Zecharia Sitchin a escada para o céu o caminho percorrido pelos Povos Antigos para atingir a Imortalidade



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A VIAGEM DO FARAÓ PARA A OUTRA VIDA
As lendas sobre as aventuras de Alexandre e sua busca pela vida eterna que se disseminaram pela Europa da Idade Média continham elementos claramente extraídos dos relatos sobre os antepassados imortais, como cavernas, anjos, fogo subterrâneo, cavalos e carruagens de fogo. Todavia, antes da era cristã, a crença generalizada (também de Alexandre, seus historiadores ou ambos) era que quem desejava atingir a imortalidade precisaria imitar os faraós egípcios.

Foi devido a essa crença que a alegada semi-divindade de Alexandre teve de ser atribuída a um complicado envolvimento com uma deidade egípcia em vez de ele simplesmente alegar uma afinidade qualquer com um deus de sua região. É um fato histórico, não mera lenda, que o rei da Macedônia achou necessário, assim que rompeu as fileiras persas na Ásia Menor, seguir para o Egito - e não perseguir o inimigo -, onde procuraria a confirmação de suas supostas "raízes egípcias", podendo então começar sua busca pela Água da Vida.

Enquanto os hebreus, gregos e outros povos da Antiguidade contavam lendas sobre alguns poucos homens que escaparam do destino dos mortais por terem recebido um convite divino, os antigos egípcios transformaram esse privilégio num direito. E não era um direito universal, nem algo reservado aos excepcionalmente virtuosos, mas um direito restrito ao soberano egípcio pelo simples fato de ele ocupar o trono. O motivo, segundo as tradições do Egito Antigo, era que os primeiros reis daquela terra não tinham sido homens, mas deuses.

Essas tradições egípcias afirmavam que em épocas imemoriais os "Deuses do Céu" chegaram à Terra, vindos do Disco Celestial. Quando o Egito sofreu uma grande inundação, "um grande deus que veio (à Terra) no mais antigo dos tempos" chegou ao país e literalmente ergueu-o de sob as águas e lama, representando o Nilo e fazendo extensas obras de drenagem e contenção. (Era por isso que o Egito tinha o nome de "Terra Elevada".) Esse antigo deus chamava-se Ptah - "O Construtor". Contava-se que ele era um grande cientista, mestre engenheiro e arquiteto, o Principal Artífice dos deuses, que até contribuíra para a criação e formação do homem. Seu cajado freqüentemente era mostrado sob a forma de uma vara graduada, bem parecida com a usada pelos agrônomos modernos na medição de terras .

Segundo as tradições, Ptah retirou-se para o sul, onde pôde controlar as águas do Nilo por intermédio das comportas que instalara numa caverna secreta localizada na primeira catarata do rio (o local da atual represa de Assuã). Todavia, antes de deixar o Egito, Ptah construiu sua primeira cidade sagrada e deu-lhe o nome de An, em honra ao Deus do Céu (a bíblica On, que os gregos chamavam de Heliópolis). Ali instalou como primeiro governante divino do país seu próprio filho, Ra (assim chamado em honra do globo celeste).

Ra, um grande "Deus do Céu e da Terra", mandou construir um santuário especial em An para abrigar o Ben-ben - o "objeto secreto" que transportara à Terra.

Com o passar do tempo, Ra acabou dividindo o reino entre seus dois filhos, Osíris e Set, mas o governo conjunto dos irmãos não deu certo. Set estava sempre tentando derrubar e matar Osíris. Depois de muitas marchas e contramarchas, Set finalmente conseguiu enganar Osíris fazendo-o entrar num ataúde, que logo mandou vedar e afundar. Ísis, irmã e esposa de Osíris, conseguiu encontrar o ataúde, que flutuara, indo chegar às praias do atual Líbano. Esta escondeu o corpo do marido e partiu para pedir ajuda aos outros deuses que poderiam ressuscitar Osíris. Set, porém, descobriu o corpo e cortou-o em pedaços, dispersando-­os pelos quatro cantos da Terra. Auxiliada por sua irmã, Néftis, Ísis conseguiu reunir todos os pedaços (exceto o falo) e, recompondo o corpo mutilado do marido, devolveu-o à vida.

