Zecharia Sitchin a escada para o céu o caminho percorrido pelos Povos Antigos para atingir a Imortalidade



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CAVALEIROS DAS NUVENS
Sem dúvida, a viagem de Gilgamesh em busca da imortalidade foi a fonte original das muitas lendas que surgiram nos milênios subseqüentes sobre deuses, semi-deuses ou heróis de suposta origem divina que, como ele, partiram para encontrar o paraíso terrestre ou a Morada Celestial dos Deuses. Além disso, ninguém discute que a Epopéia de Gilgamesh serviu como um guia para os aventureiros de todas as épocas tentarem encontrar os marcos da Antiguidade que indicariam a localização da Terra dos Vivos e o caminho para atingi-la.

As similaridades entre os marcos geográficos, os túneis feitos pela mão do homem (os deuses), corredores, fechaduras pneumáticas e câmaras de radiação; os seres com aspecto de pássaros, os "Águias", bem como outros detalhes de maior ou menor importância, são numerosos e idênticos demais para serem meras coincidências. Ao mesmo tempo, a Epopéia de Gilgamesh pode explicar a confusão que reinou ao longo de milênios sobre a localização do ansiado alvo. Como vimos pormenorizadamente no capítulo anterior, Gilgamesh não fez apenas uma viagem, mas duas - um fato em geral ignorado pelos estudiosos modernos e talvez também pelos antigos.

O drama do rei que não queria morrer atinge seu clímax na Terra de Tilmun - a Morada dos Deuses e Lugar dos Shem. Foi lá que ele encontrou um ancestral que escapara do destino dos mortais e a planta da eterna juventude. E foi ali também que ocorreram, ao longo de milênios, outros encontros divinos e eventos que afetaram o curso da História da Humanidade. E era lá, acredito, que ficava o Duat - a Escada para o Céu.

No entanto, esse não era o destino da primeira viagem de Gilgamesh, como podemos entender acompanhando seus passos na seqüência correta. Quando ele partiu pela primeira vez em busca da imortalidade, sua idéia não era atingir Tilmun, mas o Local de Aterrissagem, na Montanhas dos Cedros, dentro da grande Floreta de Cedros.

Estudiosos como S. N. Kramer em The Sumerians consideram "crípticas e enigmáticas" as afirmações sumérias de que Shamash podia "erguer-se" não apenas de Tilmun, mas também da Terra dos Cedros. A resposta é que, além do espaço-porto em Tilmun, do qual podia-se atingir os céus mais longínquos, havia um Local de Aterrissagem, de onde os deuses podiam "escalar o firmamento da Terra". Essa resposta é apoiada pela minha conclusão de que os deuses possuíam dois tipos de naves: os GIR, ou foguetes, operados em Tilmun, e os MU, como eram chamadas pelos sumérios as "Câmaras Celestiais". Comprovando o alto nível tecnológico dos Nefilim, a parte superior do GIR, isto é, o Módulo de Comando ­chamado pelos egípcios de Ben-Ben - podia se separar e voar pelo céu terrestre como um MU.

Os povos da Antiguidade viram os GIR em seus silos e até mesmo voando, mas retratavam com maior freqüência as "Câmaras Celestiais" - veículos que atualmente chamaríamos de OVNIs (Objetos Voadores Não Identificados). O que Jacó conheceu em sua visão deve ter sido parecido com a Câmara Celestial de Ishtar. A Roda Voadora do profeta Ezequiel é descrita como tendo uma forma bem semelhante à mostrada nos desenhos assírios de um deus voador percorrendo os céus ao nível das nuvens, dentro de uma "Câmara Celestial" esférica. Uma delas poderia ser também o turbilhão flamejante no qual o profeta Elias foi arrebatado para os céus.

Tal como as "Águias" sumérias, os Deuses Voadores da Antiguidade eram retratados como possuindo asas. Esses Seres Alados são a raiz da aceitação judaico-cristã da existência de querubins e anjos (literalmente: "emissários") do Senhor.

Tilmun, então, era a localização do espaço-porto. Na Montanha dos Cedros ficava o "Local de Aterrissagem", a "Encruzilhada de Ishtar" - o "aeroporto" dos deuses. E foi para esse lugar que Gilgamesh primeiro dirigiu seus passos.

