velhos.

Que Sua Santidade não pense que isso esteja sendo dito leviana ou irrefletidamente, pois esse fato é considerado verdadeiro na corte, e de uma maneira tão formal, que todos, mesmo aqueles cuja sabedoria ou fortuna os distinguem das pessoas comuns, o aceitam como verdade.


Ponce de León, sem se deixar desanimar, concluiu, após pesquisas adicionais, que deveria procurar urna fonte ligada a um rio, possivelmente através de um túnel subterrâneo. Então, se a fonte ficava numa ilha qualquer, seu manancial não seria um rio da Flórida?

Em 1521, a Coroa espanhola ordenou que Ponce de León fizesse urna nova expedição, desta vez centralizando as buscas na Flórida. Não existem dúvidas sobre o verdadeiro propósito dessa missão. Poucas décadas depois, o historiador espanhol Antonio de Herrera & Tordesillas afirmou em sua Historia General de Las Indias (História Geral das Índias): "Ele (Ponce de León) saiu em busca daquela fonte sagrada, tão afamada entre os índios, e do rio cujas águas rejuvenesciam os velhos". A intenção era descobrir a fonte na ilha de Bimini e o rio na Flórida, onde, segundo afirmavam os índios de Cuba e Hispaniola, "os velhos que nele se banhavam tornavam-se jovens de novo".

Em vez da juventude eterna, Ponce de León encontrou a morte ao ser atingido por uma flecha dos índios caraíbas. Assim, embora a procura individual por uma poção ou ungüento que consiga adiar o dia final talvez jamais termine, a busca organizada, sob comando real, chegou ao fim.
Teria a busca sido inútil desde o início? Fernando, Isabel, Ponce de León e todos que navegaram e morreram procurando pela Fonte da Juventude seriam apenas tolos que acreditavam em contos de fada primitivos?

Não, no entender deles. As Sagradas Escrituras, crenças pagãs e relatos documentados de grandes viajantes juntavam-se para garantir que realmente existia um lugar cuja água (ou néctar de seus frutos) podia conceder a imortalidade, mantendo a pessoa eternamente jovem.

Antigos contos falando de um local secreto, urna fonte secreta, um fruto ou planta secreta que salvaria seus descobridores da morte eram comuns na península Ibérica, corno um legado dos celtas que habitaram a região num passado distante. Corriam histórias sobre a deusa Idunn, que vivia junto a um riacho sagrado e guardava maçãs mágicas num baú. Quando os deuses envelheciam, iam procurá-la para comerem as frutas e se tornarem novamente jovens. De fato, Idunn significava "jovem de novo" e as maçãs consistiam no "elixir dos deuses".

Seriam esses contos populares um eco da lenda de Héracles (nome grego de Hércules) e seus doze trabalhos? Uma sacerdotisa do deus Apolo, ao prever o que esperava o herói, lhe garantira: "Quando tu os completares, tornar-te-ás um dos mortais". O penúltimo trabalho de Héracles seria colher e trazer as divinas maçãs de ouro das Hespérides. Estas, as "Ninfas do Poente", habitavam as proximidades do monte Atlas, na Mauritânia.

Os gregos, e depois os romanos, nos legaram muitos contos sobre homens imortalizados. Apolo ungiu o corpo de Sarpédon e ele durou várias gerações. Afrodite presenteou Faon com uma poção mágica. Ao ungir-se com ela, Faon transformou-se num belo jovem "que despertou amor no coração de todas as mulheres de Lesbos". O menino Demofonte, ungido com ambrosia pela deusa Deméter, com certeza teria se tornado imortal se sua mãe, ignorando a identidade da deusa, não o houvesse tirado de suas mãos.

Havia também a história de Tântalo, tornado imortal ao se alimentar de néctar e ambrosia que roubara da mesa dos deuses. Quando ele matou o próprio filho para servir sua carne aos deuses, estes o puniram banindo-o para uma terra onde abundavam a água e os frutos, mas que permaneciam eternamente fora de seu alcance. (O deus Hermes ressuscitou o jovem assassinado.) Já Odisseu (nome grego de Ulisses), a quem a ninfa Calipso ofereceu a imortalidade se ele aceitasse ficar em sua companhia para sempre, preferiu arriscar­-se a voltar para o lar e a esposa.

E a história de Glauco, um simples pescador que se transformou num deus do mar? Um dia ele observou que um peixe que pescara, ao entrar em contato com uma determinada erva, voltara à vida e saltara para a água. Comendo a erva, Glauco mergulhou atrás dele e, em conseqüência, os deuses Oceano e Tétis admitiram-no em seu círculo e o transformaram numa deidade.