Osíris, ressuscitado, foi viver no Outro Mundo, entre os outros deuses celestiais. Dele as sagradas escrituras egípcias falam:


Ele adentrou os Portões Secretos,

A glória dos Senhores da Eternidade,

Ao lado daquele que brilha no horizonte,

No caminho de Ra.


O lugar de Osíris no trono do Egito foi assumido por seu filho, Hórus. Quando ele nasceu, sua mãe, Ísis, o escondeu entre os juncos do Nilo (exatamente como, segundo a Bíblia, fez a mãe de Moisés) para mantê-lo fora do alcance de Set. O menino, porém, foi picado por um escorpião e morreu. Sem perder tempo, Ísis apelou a Thot, um deus com poderes mágicos, que acorreu em seu socorro. Thot, que estava nos céus, veio à Terra no "Barco dos Anos Astronômicos", de Ra, e ajudou-a a trazer Hórus de volta à vida.

Ao crescer, Hórus desafiou Set pelo trono. A luta estendeu-se por vários territórios, os deuses perseguindo-se pelos céus. Hórus atacou Set de um Nar, termo que no antigo Oriente Médio significava "Pilar Flamejante". As ilustrações do Período Pré-Dinástico do Egito mostram esse carro celestial como um longo objeto cilíndrico com uma cauda parecida com um funil e uma ponta rombuda, da qual saem raios, um tipo de submarino celestial. Na parte dianteira, o Nar tinha dois faróis, ou "olhos", que, de acordo com as lendas egípcias, mudavam de cor, passando do azul para o vermelho.

Houve marchas e contramarchas nas lutas, que duraram vários dias. Do Nar, Hórus disparou um "arpão" especialmente projetado contra Set. Este ficou ferido, perdendo os testículos, o que só serviu para deixá-lo ainda mais furioso. Na batalha final, sobre a península do Sinai, Set disparou um raio de fogo em Hórus e este perdeu um "olho". Os grandes deuses solicitaram uma trégua e reuniram-se em conselho. Depois de muita vacilação e indecisão, o Senhor da Terra decidiu-se em favor de Hórus e concedeu-lhe o Egito, declarando-o legítimo herdeiro da linha de sucessão Ra-Osíris. Depois disso, Hórus passou a ser representado com os atributos do falcão, enquanto Set era mostrado como uma deidade asiática, simbolizado pelo jumento, o animal de carga dos nômades.

A ascensão de Hórus ao trono unido das Duas Terras (Alto e Baixo Egito) manteve-se, ao longo de toda a história egípcia, como o ponto onde a realeza recebeu sua perpétua conexão divina, pois todo Faraó era considerado sucessor de Hórus e ocupante do trono de Osíris.

Por motivos inexplicados, o governo de Hórus foi seguido de um período de caos e declínio. Não se sabe quanto tempo ele durou. Finalmente, por volta de 3.200 a.C., uma "raça dinástica" chegou à região e um homem chamado Menés ascendeu ao trono de um Egito reunificado. Foi então que os deuses concederam ao país a civilização e aquilo que hoje chamamos de religião. O reinado iniciado por Menés continuou por 26 gerações de Faraós até a dominação persa em 525 a.C. e depois atravessou os períodos grego e romano (quando reinou Cleópatra).

Quando Menés, o primeiro faraó, estabeleceu o reino unido, escolheu um ponto médio do Nilo, um pouco ao sul de Heliópolis, para nele instalar a capital dos dois Egitos. Imitando as obras de Ptah, mandou fazer um aterro elevando-se acima das águas do Nilo e nele construiu Mênfis, dedicando seus templos a Ptah. Mênfis perdurou como centro político-religioso do país por mais de mil anos.