Embora a identificação e a localização de Tilmun sejam uma empreitada bastante difícil, praticamente não existem problemas para se situar a Floresta de Cedros. Com exceção de ocorrências subsidiárias na ilha de Chipre, só existe uma única região com esse tipo de árvore em todo o Oriente Médio: as montanhas do Líbano. Esses magníficos cedros, que chegam a atingir uma altura de 46 metros, foram repetidamente exaltados na Bíblia e sua singularidade era reconhecida por todos os povos da Antiguidade. Como atestam as narrativas bíblicas e de outras regiões do Oriente Médio, os cedros do Líbano eram reservados para a construção e decoração dos templos ("casas dos deuses"), prática pormenorizadamente descrita em Reis I, nos capítulos que tratam da construção do templo de Jerusalém por Salomão (Depois do Deus Iahweh ter se queixado: "Por que não me constróis uma Casa de Cedro?").

O Deus bíblico parecia bem familiarizado com os cedros e freqüentemente os empregava em suas alegorias, comparando governantes e nações com essas árvores: "A Assíria era um cedro do Líbano, com belos galhos, sombra protetora e grande estatura... as águas o nutriam, rios subterrâneos lhe proporcionavam altura" - até que a ira de Iahweh a fez tombar, quebrando-lhe os galhos. Tudo indica que o homem jamais foi capaz de cultivar essas árvores. A Bíblia registra uma tentativa fracassada. Atribuindo-a a um rei da Babilônia (factual ou alegoricamente), conta que "Ele veio ao Líbano e pegou o mais alto galho do cedro", retirando dele a melhor semente, que "plantou num campo fértil, junto a grandes águas". Mas o que cresceu não foi um cedro, mas uma árvore pequena semelhante a um salgueiro, "uma trepadeira de baixa estatura".

O Senhor bíblico, por seu lado, conhecia o segredo do cultivo dos cedros:
Assim disse o Deus Iahweh:

Da crista do cedro, dos galhos mais altos, um broto macio pegarei;

Eu o plantarei numa alta e íngreme montanha...

E ele porá galhos e gerará frutos, e tornar-se-á um poderoso cedro .


Esse conhecimento, aparentemente, derivava do fato de os cedros crescerem no "Pomar dos Deuses", onde nenhuma árvore se igualava a ele, que era "a inveja de todas as árvores que existiam no Éden, o jardim dos deuses". O termo hebraico Gan (pomar, jardim), por derivar da raiz gnn (proteger, guardar), transmite o sentido de uma área guardada e restrita - o mesmo percebido pelo leitor da narrativa de Gilgamesh, que fala numa floresta que se estende "por muitas léguas", vigiada por um Guerreiro Flamejante ("um terror para os mortais"), acessível somente através de um portão que paralisava o intruso que o tocava. Dentro dela ficava a "morada secreta dos Anunnaki". Um túnel levava ao "recinto no qual são emitidas as palavras de comando" - o "lugar subterrâneo de Shamash".

Gilgamesh quase conseguiu chegar ao Local de Aterrissagem, pois tinha a permissão e o apoio de Shamash. Mas a ira de Ishtar, furiosa por ter sido repelida em seus avanços amorosos, mudou completamente o curso dos acontecimentos. Já um outro rei mortal, segundo o Velho Testamento, teve melhor sorte. Esse homem era o soberano de Tiro, uma cidade-Estado na costa do Líbano, a pouca distância da Montanha dos Cedros. A deidade (como contado no Capítulo 28 do Livro de Ezequiel) permitiu-lhe visitar a Montanha Sagrada:


Estiveste em Éden, pedras preciosas eram tua mata...

És um querubim ungido, protegido; coloquei-te na Montanha Sagrada.

Como um deus estavas, movendo-se dentro de pedras flamejantes.
Gilgamesh procurou entrar no Local de Aterrissagem sem ser convidado dos deuses. O rei de Tiro não somente obteve a permissão para visitar o lugar como também foi levado a passear nas "pedras flamejantes", voando como um querubim. Como resultado disso, ele dizia: "sou um deus, na Morada da Deidade sentei, no meio das águas". Ezequiel deveria informá-lo de que, por causa dessa arrogância, ele iria morrer como um pagão nas mãos de estranhos.