O ano em que Colombo zarpou da Espanha, 1492, foi também o ano em que terminou a ocupação muçulmana da península Ibérica, com a rendição dos mouros em Granada. Ao longo dos quase oito séculos de contenda árabe-cristã na região, houve uma imensa interação das duas culturas. As histórias do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos, que também falavam sobre o peixe e a fonte da vida, eram conhecidas tanto por mouros como por católicos. O fato do conto em questão ser quase idêntico ao da lenda grega de Glauco, o pescador, era tomado como uma confirmação de sua autenticidade. Ele também foi um dos motivos para a busca da lendária fonte da Índia, a terra que Colombo partiu para alcançar e imaginou ter encontrado.

A parte do Corão que contém a história do peixe é a 18ª. sura, que fala das viagens de Moisés, o herói bíblico do Êxodo do Egito, explorando vários mistérios. Como parte dos preparativos para cumprir seu destino como mensageiro de Deus, ele teria de receber o conhecimento de que ainda carecia de um misterioso "servo de Deus". Acompanhado de apenas um criado, Moisés deveria procurar esse enigmático mestre com a ajuda de uma única pista: levaria consigo um peixe seco e, no lugar onde o peixe saltaria e desapareceria, encontraria o "servo de Deus".

Depois de muita caminhada infrutífera, o criado sugeriu que desistissem da busca. Moisés, porém, insistiu, dizendo que não pararia até alcançar "a junção dos dois rios". E foi lá, sem ser notado pelos viajantes, que o milagre aconteceu:


Mas, quando eles chegaram à junção,

Esqueceram-se do peixe,

Que mergulhou no rio,

Como se entrasse num túnel.


Depois de muito caminhar, Moisés disse ao criado: "Pegue nossa refeição matinal", mas o homem respondeu que o peixe sumira:

Quando chegamos à pedra,

Não viste o que aconteceu?

De fato esqueci-me do peixe.

Satã me fez esquecer de contar-vos.

Ele mergulhou no rio de uma forma maravilhosa.

E Moisés disse:

"Era isso que procurávamos".


A história do Corão sobre o peixe seco que ressuscitou e voltou para o mar através de um túnel ia além do conto grego similar porque falava não de um modesto pescador, mas do venerável Moisés. Ela também não apresentava o incidente como uma descoberta casual, mas como uma ocorrência prevista pelo Senhor, que conhecia exatamente a localização da água da vida, que poderiam ser identificadas pela ressurreição do peixe.

Como católicos devotos, o rei e a rainha da Espanha devem ter aceitado literalmente a visão descrita no Apocalipse: "Mostrou-me depois um rio de Água da Vida, brilhante como cristal, que saía do trono de Deus (...) No meio da praça, de um lado e do outro do rio, há árvores da vida que frutificam doze vezes (...)" Sem dúvida acreditaram nas promessas do livro: "A quem tem sede darei a fonte de água viva" e "conceder-lhe-ei comer da Árvore da Vida que está no paraíso de Deus". Além disso, sem dúvida, estavam a par das palavras do salmista bíblico:


Tu dás-lhes de beber de teu rio da eternidade;

Pois contigo está a fonte da vida.


Portanto, era indubitável a existência da fonte da vida e do rio da eternidade, pois era o que atestavam as Sagradas Escrituras. O único problema era onde e como encontrá-los.

A 18ª. sura do Corão oferece algumas pistas importantes. Ela relata os três paradoxos da vida apresentados a Moisés depois de ele ter localizado o servo de Deus. Em seguida, o mesmo trecho do Corão passa a descrever três episódios: uma visita a uma terra onde o sol se põe, depois para uma terra onde o sol se levanta, ou seja, o leste, e finalmente para uma mais distante, onde o mítico povo de Gog e Magog (os contendores bíblicos do fim dos tempos) vinha causando incontáveis danos à Terra. Para acabar com a desordem, o herói do conto - aqui chamado de Du-al'Karnain (Possuidor de Dois Chifres) - fechou uma passagem entre duas íngremes montanhas com blocos de ferro e em seguida derramou sobre eles chumbo derretido, construindo uma barreira tão impressionante que até os poderosos Gog e Magog não foram capazes de escalá-la. Assim separados, os dois não puderam mais causar prejuízos à Terra.

A palavra Karnain, em árabe ou hebraico, significa tanto "duplos chifres" como" duplos raios". Os três episódios adicionais, que vêm logo depois dos Mistérios de Moisés, parecem, devido ao uso do termo, manter como personagem principal o herói bíblico, que bem poderia ter recebido o apelido de Du-al'Karnain porque seu rosto "tinha raios" - irradiava - depois de ele descer do monte Sinai, onde se encontrara face a face com Deus. Os cristãos medievais, todavia, atribuíam a alcunha e a viagem às três terras a Alexandre, o Grande, rei da Macedônia, que no século IV a.C. conquistara a maior parte do mundo conhecido na época, alcançando até a Índia.