A cerca de 2.200 a.C., houve grandes conturbações no Egito, cuja natureza não está clara para os estudiosos. Alguns acham que invasores asiáticos dominaram o país, escravizando o povo e acabando com a adoração dos deuses. Seja o que tenha restado de um simulacro de independência, ele foi mantido no Alto Egito - as regiões menos acessíveis ao sul. Quando a ordem foi restaurada, cerca de 150 anos depois, o poder político-religioso - atributo da realeza ­emanava de Tebas, uma antiga mas não tão imponente cidade do Alto Egito, às margens do Nilo.

O deus de Tebas era chamado Amen - "O Oculto" -, o Amon que Alexandre considerava seu divino pai. Como deidade suprema, ele era adorado como Amen-Ra, "O Ra Oculto", e não está bem claro se era o mesmo antigo Ra, agora de alguma forma invisível ou "oculto", ou uma outra divindade qualquer.

Os gregos chamavam Tebas de Dióspolis, "A Cidade de Zeus", pois igualavam Amon ao supremo deus do Olimpo, fato que tornou mais fácil para Alexandre ligar-se a Amon. Foi para Tebas que ele apressou-se a ir depois de receber a confirmação do oráculo no oásis de Siwa.

Em Tebas e suas redondezas (agora conhecidas como Karnar, Luxor e Deir-el-Bahari), Alexandre encontrou os santuários e templos dedicados a Amon, que continuam impressionantes nos dias de hoje, apesar de estarem em ruínas. Em sua maioria, esses monumentos foram construídos pelos faraós da 12ª. Dinastia, um dos quais provavelmente era "Sesonchusis", que procurara pela Água da Vida 1.500 anos antes do rei da Macedônia. Um dos templos colossais foi erigido pela rainha Hatshepsut, que também tinha a fama de ser filha do deus Amon.

Essas alegações de parentesco divino não eram incomuns. A reivindicação do faraó ao estado de divindade, baseado no simples fato de ocupar o trono de Osíris, às vezes era ampliada por alegações que o governante era filho ou irmão deste ou daquele deus ou deusa. Os estudiosos consideram que essas afirmações só têm significado simbólico, mas alguns faraós, como três reis da 5ª. Dinastia garantiam que eram fisicamente filhos de Ra, por ele gerados através da fecundação da esposa do alto sacerdote de seu templo.

Outros reis atribuíam sua descendência de Ra a meios mais sofisticados. Dizia-se que o deus incorporava-se no faraó reinante e, através desse subterfúgio, podia ter relações sexuais com a rainha. Assim, o herdeiro do trono podia afirmar ser descendente direto de Ra. Mas, além dessas pretensões específicas de uma origem divina, todos os faraós eram teologicamente considerados a encarnação de Hórus e assim, por extensão, filhos de Osíris. Em conseqüência, o faraó tinha direito à vida eterna exatamente da maneira experimentada por Osíris: ressurreição após a morte, uma Outra Vida.

Era a esse círculo de deuses e faraós semi-divinos que Alexandre ansiava se juntar.

A crença era de que Ra e os outros imortais conseguiam viver para sempre porque estavam sempre se rejuvenescendo. Assim, os faraós recebiam nomes significando, por exemplo, "Aquele que Repete Nascimentos" ou "Repetidor de Nascimentos". Os deuses rejuvenesciam ingerindo comida e bebida divinas em seu domicílio. Portanto, para o rei conseguir uma Outra Vida, desta vez eterna, precisaria se juntar aos deuses em sua morada, para também alimentar-se do divino sustento.