Vemos, assim, que tanto os hebreus dos templos bíblicos como seus vizinhos do norte conheciam a localização e natureza do Local de Aterrissagem na Montanha dos Cedros que Gilgamesh tentou penetrar no milênio anterior a eles. Não se trata, portanto, de um lugar "mitológico", mas sim de um local muito real, citado em textos e mostrado em desenhos, confirmando sua existência e funções.

No conto sobre o rei que tentou plantar um cedro, o Velho Testamento relata que ele "carregou um pequeno galho para um país de comércio" e plantou a semente "numa cidade de mercadores". Países e cidades desse tipo não precisam ser procurados muito longe, pois ao longo da costa do Líbano, desde a Anatólia, ao norte, até o sul da Palestina, havia muitas cidades litorâneas cananéias cuja riqueza e poder cresciam com o comércio internacional. As mais conhecidas através dos relatos bíblicos são Tiro e Sídon. Centros de comércio e navegação durante milênios, sua fama atingiu o auge na época em que eram governadas pelos fenícios.

Uma outra cidade, talvez o posto mais avançado dos cananeus junto à fronteira com o Império Hitita, passou milênios soterrada sobre um monte depois de sua destruição por invasores assírios. Suas ruínas foram descobertas por acaso em 1928, quando um lavrador pôs-se a arar um novo campo de cultivo perto do monte chamado Ras Shamra. As extensas escavações que se seguiram revelaram a antiga cidade de Ugarit. Entre as espetaculares descobertas estavam um grande palácio, um templo dedicado ao deus Baal ("O Senhor") e uma variedade de artefatos. Porém, o verdadeiro tesouro eram centenas de tábulas de argila, com inscrições em escrita cuneiforme, em língua "semita ocidental", aparentada com o hebraico bíblico. As tábulas, cujo conteúdo foi sendo apresentado ao longo de vários anos por Charles Virollaud no periódico científico Syria, tiraram de uma relativa obscuridade os cananeus, sua vida, seus costumes e deuses.

No topo do panteão cananeu ficava uma divindade suprema chamada El - uma palavra que no hebraico bíblico era o termo genérico para "deidade", tendo como origem a palavra acadiana Ilu, que significa literalmente "O Altíssimo". Todavia, nos contos cananeus sobre homens e deuses, El era o nome pessoal de uma deidade real, a autoridade final em todas as questões, fossem de natureza divina ou humana. El era tanto o pai dos deuses como o Ab Adam ("pai dos homens") e tinha como epítetos "O Bondoso" e "O Misericordioso". Ele também era "o criador das coisas criadas" e "o único que podia conceder realeza". Uma estela encontrada na Palestina mostra El sentado em seu trono e sendo servido de bebida por uma deidade mais jovem, provavelmente um de seus muitos filhos. Ele usa o toucado cônico, com chifres, a marca registrada dos deuses em todo o Oriente Médio da Antiguidade, e a cena é dominada pelo onipresente Globo Alado, o emblema do Planeta dos Deuses.

Nos "velhos tempos", El era a principal deidade do Céu e da Terra, mas na época em que tiveram lugar os eventos relatados na tábulas cananéias, o deus vivia numa semi-aposentadoria, alheio às questões cotidianas. Sua morada ficava "nas montanhas", junto aos "dois afluentes iniciais", onde se sentava em um pavilhão recebendo emissários, presidindo conselhos dos deuses e tentando resolver as constantes disputas entre os deuses mais jovens. Muitos destes eram seus filhos e alguns textos sugerem que El tinha setenta deles. Destes, trinta eram de sua consorte oficial, Asherah e os outros filhos eram de uma variedade de concubinas divinas e até humanas. Um texto poético conta que duas mulheres viram El nu enquanto passeavam na praia e ficaram encantadas com o tamanho de seu pênis, caso que terminou com cada uma delas gerando um filho do deus. (Esse atributo de El está bem visível numa moeda fenícia, que o mostra como um deus alado).