Essa crença popular, intercambiando Moisés e Alexandre, tinha origem nas tradições relacionadas com as conquistas e aventuras do rei da Macedônia, que incluíam não apenas o feito na terra de Gog e Magog como também um episódio sobre um peixe seco que voltara à vida quando Alexandre e seu criado encontraram a fonte da vida!


60. Veja, disse Moisés

Ao seu criado, não

Desistirei até atingir

A junção dos dois Mares ou (até) passar

Anos e anos em viagem.
61. Mas, quando eles chegaram

À junção, esqueceram-se

De seu peixe, que tomou

Seu rumo através do mar,

(Direto) como se num túnel.

62. Quando tinham prosseguido

(Alguma distância), Moisés disse

Ao seu criado: Traga-nos nossa

Refeição matinal; com certeza

Sofremos muita fadiga

Nesta (etapa de) nossa viagem.
63. Ele respondeu: Viste

(o que aconteceu) quando

Chegamos à pedra?

Realmente me esqueci

Do peixe; ninguém senão

Satã me fez esquecer

De te contar;

Ele tomou seu rumo através

Do mar de uma maneira maravilhosa!
64. Moisés disse: Era isso que

Procurávamos.

Assim eles voltaram

Em seus passos, seguindo

(O caminho pelo qual tinham vindo).
Os relatos a respeito de Alexandre que corriam por toda a Europa e Oriente Médio na época medieval baseavam-se nos supostos textos de um historiador grego chamado Calístenes, sobrinho de Aristóteles. Indicado pelo rei para registrar seus feitos, triunfos e aventuras na expedição asiática, morreu na prisão por ter criticado o soberano por adotar costumes orientais; seus escritos desapareceram misteriosamente. Séculos depois, começou a circular na Europa um texto em latim que seria uma tradução das crônicas originais de Calístenes. Os eruditos denominaram esses textos de "pseudo-­Calístenes" .

Por muitos séculos, acreditou-se que as muitas versões das façanhas de Alexandre circulando pela Europa e Oriente Médio originavam-se desses pseudo-Calístenes em latim. Todavia, descobriu-­se mais tarde que existiam textos similares em muitos outros idiomas, inclusive hebraico, persa, siríaco, armênio e etíope, bem como pelo menos três versões em grego. Esses vários textos, alguns com origem na Alexandria do século II a.C., divergem em alguns pontos. Mas suas impressionantes similaridades indicam claramente uma fonte comum - talvez até mesmo as crônicas de Calístenes ou, como muitas vezes se afirma, cópias das cartas de Alexandre para sua mãe, Olímpia, e para seu mestre, Aristóteles.

As extraordinárias aventuras em que estamos interessados começaram depois que Alexandre terminou a conquista do Egito. Os textos não esclarecem que direção o rei tomou, nem há certeza de que os episódios seguem uma ordem cronológica ou geográfica. Entretanto, um dos primeiros contos pode explicar a confusão popular entre Alexandre e Moisés. Aparentemente o rei da Macedônia tentou sair do Egito como o herói bíblico, separando as águas do mar Vermelho e fazendo seus seguidores atravessarem-no a pé.

Ao atingir o mar, Alexandre decidiu dividir as águas construindo no meio dele uma muralha de ferro e chumbo derretida e seus pedreiros "continuaram derramando chumbo e outros materiais derretidos na água até que a estrutura chegou acima da superfície". Em seguida, o rei fez seus homens erigirem sobre a muralha uma torre e um pilar, onde mandou esculpir sua própria figura, ostentando dois chifres na cabeça. Então escreveu no monumento: "Aquele que chegar a este lugar e navegar sobre o mar saiba que eu o fechei".

Tendo assim contido as águas, Alexandre e seus homens começaram a atravessar o mar a pé. Contudo, como medida de precaução, enviaram à frente alguns prisioneiros. Quando estes atingiram a torre no meio do mar, "as ondas derramaram-se sobre eles, o mar os engoliu e todos pereceram (...) Quando o Dois Chifres viu o acontecido, sentiu um poderoso medo do mar" e desistiu da tentativa de imitar Moisés.

Mesmo assim, ainda ansioso por descobrir "as trevas" no outro lado do mar, Alexandre fez vários desvios, durante os quais, segundo os textos, visitou as fontes dos rios Eufrates e Tigre, lá estudando "os segredos do céu, das estrelas e dos planetas".

Deixando suas tropas para trás, Alexandre voltou para o País das Trevas, alcançando uma montanha na margem do deserto chamada Mushas. Depois de vários dias de viagem, avistou um "caminho reto, sem muros, onde não havia nem altos nem baixos". Nesse ponto o rei deixou seus poucos e fiéis companheiros e prosseguiu sozinho. Depois de uma caminhada de doze dias e doze noites, "percebeu o esplendor de um anjo". Entretanto, ao se aproximar, viu que o anjo era uma "fogueira flamejante". Alexandre então convenceu-se de que chegara à "montanha da qual todo o mundo é cercado.”