Os antigos encantamentos apelavam aos deuses para compartilharem com o faraó sua comida divina: "Levem este rei convosco para que ele possa comer o que comeis, beber o que bebeis, viver onde viveis". E, mais especificamente, como escrito na pirâmide do faraó Pepi:
Dai sustento a este rei Pepi

De vosso eterno sustento,

Vossa eterna bebida.
O falecido faraó esperava encontrar esse sustento no reino celestial de Ra, na "Estrela Imorredoura". Lá, num mítico "Campo das Oferendas" ou "Campo da Vida", crescia a "Planta da Vida". Um texto da pirâmide de Pepi I o descreve passando por guardas com a aparência de "pássaros emplumados", para ser recebido pelos emissários de Hórus. Com eles:
Ele viajou para o Grande Lago,

Junto ao qual descem os Grandes Deuses.

Os Grandes da Estrela Imorredoura

Dão a Pepi a Planta da Vida

Da qual eles vivem,

Para que ele também possa viver.


As representações egípcias mostram o falecido (às vezes com sua esposa) nesse paraíso celestial, bebendo a Água da Vida, da qual nasce a Planta da Vida, sob a forma de tamareira, com seus frutos doadores de vida.

O destino celestial do rei morto era o local de nascimento de Ra, ao qual este voltara depois de sua morte na Terra. Lá o próprio deus era sempre rejuvenescido ou "acordado de novo" porque periodicamente a Deusa dos Quatro Jarros lhe servia um certo elixir. Assim, a esperança do faraó era ser servido do mesmo elixir pela deusa, para "com ele refrescar seu coração para a vida". Quanto a Osíris, ele se rejuvenescia banhando-se na Água da Juventude. Por isso, foi prometido a Pepi I que Hórus "contará para ti uma segunda estação de juventude" e "renovará tua juventude nas águas que têm o nome de Água da Vida".

Depois de ganhar uma nova vida e até ficar rejuvenescido, o faraó levaria uma existência paradisíaca: "Sua provisão é entre os deuses: sua água é vinho, como a de Ra. Quando Ra come, dá a ele; quando Ra bebe, dá a ele". E, com um toque de psicoterapia do século XX, o texto acrescenta: "Ele dorme profundamente todos os dias... passa melhor hoje do que ontem".

O faraó parecia pouco preocupado com o paradoxo de que primeiro teria de morrer para então conseguir a imortalidade. Como surpresa governante das Duas Terras do Egito, ele gozava da melhor vida possível na Terra. Mesmo assim, a ressurreição entre os deuses era uma perspectiva muito atraente. Além disso, somente seu corpo físico seria embalsamado e emparedado, pois os egípcios acreditavam que cada pessoa possuía um Ba, algo semelhante ao que chamamos de "alma", que, como um pássaro, subia aos céus depois da morte, e também um Ka - em geral traduzido por Duplo, Espírito Ancestral, Essência ou Personalidade -, e era sob essas formas que o faraó via-se trasladado para a Outra Vida. Samuel Mercer, em sua introdução para os Textos das Pirâmides, concluiu que Ka significava a personificação mortal de um deus. Em outras palavras, o conceito sugeria a existência de um elemento divino no homem, um duplo celestial ou divino que podia retomar a vida no outro mudo.

Mas, se uma outra vida era possível, não era nada fácil obtê-la. O falecido rei tinha de viajar por uma longa e desafiadora estrada, e submeter-se a longas e elaboradas cerimônias antes de se pôr a caminho.

A deificação do faraó começava com sua purificação e incluía o embalsamento (mumificação) para ele ficar parecido com Osíris, com todos os membros amarrados por ataduras. O corpo embalsamado então era levado numa procissão fúnebre até uma edificação encimada por uma pirâmide, diante da qual havia um pilar oval.

Dentro desse templo funerário, sacerdotes conduziam rituais visando a aceitação do faraó pelos deuses no final da viagem. O rito, chamado nos textos fúnebres egípcios de "Abertura da Boca", era supervisionado por um sacerdote Shem - sempre mostrado vestindo uma pele de leopardo. Os estudiosos acreditam que o ritual era literalmente o que diz seu nome: o sacerdote, usando uma ferramenta curva de cobre ou ferro, abria a boca da múmia ou de uma estátua representando o faraó. No entanto, está claro que o ritual era primariamente simbólico, com o objetivo de abrir para o morto a "boca" ou entrada dos céus.