No entanto, os principais descendentes de El eram três filhos e uma filha: os deuses Yam (“Mar, Oceano"), Baal ("O Senhor") e Mot ("Golpeador, Aniquilador"), e a deusa Anat (“A que respondeu"). Pelos nomes e relacionamento, eles se comparam com os deuses gregos Posêidon (Deus dos Mares), Zeus (Senhor dos Deuses) e Hades (Deus do Mundo Inferior). Baal, como Zeus, estava sempre armado com um raio-míssil e tinha o touro como símbolo de seu culto. Quando Zeus lutou contra Tífon, foi sua irmã, Atena, Deusa do Amor e da Guerra, a única que o apoiou. Nas lendas egípcias, Ísis sozinha ficou ao lado do irmão-marido, Osíris. O mesmo aconteceu quando Baal entrou em luta com seus dois irmãos. Somente sua irmã-amante, Anat, veio em seu auxílio. Como Atena, ela era ao mesmo tempo “A Donzela", muitas vezes exibindo sua beleza nua, e a Deusa da Guerra, tendo um leão como símbolo de sua bravura. (No Velho Testamento ela é chamada de Astarot ou Astarte.)

Os vínculos com as crenças e lembranças dos tempos pré-históricos egípcios são tão óbvios como com os da Grécia. Osíris foi ressuscitado por Ísis depois de ela ter encontrado seus restos na cidade cananéia de Biblos. Da mesma forma, Baal foi trazido de volta à vida depois de golpeado por Mot. Set, o adversário de Osíris, nas escrituras egípcias às vezes era chamado de "Set de Safon". Baal, como vemos, ganhou o título de "Senhor de Zafon". Os monumentos egípcios do Novo Império - que se equipara ao período cananeu - muitas vezes mostravam os deuses cananeus como deidades egípcias, chamando-os de Min, Reshef, Cades e Anthat. Dessa forma, encontramos as mesmas lendas aplicando-se aos mesmos deuses, apesar dos nomes diferentes, em todo o mundo antigo.

Os eruditos salientaram que todas essas lendas eram ecos, senão versões, dos outros sumérios originais e muito mais antigos, falando não apenas sobre a busca da imortalidade, mas também de amor, morte e ressurreição entre os deuses. Em seu conjunto, esses contos estão repletos de episódios, detalhes, epítetos e ensinamentos que também constam do Velho Testamento - evidenciando um local em comum (Canaã), tradições em comum e versões originais em comum.

Um texto desse tipo é a história de Danel (Dan-El - o "juiz de El" - Daniel em hebraico), um chefe virtuoso, que não conseguia ter um herdeiro legítimo. Aflito, Danel rogou aos deuses que lhe dessem um filho, para que, quando ele morresse, esse filho pudesse erigir uma estela em sua memória em Cades. A partir dessa palavra podemos conjeturar que a área dos eventos da lenda era a região onde o Canaã do Sul (o Neguev) mesclava­-se com a península do Sinai, pois era lá que ficava a cidade de Cades ("A Sagrada").

Cades fazia parte do território do patriarca bíblico Abraão e o conto cananeu sobre Danel está repleto de similaridades com a história da Bíblia sobre o nascimento de Isaac, filho de Abraão e Sara, ambos muito idosos. Num relato bem parecido com o que está no Livro do Gênesis, lemos no conto cananeu que Danel, envelhecendo sem ter gerado um herdeiro, viu se apresentar uma oportunidade de conseguir auxílio divino quando dois deuses chegaram à sua casa. "Daí em diante... ele dá oferendas para os deuses comerem, oferendas para os Santos beberem." Os divinos hóspedes, que eram El, "O Administrador da Cura", e Baal, ficam na casa de Danel por uma semana, durante a qual este repete constantemente sua súplica. Afinal, Baal resolve apoiar Danel, "aproximando-se de El com seus apelos". Cedendo às súplicas, El "pela mão toma seu servo" e lhe concede "espírito", pelo qual a virilidade de Danel é restaurada:
Com o hálito da vida Danel é estimulado...

Com o hálito da vida ele é revigorado.


El promete um filho para o descrente Danel. Monta tua cama, diz, beija tua mulher, abraça-a... "pela concepção e gravidez ela dará à luz um filho homem para Danel". E, tal como acontece na narrativa bíblica, a matriarca gera um herdeiro legítimo, o que garante a sucessão. Os pais lhe dão o nome de Aqhat; os deuses o apelidam de Naaman ("O Agradável").

Quando o menino torna-se um rapaz, o Artífice dos Deuses o presenteia com um arco inigualável, o que desperta a inveja de Anat, que deseja possuir essa arma mágica. Para obtê-la, a deusa promete a Aqhat qualquer coisa que ele gostaria de ter - ouro, prata, até mesmo a imortalidade:


Peça a vida, ó Aqhat, o jovem...

Peça a vida e eu ela te darei.