O anjo ficou tão surpreso quanto Alexandre. "Quem és tu e por que estás aqui; oh, mortal?", perguntou, imaginando como aquele homem conseguira "penetrar nesta escuridão, onde nenhum outro foi capaz de entrar." Alexandre respondeu que o próprio Deus o guiara e dera-lhe forças para "chegar a este lugar, que é o paraíso".

A essa altura, para convencer o leitor de que o paraíso, e não o inferno, era atingível por meio de passagens subterrâneas, o autor do antigo texto relatava um longo diálogo entre Alexandre e o anjo sobre temas relacionados com Deus e o homem. Terminada a conversa, o anjo mandou Alexandre voltar para junto de seus amigos, mas o rei insistiu em ter respostas para os mistérios do Céu e da Terra, Deus e o homem. No final, disse que só partiria se recebesse algo que nenhum outro homem obtivera antes. Concordando, o anjo disse: "Eu te contarei algo que fará com que tu vivas e não morras". "Prossiga", falou o Dois Chifres. E o anjo explicou:
No país da Arábia, Deus colocou o negrume da escuridão total, onde está escondido o tesouro desse conhecimento. Lá também fica a fonte que é a chamada de "Água da Vida". Aquele que beber dela, nem que seja uma única gota, jamais morrerá.
O anjo atribuiu outros poderes mágicos a essa Água da Vida, tal como conceder o dom de um homem voar pelo céu, como os anjos. Não precisando de maiores incentivos, Alexandre indagou, ansioso: "Em que região da Terra está situada essa fonte?" A enigmática resposta do anjo foi: "Pergunte aos homens de lá que são herdeiros do conhecimento". Dito isso, deu a Alexandre um cacho de uvas para com elas alimentar suas tropas.

Voltando para junto de seus companheiros, Alexandre contou-­lhes a aventura e deu a cada um uma uva. Mas, "à medida que arrancava uma, outra crescia em seu lugar". Assim, um único cacho serviu para alimentar todos os soldados e suas montarias.

O jovem soberano então começou a indagar sobre os sábios que poderia encontrar. Perguntava a cada um que lhe indicavam: "Já leste nos livros que Deus tem um lugar de trevas onde está oculto o conhecimento e que lá fica a fonte da vida?" As versões gregas dizem que Alexandre foi até os Confins da Terra para encontrar o sábio. Já os etíopes sugerem que o sábio estava ali mesmo, entre sua tropa. Chamava-se Matun e conhecia as antigas escrituras. O lugar, disse o sábio, "jaz bem perto do sol quando ele se levanta do lado direito" .

Ainda pouco informado depois de tantos enigmas, Alexandre colocou-se nas mãos de seu guia. Novamente foram para um lugar de trevas. Depois de muito caminhar, o rei cansou-se e mandou Matun prosseguir sozinho para encontrar a trilha certa. Para ajudá-lo a enxergar na escuridão, deu-lhe uma pedra que lhe chegara às mãos em circunstâncias milagrosas, como um presente de um antigo rei que agora vivia entre os deuses. Era uma pedra que Adão trouxera do paraíso, mais pesada do que qualquer outra substância da Terra.

Matun, apesar de todos os cuidados, acabou se perdendo. Então, tirou a pedra mágica do bolso e colocou-a no chão. Assim que ela tocou o solo, começou a emitir luz e Matun pôde ver um poço. Ele ainda não tinha consciência de que chegara à fonte da vida. A versão etíope descreve o que se seguiu:
Ora, o homem tinha consigo um peixe seco e, estando muito faminto, foi até a água para lavá-lo e prepará-lo para cozinhar... Mas, assim que o peixe tocou na água, saiu nadando.
"Quando Matun viu isso, despiu-se e entrou na água atrás do peixe, encontrando-o vivo. "Percebendo que aquele era o "poço da Água da Vida", banhou-se e bebeu. Ao sair do poço, não sentia mais fome nem preocupações mundanas, pois se tomara o El-Khidr, "o sempre verde" - aquele que seria eternamente jovem.

Ao voltar para o acampamento, Matun não contou nada sobre sua descoberta a Alexandre (a quem a versão etíope chama de "Aquele de Dois Chifres"). Logo em seguida o rei retomou a busca, tateando na escuridão à procura da trilha certa. De repente avistou a pedra abandonada por Matun "brilhando nas trevas e ela agora tinha dois olhos, que lançavam raios de luz". Percebendo que encontrara o caminho, Alexandre avançou correndo, mas foi contido por uma voz que o censurou pelas suas sempre crescentes ambições e profetizou que em vez de encontrar a vida eterna ele logo morreria. Aterrorizado, Alexandre voltou para junto de seus companheiros, desistindo da busca.