A essa altura. a múmia estava envolta em muitas camadas de ataduras de linho e coberta pela máscara fúnebre de ouro. Assim, tocar sua boca (ou da estátua) só podia ser um ato simbólico. De fato, o sacerdote não se dirigia ao falecido, mas aos deuses, pedindo-lhes para "abrirem a boca" para o faraó poder ascender à vida eterna. Eram feitos também apelos especiais ao "Olho" de Hórus, perdido na batalha com Set, para ele providenciar a "Abertura da Boca", de modo que fosse aberto "um caminho para o rei entre os Luminosos, para que ele possa se estabelecer entre eles".

A tumba terrestre do faraó (e assim, por conjetura, apenas temporária) - segundo os textos e descobertas arqueológicas - tinha uma porta falsa em seu lado leste, ou seja, a argamassa era assentada de modo a dar impressão da existência de uma porta, mas ali, na verdade, havia uma parede sólida. Purificado, com os membros amarrados e a "boca" aberta, o faraó então era visualizado levantando-se, sacudindo a poeira da Terra e saindo pela porta falsa. Segundo um relato nos Textos das Pirâmides que descreve o processo de ressurreição passo a passo, o faraó não podia atravessar a parede sozinho. "Tu estás diante da porta que contém as pessoas até ele, que é o chefe do departamento" - um mensageiro divino encarregado dessa tarefa -, "vir ao teu encontro. Ele segura-te pelo braço e te leva para o céu, para o teu pai.”

Assim, auxiliado por um mensageiro divino, o faraó saía da tumba lacrada pela porta falsa. E os sacerdotes cantavam: "O rei está a caminho do céu! O rei está a caminho do céu!”


O rei está a caminho do céu

O rei está a caminho do céu

No vento, no vento.

Ele não é impedido;

Não há ninguém para contê-lo.

O rei está só, filho dos deuses.

Seu pão virá do alto, com Ra.

Sua oferenda sairá dos céus.

O rei é aquele "Que Volta de Novo".
Porém, antes de o faraó subir ao céu para comer e beber com os deuses, precisava empreender uma árdua e perigosa viagem. Sua meta era um país chamado Neter-Khert, "A Terra dos Deuses da Montanha". Esse local às vezes era pictoricamente escrito em hieróglifos colocando-se o símbolo para Deus (Neter) sobre uma balsa, pois, de fato, para atingir essa terra o faraó tinha de atravessar um longo e tortuoso lago de Juncos. A área pantanosa seria vencida com a ajuda de um Barqueiro Divino. Todavia, antes de transportar o morto, ele o interpelava sobre suas origens: O que o fazia pensar que tinha o direito de atravessar o lago? Seria mesmo filho de um deus ou deusa?

Depois do lago, de um deserto e uma cadeia de montanhas, passando por deuses guardiães, o rei chegava ao Duat, a mágica "Morada para Subir às Estrelas", cuja localização e nome vêm confundindo os estudiosos há muito tempo. Alguns pensam que se tratava do Outro Mundo, a Morada dos Espíritos, para o qual o rei, tal como Osíris, deveria ir. Outros afirmam que ele era um Mundo Subterrâneo e, de fato, muitas das cenas que o descrevem mostram um labirinto de túneis, cavernas com deuses que não podem ser vistos, poças de água fervente, luzes fantasmagóricas, câmaras guardadas por pássaros e portas que se abrem sozinhas. Essa terra mágica possuía doze divisões e era atravessada em doze horas.