Imortalidade (peça), e eu te concederei.

Com Baal te farei contar os anos;

Com os filhos de El contarás os meses.
Além de viver tanto quanto os deuses, prometeu a deusa, o rapaz também seria convidado a juntar-se a eles na cerimônia de Doação de Vida.
E Baal, quando concede a vida, uma festa oferece;

Um banquete faz para aquele que recebeu vida.

Serve-lhe uma bebida, canta e entoa docemente para ele.
Mas Aqhat não acredita que o homem possa escapar de seu destino e não deseja separar-se do arco:
Não mintas, ó donzela...

Para um herói, tuas mentiras são desprezíveis.

Como pode um mortal adquirir uma outra vida?

Como pode um mortal a eternidade obter?

A morte de todos os homens morrerei;

Sim, com certeza perecerei.


O rapaz também lembra a Anat que o arco foi feito para guerreiros como ele e não para ser usado por mulheres. Insultada, Anat "atravessa a Terra" até a morada de El, pretendendo solicitar permissão para eliminar Aqhat. A resposta enigmática do deus sugere que ele permite um castigo, mas só até certo ponto.

Anat agora começa a tramar sua vingança. "Por sobre mil campos, quatro mil hectares", ela viaja de volta para onde está Aqhat. Fingindo-se desejosa de paz e apaixonada, a deusa ri, alegre. Dirigindo-se ao rapaz como "Aqhat, o jovem", ele declara: "Tu és meu irmão, sou tua irmã". Em seguida, convence-o a acompanhá-la até a cidade do "Pai dos Deuses, o Senhor da Lua". Lá pede para Tafan "matar Aqhat para tirar seu arco" e depois "fazê-lo viver de novo”

ou seja, infligir-lhe uma morte temporária, que a possibilite pegar a arma tão desejada. Tafan, seguindo as instruções da deusa, “golpeia duas vezes Aqhat no crânio, três acima da orelha", e a alma do rapaz "escapa como vapor". Mas, antes que ele possa ser revivido (se era mesmo essa a intenção de Anat), seu corpo é estraçalhado pelos abutres. A notícia terrível é trazida a Danel enquanto ele, "sentado diante do portão, sob uma frondosa árvore, julga a causa da viúva, adjudica a causa do órfão". Com a ajuda de Baal, organiza-se uma busca para procurar os restos de Aqhat, mas tudo em vão. A irmã do rapaz, disfarçada e desejosa de vingança, viaja até a morada de Tafan e, depois de embriagá-lo, tenta matá-lo. (Um possível final feliz, no qual Aqhat terminaria ressuscitado, não foi encontrado até agora.)

A transferência da ação das montanhas do Líbano para a "cidade do deus-Lua" é um elemento também encontrado na história de Gilgamesh. Em todo o Oriente Médio da Antiguidade, a deidade associada à Lua era Sin (Nannar no sumério original). Chamado na cidade de Ugarit de "Pai dos Deuses" ele era, na verdade, o pai de Ishtar e seus três irmãos. A primeira tentativa de Gilgamesh para atingir sua meta, o Local de Aterrissagem na Montanha dos Cedros, foi frustrada por Ishtar, que procurou fazer com que ele fosse morto pelo Touro do Céu por tê-la rejeitado. Em sua segunda viagem, em que pretendia chegar à Terra de Tilmun, Gilgamesh também chegou a uma cidade cercada de muralhas, "cujo templo era dedicado a Sin".

Mas, enquanto Gilgamesh precisou fazer uma longa e perigosa caminhada antes de atingir a região de Sin, Anat - como Ishtar ­ podia ir a todos os lugares com grande rapidez, pois não viajava a pé nem em lombo de asno, mas voando de um ponto para outro. Muitos textos da Mesopotâmia referiam-se às viagens aéreas de Ishtar e sua capacidade de vagar pelo firmamento, "atravessando o céu, atravessando a terra". Uma sua representação no templo a ela dedicado em Assur, uma capital assíria, mostra-a usando óculos, um capacete justo e grandes "fones de ouvido" ou painéis. Nas ruínas de Mari, na margem do rio Eufrates, foi encontrada uma estátua de tamanho natural, equipada com uma "caixa-preta", uma mangueira, um capacete com chifres e "fones de ouvido” embutidos, e mais outros atributos de um aeronauta. Essa capacidade de "voar como um pássaro", atribuída a todas as outras deidades cananéias, aparece em todos os contos épicos encontrados em Ugarit.