Segundo algumas versões, foi um pássaro com feições humanas que falou com Alexandre e o fez retornar quando "ele chegou a um lugar cravejado de safiras, esmeraldas e jacintos". Na suposta carta do rei a sua mãe, foram dois homens-pássaros que o impediram de prosseguir.

Na versão grega do pseudo-Calístenes, foi André, o cozinheiro de Alexandre, que pegou o peixe seco para lavá-lo numa fonte "cujas águas relampejavam". Quando o peixe tocou na água, reviveu e escapou das mãos do cozinheiro. Percebendo o que encontrara, o homem bebeu a água e depois guardou um pouco numa tigela de prata, mas não contou a ninguém sobre sua descoberta. Quando Alexandre (que nesta versão estava acompanhado de 360 homens), prosseguindo sua busca, chegou a um lugar que brilhava, embora lá não se visse sol, nem a lua e as estrelas, encontrou o caminho bloqueado por dois pássaros com feições humanas.

"Volte", ordenou um deles, "porque o lugar em que estás pisando pertence somente a Deus. Volte, maldito, pois na Terra dos Abençoados tu não podes pôr os pés!" Estremecendo de medo, Alexandre e seus homens recuaram, mas, antes de deixarem o local, pegaram um pouco de terra e pedras no chão como lembrança. Depois de vários dias de marcha saíram do país da noite eterna e, ao chegarem à luz, viram que o "o solo e as pedras" que tinham apanhado eram na realidade pérolas, pedras preciosas e pepitas de ouro.

Só então o cozinheiro contou a Alexandre sobre o peixe que ressuscitara, mas guardou segredo sobre ter bebido e guardado a água. O rei ficou furioso, agrediu o homem e o expulsou do acampamento. O cozinheiro, porém, recusou-se a partir sozinho, pois se apaixonara por uma filha de Alexandre. Assim, revelou o segredo a ela e a fez beber a água. Quando Alexandre descobriu o acontecido, também baniu a jovem: "Tu te transformaste num ser divino, pois te tornaste imortal. Portanto, não podes mais viver entre os homens. Vá para a Terra dos Abençoados". Quanto ao cozinheiro, o rei atirou-o ao mar com uma pedra presa no pescoço. Mas, em vez de se afogar, o cozinheiro transformou-se em Andrêntico, o demônio do mar.

"E assim", somos informados, "termina o conto do cozinheiro e a donzela.”
Para os eruditos conselheiros dos reis e rainhas medievais, a simples existência de inúmeras versões sobre a mesma história servia para confirmar tanto a antiguidade como a autenticidade da lenda de Alexandre e da fonte da vida. Mas onde, onde ficavam essas águas mágicas?

Depois da fronteira do Egito, na península do Sinai, a arena das atividades de Moisés? Ou perto da região onde nascem o Tigre e o Eufrates, em algum lugar ao norte da Síria? Teria Alexandre ido aos Confins da Terra - a Índia - para procurar a fonte ou só se lançara em sua busca depois de voltar de lá?

Enquanto os estudiosos medievais esforçavam-se para decifrar os enigmas, novas obras sobre o tema, com base em fontes cristãs, começaram a moldar um consenso em favor da Índia. Um texto em latim chamado Alexander Magni Inter ad Paradisum, uma homilia de Alexandre escrita em siríaco pelo bispo Jacó de Sarug, e a Recension of Josippon, em armênio - todos com o relato sobre o túnel, os homens-pássaros e a pedra mágica -, situavam o País das Trevas ou Montanha das Trevas nos Confins da Terra. Lá, diziam alguns desses escritos, Alexandre navegou pelo rio Ganges, que não era outro senão o rio Fison, do paraíso. Ali mesmo na Índia (ou numa ilha de seu litoral), o rei alcançara os portões do paraíso.

Enquanto essas conclusões tomavam forma na Europa na Idade Média, uma nova luz foi lançada sobre o assunto, vinda de uma fonte totalmente inesperada. Em 1145, o bispo alemão Otto de Freising registrou em seu Chronicon um relato sobre uma impressionante epístola. O papa, contou, recebera uma carta de um governante cristão da Índia, cuja existência era completamente desconhecida. Esse rei afirmava que o rio do paraíso ficava localizado em seus domínios.

O bispo Otto dava o nome do bispo Hugo de Gebal (uma cidade da costa mediterrânea da Síria) como tendo sido o intermediário que levara a carta ao papa. O autor da epístola, segundo se dizia, chamava-se João, o velho, ou, por ser um sacerdote da Igreja Católica, Preste João. Ele afirmava ser descendente direto de um dos magos que haviam visitado Cristo no seu nascimento. Preste João derrotara os reis muçulmanos da Pérsia e estabelecera um florescente reino cristão na região dos Confins da Terra.