O Duat sempre foi motivo de perplexidade para os eruditos porque, apesar de sua natureza terrestre (era atingido através de uma passagem nas montanhas) e características subterrâneas, em hieróglifos seu nome era escrito com a utilização de uma estrela ou falcão alçando vôo como símbolos determinativos ou simplesmente com uma estrela dentro de um círculo indicando uma associação celestial.
Por mais confusos que sejam, os Textos das Pirâmides, ao seguirem o progresso do faraó ao longo de sua vida, morte, ressurreição e translação para uma Outra Vida, consideravam como o maior problema humano a incapacidade de voar como os deuses. Um deles resume esse problema e sua solução em duas sentenças: "Os homens são enterrados, os deuses voam para o alto. Façam com que este rei voe para o céu (para ficar) entre seus irmãos, os deuses". Um texto da pirâmide do faraó Teti expressava a esperança do faraó e seus apelos aos deuses nas seguintes palavras:
Homens caem,

Eles não têm Nome.

Peguem vosso Teti pelos braços.

Levem o rei Teti para o céu,

Para ele não morrer na Terra entre os homens.
E, assim, cabia ao faraó percorrer os labirintos subterrâneos até conseguir encontrar um deus que carregava a Árvore da Vida e um que era o "Arauto do Céu". Eles abririam as portas secretas e o levariam até o Olho de Hórus, uma escada celestial pela qual entraria num objeto capaz de mudar de cor, passando de azul para vermelho quando "potencializado". Então, ele mesmo transformado no deus-falcão, subiria aos céus para sua Outra Vida na Estrela Imorredoura. Lá, o próprio Ra lhe daria as boas-vindas.
Os Portões do Céu estão abertos para ti;

As portas do Lugar Fresco estão abertas para ti.

Tu encontrarás Ra parado ali, esperando por ti.

Ele tomará tua mão,

Ele te levará para o Duplo Santuário do Céu;

Ele te colocará no trono de Osíris...

Tu ficarás em pé, amparado, equipado como um deus...

Entre os Eternos, na Estrela Imorredoura.


Muito do que atualmente se sabe sobre o tema veio dos Textos das Pirâmides - milhares de versos agrupados em centenas de Elocuções - que foram descobertos gravados ou pintados (na escrita hieroglífica do Egito Antigo) nas paredes, passagens e galerias das pirâmides de cinco faraós - Unas, Teti, Pepi I, Merenra e Pepi II - que reinaram entre 2.350 e 2.180 a.C. Esses textos foram organizados e numerados por Kurt Sethe em sua magnífica obra Die altaegyptischen Pyramidentexte, que até hoje permanece como a mais importante fonte de referência sobre o assunto, junto com sua contrapartida em inglês, The Pyramid Texts, de Samuel A. B. Mercer.

Os milhares de versos que compõem os Textos das Pirâmides parecem ser apenas uma coleção de invocações repetitivas, desliga­ das umas das outras, com súplicas aos deuses e exaltação dos reis. Para obter algum sentido de todo esse material, os eruditos elaboraram teorias sobre uma mudança de teologias no Egito Antigo, com um conflito e posteriormente uma fusão entre uma "religião solar" e uma "religião celeste", entre um culto de Ra e um de Osíris, e assim por diante, salientando que estamos lidando com material que se acumulou ao longo de milênios.

Para os estudiosos que encaram essa massa de versos como expressões de mitologias primitivas, fruto da imaginação de pessoas que estremeciam de pavor ao ouvirem o trovão ou vento rugindo e chamavam esses fenômenos naturais de "deuses", esse versos continuam tão confusos como sempre. Porém, há um ponto sobre o qual não existem dúvidas: todos concordam que esses textos foram extraídos pelos escribas da época de escrituras mais antigas e aparentemente bem organizadas, coerentes e inteligíveis.