Um deles, onde a deusa voa para salvar alguém, é um texto que os eruditos intitularam de "A Lenda do Rei Keret" - onde Keret pode ser interpretado como o nome do rei ou o de sua cidade ("A capital"). O tema do conto é o mesmo da Epopéia de Gilgamesh, ou seja, a luta do homem para encontrar a imortalidade. No entanto, ele começa como a história de Jó, do Velho Testamento, e possui outras similaridades bíblicas.

Jó, como nos conta a Bíblia, era um homem íntegro e puro, de grande fortuna e poder que vivia na Terra de Hus (a "Terra do Conselho"), território sob o domínio dos "Filhos do Leste". Tudo corria às mil maravilhas até que "no dia em que os filhos dos deuses vieram se apresentar a Iahweh, entre eles veio também Satanás". Persuadindo o Senhor a testar Jó, Satanás recebeu permissão de afligi-lo primeiro com a perda dos filhos e de toda sua fortuna, e posteriormente com todo o tipo de enfermidades. Enquanto Jó lamentava e sofria, três de seus amigos vieram consolá-lo. O Livro de Jó foi composto como um registro das discussões dos quatro homens sobre a vida e a morte, e os mistérios do Céu e da Terra.

Queixando-se do transtorno que ocorrera em sua vida, Jó sonhava com os "meses de antanho", quando era honrado e respeitado: "Nos portões da capital, na praça, um assento a mim ficava reservado". Naquele tempo, recordou-se, acreditava que "como a Fênix serão meus dias, com meu Edificador morrerei". Mas agora, sem nada de seu e afligido por enfermidades, sentia vontade de morrer ali mesmo.

O amigo que viera do sul lembrou-lhe de que: "O homem nasce para o trabalho forçado; só o filho de Reshef pode para as alturas voar". Seria como se dissesse: ora, sendo o homem mortal, por que tanta agitação?

Mas Jó respondeu enigmaticamente que a questão não era tão simples assim. "A Essência do Senhor está dentro de mim; seu esplendor alimenta meu espírito." Estaria ele revelando, no verso até hoje incompreendido, que tinha sangue divino? Que, como Gilgamesh, esperava viver tanto como a Fênix, que sempre renascia, e morrer somente quando falecesse seu "Edificador"? Mas agora Jó se dava conta de que: "Eternamente não mais viverei; meus dias são como vapor".

A história de Keret primeiro o descreve como um homem próspero que em pouco tempo perde a mulher e filhos devido a doenças e guerra. "Ele vê seus descendentes arruinados... uma posteridade perecendo em seu todo", e percebe que é o fim de sua dinastia - "seu trono está completamente solapado." O sofrimento e as lamentações crescem a cada dia: "sua cama está ensopada de lágrimas". Diariamente Keret "entra na câmara interior" do templo e chora suplicando a ajuda dos deuses. El acaba "descendo até ele" para descobrir" o que aflige Keret para fazê-lo chorar". É aí que os textos revelam que Keret, por ser filho de El com uma humana, é parte divino.

El aconselha seu "amado rapaz" a parar de se lamentar e a casar-se de novo, pois assim seria abençoado com um novo herdeiro. Manda-o lavar-se e arrumar-se para ir pedir a mão da filha do rei de Udum (possivelmente a bíblica Edom). Keret, acompanhado de suas tropas e carregado de presentes, parte obedecendo às ordens de El. No entanto, o rei de Udum recusa a prata e o ouro. Sabendo que Keret "é carne do Pai dos Homens", isto é, de origem divina, pede um dote singular: que o primogênito de sua filha com Keret também seja semi-divino!

A decisão, claro, não cabe a Keret. El, que o aconselhara a procurar um novo casamento, não está disponível. Assim, o rei dirige seus passos para o santuário de Asherah pretendendo obter o auxílio da deusa. A cena seguinte tem lugar na morada de El, onde a súplica transmitida é apoiada por vários deuses mais jovens:
Então vieram as companhias de deuses,

E o presente Baal falou:

E agora, ó Bondoso, El benigno;

Não abençoarás Keret, o de sangue puro,

Nem agradarás o amado rapaz de El?
Assim incentivado, EI consente em "abençoar Keret" e promete­-lhe que ele terá filhos e várias filhas. O primogênito, anuncia, deverá receber o nome de Yassib ("Permanente"), pois de fato lhe será concedida a permanência. Isso acontecerá porque, quando o menino nascer, não será amamentado pela mãe, mas pelas deusas Asherah e Anat. (O tema do filho de um rei sendo amamentado por uma deusa, dessa forma ganhando a vida eterna, era encontrado nas artes de quase todos os povos do antigo Oriente Médio).