Atualmente alguns estudiosos pensam que todo esse caso foi forjado com objetivos propagandísticos. Outros crêem que os relatórios que chegaram ao papa eram distorções de eventos que realmente estavam acontecendo. Cinqüenta anos antes o mundo cristão lançara a Primeira Cruzada contra o domínio muçulmano no Oriente Médio (inclusive a Terra Santa) e havia pouco, em 1.144, sofrera uma derrota esmagadora na cidade de Edessa. Enquanto isso, nos Confins da Terra, os governantes mongóis tinham começado a sacudir os portões do império muçulmano e haviam derrotado o sultão Sanjar em 1.141. Quando a notícia chegou às cidades costeiras do Mediterrâneo, foi enviada ao papa sob a roupagem de um rei cristão erguendo-se para derrotar os infiéis pela retaguarda.

Se a busca pela Fonte da Juventude não estava entre os motivos para a Primeira Cruzada (1.095), aparentemente fazia parte das subseqüentes, pois logo que o bispo Otto registrou a existência de Preste João e do rio do paraíso em seus domínios, o papa emitiu uma conclamação formal para o reinício das cruzadas. Dois anos depois, em 1.147, o imperador Conrado da Alemanha, acompanhado de muitos outros nobres e governantes, partiu para a Segunda Cruzada.

Enquanto a sorte dos cruzados alternadamente brilhava e se esvanecia, a Europa foi de novo varrida por notícias de Preste João e suas promessas de auxílio. Segundo os cronistas da época, em 1.165 ele enviou uma carta ao imperador de Bizâncio, ao imperador romano e a reis menores, onde declarava sua nítida intenção de ir à Terra Santa com seus exércitos. Mais uma vez ele descrevia seu reino em termos entusiásticos, como convinha a um lugar onde estava situado não apenas o rio do paraíso, mas também os portões do paraíso.

A ajuda prometida jamais chegou. O caminho da Europa para a Índia não foi aberto. Por volta do final do século XIII, as cruzadas haviam deixado de existir, terminando numa derrota final nas mãos dos muçulmanos.

Todavia, mesmo enquanto as cruzadas avançavam e recuavam, a crença fervorosa na existência das águas do paraíso na Índia continuava a crescer e a se disseminar.

Antes do final do século XII, uma nova e popular versão das façanhas de Alexandre, o Grande, começou a espalhar-se nos acampamentos e praças de cidades. Chamada de Romance de Alexandre, era (como se sabe atualmente) obra de dois franceses que basearam esse poético e entusiasmado relato na versão latina do pseudo-­Calístenes e outras "biografias" do rei da Macedônia disponíveis na época. O que menos interessava aos cavaleiros, soldados e cidadãos que freqüentavam as tabernas era a autoria do texto. O importante era que ele criava, numa linguagem que conseguiam entender, imagens vivas das aventuras de Alexandre em terras estranhas.

Entre elas estava o conto das três fontes maravilhosas. Uma rejuvenescia os velhos, a segunda garantia a imortalidade e a terceira ressuscitava os mortos. As três, explicava o Romance, ficavam localizadas em países diferentes, já que procediam do Tigre e Eufrates, na Ásia oriental, do Nilo, no Egito, e do Ganges, na Índia. Eram esses os quatro rios do paraíso. E, apesar de eles correrem em diferentes regiões, todos provinham de uma única fonte: o Jardim do Éden, exatamente como dizia a Bíblia.

O Romance afirmava que Alexandre e seus homens tinham encontrado a fonte do rejuvenescimento e garantia que 56 companheiros idosos do rei "recuperaram a cútis dos 30 (anos) depois de beberem da Fonte da Juventude". À medida que se disseminavam as traduções do Romance, esse evento era descrito cada vez com maiores detalhes. Não apenas a aparência, como também a força e virilidade dos velhos soldados tinham sido restauradas.

Mas, como chegar à fonte, se a rota para a Índia estava bloqueada pelos muçulmanos pagãos?

De tempos em tempos os papas procuravam se comunicar com o enigmático Preste João, "O ilustre e magnífico rei das Índias e filho amado de Cristo". Em 1.245, Inocêncio IV despachou o frei Giovanni da Pian del Carpini via Rússia meridional, com ordens de entrar em contato com o rei mongol, o khan, acreditando que os mongóis eram nestorianos (um ramo da igreja ortodoxa) e o khan o próprio Preste João. Em 1.254, o rei-padre Haithon, da Armênia, viajou incógnito pelo leste da Turquia até alcançar o acampamento de um chefe mongol no sul da Rússia. Os registros dessa viagem cheia de aventuras diziam que a rota o levara a uma passagem estreita às margens do mar Cáspio, chamada de Os Portões de Ferro. A especulação de que esse caminho era muito parecido com o percorrido por Alexandre, o Grande (que derramara ferro derretido para fechar um desfiladeiro), serviu para alimentar a idéia de que os portões do paraíso, nos Confins da Terra, podiam ser alcançados.