Inscrições posteriores em sarcófagos e ataúdes, e também em papiros (estes, em geral, acompanhados de ilustrações), comprovam que os versos, Elocuções e Capítulos - com títulos como "Capítulo daqueles que ascendem" - foram copiados do "Livro dos Mortos", como" Aquele que está no Duat", "O Livro dos Portões" ou "O Livro dos Dois Caminhos". Os peritos acreditam que, por sua vez, esses "livros" eram versões de duas obras básicas anteriores: velhos escritos que tratavam da jornada celestial de Ra e uma fonte qualquer posterior a eles enfatizando a bem­-aventurança na Outra Vida para aqueles que se juntassem a Osíris ressuscitado. Ambas falavam de comida, bebida e prazeres na Morada Celestial. Versos dessas antigas obras costumavam também ser gravados em talismãs para propiciarem ao usuário "união com mulheres noite e dia" ou "desejo de mulheres" o tempo todo.

As teorias acadêmicas, contudo, deixam sem explicação os aspectos mais intrigantes das informações oferecidas por esses textos. O Olho de Hórus, por exemplo, era um objeto que existia independentemente do deus, sendo algo em cujo interior o faraó podia entrar e que mudava de cores, indo do azul para o vermelho, quando era "potencializado". Há também balsas auto-propelidas, portas que se abrem sozinhas, deuses de rostos brilhantes que não podem ser vistos. No Mundo Subterrâneo, supostamente habitado somente por espíritos, são mostrados "cabos de cobre" e "pontes levadiças". E o mais intrigante aspecto de todos: Por que, se a transfiguração do faraó o levava para o Mundo Subterrâneo, os textos afirmam que "o rei está indo para o céu?”

No conjunto, os versos indicam que o rei está seguindo o caminho dos deuses, atravessando um lago da mesma maneira que um deus fez anteriormente, usando um barco como o de Ra e ascendendo "equipado como um deus", tal como Osíris etc. etc. Então nos ocorrem as perguntas: E se esses textos não eram fantasias primitivas, mera mitologia, mas relatos sobre uma viagem simulada, onde o falecido faraó era visualizado imitando o que os deuses realmente tinham feito? Não seriam esses textos cópias (com a substituição do nome dos deuses pelo do rei) de escrituras mais antigas, tratando das viagens de deuses, não de faraós?

Um dos mais famosos egiptólogos do passado, Gaston Maspero (L'Archéologie Égyptienne e outras obras), analisando os Textos das Pirâmides com base na forma gramatical e outros indícios, sugeriu que eles se originaram nos primórdios da civilização egípcia, talvez até mesmo antes do surgimento da escrita com hieróglifos. Mais recentemente, J. H. Breasted, em Development of Religion and Thought in Ancient Egypt (Desenvolvimento da Religião e Pensamento no Egito Antigo), concluiu que não resta dúvida de que existiu um material mais antigo, quer o possuamos ou não. Ele encontrou nos textos informações sobre condições de civilização e eventos que confirmam a veracidade dos textos como transmissores de informações factuais e não meras fantasias. "Para alguém de imaginação ativa", diz Breasted, "eles abundam em quadros de um mundo há muito desaparecido, do qual são apenas um reflexo.”

Vistos em seu todo, os textos e ilustrações posteriores descrevem uma viagem a um reino que começa ao nível do solo, prossegue para o subsolo e termina numa abertura pela qual os deuses - e os reis que os imitavam - eram lançados em direção ao céu. Daí a conotação hieroglífica combinando um local subterrâneo com uma função celestial.

Terão os faraós, saindo de seus sepulcros para a Outra Vida, realmente feito esse caminho para o céu? Os próprios antigos egípcios afirmavam que a viagem não era para ser feita pelo cadáver mumificado, mas pelo Ka (Duplo) do rei. Porém, eles visualizaram esse Duplo reencenando um avanço real por lugares que acreditavam verdadeiramente existir.

Então, se os textos refletem um mundo que existiu mesmo, a viagem do faraó para a imortalidade, embora sendo uma imitação, não estaria seguindo passo a passo viagens verdadeiras feitas em épocas pré-históricas?

Sigamos esses passos; entremos no Caminho dos Deuses.

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