Os deuses mantêm sua promessa, mas Keret, crescendo em poder e riqueza, esquece seus votos. Tal como aconteceu com o rei de Tiro nas profecias de Ezequiel, seu coração tornou-se altivo e ele começou a se vangloriar de suas origens divinas com os filhos. Irritada, Asherah faz cair sobre ele uma doença fatal. Quando ficou evidente que Keret estava à beira da morte, seus filhos, espantados, perguntaram como isso podia estar acontecendo com ele, "um filho de El, rebento do Bondoso, um ser sagrado". Mal podendo acreditar no que viam, interrogam o pai - pois, com toda a certeza, o fracasso de sua imortalidade os afetará também:


Em tua vida, pai, nos regozijávamos

Exaltávamos teu não morrer...

Morrerás então, pai, como os mortais?
O silêncio de Keret fala por si e agora os filhos voltam-se para os deuses:
Como pode ser dito,

Um filho de El é Keret, rebento do Bondoso e um ser sagrado?

Então um deus morrerá?

Um rebento do Bondoso não viverá?


Embaraçado, El dirige-se aos outros deuses: "Quem entre vós é capaz de remover a doença, expulsar os males?" Por sete vezes El repete seu apelo, mas "nenhum dos deuses responde". Desesperado, El apela para o Artífice dos Deuses e seus assistentes, e às deusas dos ofícios que conhecem todas as mágicas. Respondendo, "a mulher que remove doenças", a deusa Shagarat, decola: "Ela sobrevoa cem cidades, sobrevoa uma miríade de povoados..." Chegando à casa de Keret no momento exato, consegue revivê-lo.

(A história, contudo, não tem um final feliz. Como a afirmação de Keret de que era imortal provou ser inútil, seu primogênito o persuadiu a abdicar em seu favor...)


Os vários relatos épicos sobre os próprios deuses são de importância primordial para a compreensão dos eventos da Antiguidade. Neles, a capacidade de voar dos deuses. é aceita como um fato corriqueiro e seu "céu", a "Crista de Zafon", é apresentado como um local de repouso dos aeronautas. As figuras centrais dessas histórias são Baal e Anat, os irmãos-amantes. O epíteto freqüente de Baal é "O Cavaleiro das Nuvens", que o Velho Testamento acabou reivindicando para a deidade hebréia. A capacidade de voar de Anat, que aparecia ocasionalmente nos contos sobre as relações entre deuses e homens, é ainda mais enfatizada nas lendas só sobre os deuses.

Num desses textos, Anat é informada de que Baal foi pescar "na campina de Samakh". A região conserva esse nome até os dias de hoje: trata-se da área do lago de Sumkhi ("lago dos Peixes"), que fica ao norte de Israel, onde o rio Jordão começa a desaguar no mar da Galiléia, e continua afamada pelos seus peixes e vida selvagem. Anat decidiu ir juntar-se a Baal:


Ela alça vôo, a Donzela Anat,

Alça vôo e passeia voando

Até o centro da campina de Samath,

Onde abundam búfalos.


Avistando a deusa, Baal fez-lhe um sinal para que descesse, mas Anat começou a brincar de esconde-esconde. Irritado, Baal perguntou se Anat estava esperando que ele fosse "ungir os chifres dela" - uma expressão relacionada com o ato sexual - "enquanto voava" - Incapaz de encontrá-la, Baal decolou "e subiu para os céus", indo para a sede de seu trono na "Crista de Zafon". Anat, a brincalhona, logo dirigiu-se para lá com a intenção de "sobre Zafon em prazer (estar)".

O encontro idílico, contudo, só pôde ser consumado anos depois, quando a posição de Baal como Príncipe da Terra e governante reconhecido das terras do norte já estava firmemente estabelecida. Antes disso, o deus envolveu-se em lutas de vida ou morte com os outros pretendentes ao trono dividido. O prêmio de todas essas disputas era um lugar conhecido como Zarerath Zafon, em geral traduzido como "monte santo" ou "Picos de Zafon", mas significando exatamente "A Crista Rochosa no Norte".