Aos emissários de papas e reis, que procuravam o reino de Preste João, logo se juntaram comerciantes aventureiros, como Nicolo e Matteo (Maffeo) Pólo, e posteriormente o filho do primeiro, Marco Pólo (1.260-1.295) e cavaleiros como o alemão Guilherme de Bondensele (1.336).

Enquanto esses relatos atraíam o interesse da Igreja e das cortes européias, coube mais uma vez a uma obra de literatura popular despertar o entusiasmo das massas. Seu autor apresentava-se como: "Eu, John Maundeville, Cavaleiro, nascido na cidade de St. Albans, na Inglaterra, que me fiz ao mar no ano de Nosso Senhor Jesus de 1.322". Escrevendo ao regressar de suas viagens 34 anos depois, Sir John explicava que "dirigi-me para a Terra Santa e Jerusalém, e também para a terra do Grande Khan e do Preste João, para a Índia e diversos outros países, bem como para as muitas e estranhas maravilhas que lá existem".

No Capítulo 27 do livro The Voyages and Travels of Sir John Maundeville, Knight (As Navegações e Viagens de Sir John Maundeville, Cavaleiro), está escrito:


Esse imperador, Preste João, possui um território muito extenso e tem muitas boas e nobres cidades em seus domínios, e muitas grandes ilhas, pois todo o país da Índia é dividido em ilhas por causa das grandes enchentes que vêm do paraíso... E essa terra é muito boa e rica... Nas terras do Preste João existem coisas muito variadas e muitas pedras preciosas, tão enormes que os homens delas fazem travessas, pratos, xícaras etc...
Em seguida, sir John descreve o rio do paraíso:
Nesse país o mar é chamado de mar de Gravelly... a três dias de distância dele ficam grandes montanhas, das quais procede um grande rio que vem do paraíso, e ele é de pedras preciosas, sem nenhum pingo de água. Ele corre pelo deserto e vai formar o mar de Gravelly quando atinge seu ponto final.
Mais além do rio do paraíso, havia uma grande ilha, larga e comprida, chamada Milsterak, que era um paraíso na Terra. Lá ficava "o mais belo jardim que se pode imaginar; dentro dele há árvores dando todos os tipos de frutos, toda espécie de ervas virtuosas e perfumadas". Esse paraíso, afirma sir John, possuía maravilhosos pavilhões e câmaras, obras de um homem rico e demoníaco, cujo propósito era oferecer "os mais variados prazeres sexuais".

Depois de atiçar a imaginação (e cobiça) de seus leitores com relatos sobre pedras preciosas e outras riquezas, o autor passa a brincar com seus desejos sexuais. O lugar, escreve, estava repleto "das mais graciosas donzelas abaixo de 15 anos que se pode encontrar e rapazes dessa mesma idade, todos ricamente vestidos com roupas bordadas a ouro. O homem me disse que eles eram anjos". E esse homem demoníaco...


Ele também mandou construir três belos e nobres poços, cercados de pedras de jaspe e cristal, lavrados com ouro e cravejados de pedras preciosas e grandes pérolas do Oriente. Fez instalar um cano sob a terra, de modo que os três poços, a sua vontade, podem verter um deles leite, o outro vinho e o outro, ainda, mel. Esse lugar ele chamou de paraíso.
Esse proprietário empreendedor atraía para sua ilha "bons cavaleiros, robustos e nobres" e, depois de hospedá-los, os persuadia a matar os inimigos de seu reino, dizendo-lhes que não deveriam temer a morte pois, se perecessem, seriam ressuscitados e rejuvenescidos.
Depois da morte eles voltariam a esse paraíso, passariam a ter a idade das donzelas e poderiam brincar com elas. Posteriormente seriam mandados para um paraíso ainda mais belo, onde veriam o deus da natureza face a face, em toda sua majestade e bem-aventurança.
Todavia, explica John Maundeville, esse ainda não era o verdadeiro paraíso da Bíblia. No Capítulo 30, ele afirma que este ficava muito além das terras que Alexandre, o Grande, tinha percorrido. A rota para alcançá-lo seguia rumo leste, na direção de duas ilhas ricas em minas de ouro e prata, "onde o mar Vermelho se separa do oceano".
E além dessas ilhas e terras, e dos desertos do reino do Preste João, indo direto para o leste, os homens não encontram nada senão montanhas e grandes rochas; e lá fica a região das trevas, onde ninguém consegue enxergar, nem de dia nem de noite... E esse deserto e esse lugar de escuridão vão da costa até o paraíso terrestre onde Adão, nosso primeiro pai, e Eva foram colocados.
Era dali que fluíam as águas do paraíso:
E no ponto mais alto do paraíso, exatamente no meio dele, há um poço do qual saem quatro rios que atravessam diversas regiões, dos quais um é o Fison ou Emtak, ou Ganges, que corre através da Índia e possui muitas pedras preciosas, muito alume e muita areia de ouro.

E o outro rio é o chamado Nilo, ou Geon, que corre pela Etiópia e depois pelo Egito.

E o outro é chamado Tigre, e corre pela Assíria e pela Armênia, a Grande.

E o outro é chamado Eufrates e corre pela Média, Armênia e Pérsia.


Confessando que ele mesmo não atingiu o Jardim do Éden bíblico, sir John Maundeville esclarece: "Nenhum mortal pode se aproximar desse local sem uma graça especial de Deus; por isso, desse lugar não posso falar mais".

Apesar dessa confissão, as muitas versões em muitas línguas que derivaram do original inglês garantiam que o Cavaleiro afirmou: "Eu, John Maundeville, vi a fonte e, por três vezes, junto com meu companheiro, bebi de suas águas e desde então me sinto muito bem!”

O fato de o autor, na versão inglesa, queixar-se de que estava com gota reumática e aproximando-se do fim de seus dias não fez diferença para os que se encantaram com seus relatos maravilhosos.

Atualmente os estudiosos da época acreditam que "sir John Maundeville, Cavaleiro" pode ter sido um médico francês que jamais viajou, mas soube juntar com grande habilidade os relatos de aventureiros que não hesitaram em se arriscar, enfrentando os perigos e desconfortos de viagens para locais tão distantes.

Escrevendo sobre as visões que motivaram a exploração que levou à descoberta da América, Angel Rosenblat (La Primera Visión de América y Otros Estudios; A Primeira Visão da América e Outros Estudos) resumiu: "A crença num paraíso terrestre estava associada a um desejo de natureza messiânica: encontrar a Fonte da Eterna Juventude. Toda a Idade Média sonhou com ela. Nas novas imagens do paraíso perdido, a Árvore da Vida transformara-se na fonte da vida e depois num rio ou Fonte da Juventude". A motivação era a certeza de que "a Fonte da Juventude ficava na Índia... uma fonte que curava todos os males e garantia a imortalidade. O fantástico John Maundeville a encontrara em sua viagem à Índia... no reino cristão do Preste João". Chegar à Índia e às águas que procediam do paraíso tornou-se um "símbolo do desejo humano por prazer, juventude e felicidade".

Com as rotas terrestres fechadas pelos muçulmanos, os reis cristãos da Europa começaram a procurar uma rota marítima para a Índia. Nos meados do século XV, o reino de Portugal, sob Henrique, o Navegador, destacou-se como a principal potência na corrida para se atingir o Oriente navegando em torno da África. Em 1445, o navegador português Dinis Dias chegou à foz do rio Senegal e, atento ao propósito da viagem, escreveu: "Dizem que ele vem do Nilo, sendo um dos mais gloriosos rios da Terra, pois procede do Jardim do Éden e do paraíso terrestre". Outros exploradores se seguiram a ele, avançando cada vez mais na direção do cabo ao sul do Continente Negro. Finalmente, em 1499, Vasco da Gama e sua frota deram a volta em torno da África e atingiram a meta tão desejada: a Índia.

No entanto, os portugueses, que haviam começado a Era do Descobrimento, não conseguiram vencer a corrida. Estudando diligentemente os mapas antigos e todos os relatos dos que tinham se aventurado ao Oriente, um navegador italiano, Cristóvão Colombo, concluiu que, partindo para o oeste, ele conseguiria alcançar a Índia por uma rota muito mais curta do que a procurada pelos portugueses. Em busca de um patrocinador, Colombo chegou à corte de Fernando e Isabel trazendo consigo uma versão comentada do livro de Marco Pólo (que também levou em sua primeira viagem). Para defender suas idéias, apontou até mesmo os textos de John Maundeville, que um século e meio antes explicara que, indo-se ao Oriente mais longínquo, chega-se ao Ocidente" devido à esfericidade da Terra... pois Nosso Senhor fez a Terra redonda".

Em janeiro de 1492, Fernando e Isabel derrotaram os muçulmanos e os expulsaram da península Ibérica. Não seria aquilo um sinal divino, indicando que onde os cruzados tinham malogrado a Espanha conseguiria êxito? Em 3 de agosto do mesmo ano, Colombo zarpou sob a bandeira espanhola com o objetivo de encontrar uma rota marítima ocidental para a Índia. Em 12 de outubro, avistou terra. Até sua morte, em 1506, Colombo continuava certo de que descobrira as ilhas que constituíam grande parte do lendário reino de Preste João.

Vinte anos depois, o rei Fernando concedeu a Ponce de León a patente de descobrimento, instruindo-o a encontrar sem demora as águas rejuvenescedoras.

Os espanhóis pensavam que estavam imitando Alexandre, o Grande. Mal sabiam que seguiam os passos de uma antiguidade muito maior.

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