Essas sangrentas lutas pelo domínio sobre certas fortalezas ou territórios decorriam do posicionamento dos pretendentes na linha de sucessão quando o chefe do panteão envelhecia ou entrava numa semi-aposentadoria. Conforme as tradições de casamento que primeiro foram registradas nos escritos sumérios, a consorte oficial de El, Asherah ("a filha do governante"), era sua meia-irmã, o que fazia do primogênito desta o herdeiro legítimo. Mas, como acontecera antes, a posição desse filho era freqüentemente contestada pelos seus meios-irmãos mais velhos, mas nascidos de outras mulheres. (O fato de Baal, que tinha pelo menos três esposas, não poder se casar com sua amada Anat confirma que ela era sua irmã por parte de pai e mãe, e não apenas meia-irmã.)

Os contos cananeus começam na remota e montanhosa morada de El, onde ele secretamente concede a sucessão ao seu filho Yam. A deusa Shepesh, a "Tocha dos Deuses", vai voando até onde está Baal para lhe dar as más notícias: "El está virando o sistema monárquico pelo avesso!", grita, alarmada.

Baal é aconselhado a apresentar-se diante de El e a levar a disputa para ser julgada pela Assembléia ou Conselho dos Deuses. As irmãs sugerem que ele deve ser desafiador:
Agora vamos, parta, para a Assembléia no centro do monte Lala.

Aos pés de El não caia, não te prostres diante da Assembléia.

Em pé, altivo, faça teu discurso.
Ao ficar sabendo da trama, Yam envia seus próprios emissários para a reunião dos deuses com o intuito de exigir que o rebelde Baal seja entregue em suas mãos. "Os deuses estavam sentados para comer, os Santos iam jantar; Baal servia El" quando entram os emissários. No silêncio que se segue, os dois apresentam a exigência de Yam. Para indicar que não estão para brincadeiras, "aos pés de El não caem" e mantêm as mãos nas armas, "olhos como uma espada afiada, cintilando com um fogo que a tudo consome". Os deuses atiram-se ao chão para se proteger. El mostra-se disposto a entregar Baal, mas este pega suas armas e está para saltar sobre os emissários quando sua mãe o contém. Um emissário possui imunidades, lembra ela.

Os emissários acabam voltando de mãos vazias para Yam e fica claro que não existe outro meio de decidir a disputa senão os dois deuses confrontarem-se num campo de batalha. Uma deusa - talvez Anat - conspira com o Artífice dos Deuses para ele fornecer a Baal suas armas divinas, o "perseguidor" e o "atirador", que "mergulha sobre a presa como uma águia". No combate, Baal vence Yam e está para "esmagá-lo" quando ouve a voz da mãe dizendo-lhe: "Poupe Yam!" O vencido escapa da morte, mas é banido para seus domínios marítimos.

Como compensação por ter poupado Yam, Baal pede a Asherah que apóie sua reivindicação de obter a supremacia sobre a Crista de Zafon. A deusa está repousando numa cidade à beira-mar e é com grande relutância que concorda em viajar até a morada de El localizada numa região quente e seca. Chegando "sedenta e ressequida", Asherah coloca o problema diante do marido e pede-lhe para decidir com sabedoria e não emoção. "Tu és mesmo grande e sábio", bajula, "o grisalho de tua barba te instrui... Sabedoria e Vida Perene são tua parte." Pesando a situação, El concorda: que Baal seja o dono da Crista de Zafon; que lá ele construa sua casa.

No entanto, o que Baal tem em mente não é uma residência qualquer. Seus planos exigem os serviços de Kothar-Hasis ("O Habilidoso e Conhecedor"), o Artífice dos Deuses. Não apenas os eruditos modernos, mas até Filos de Biblos, no século 1 a.C. (citando historiadores fenícios anteriores), compara Kothar-Hasis ao divino artesão grego Hefesto, que construiu a residência dos deuses Zeus e Hera. Outros encontram paralelos entre ele e Thot, o deus egípcio das artes, ofícios e magia. De fato, os escritos encontrados em Ugarit afirmam que os emissários de Baal enviados para buscar Kothar­-Hasis foram avisados para procurar por ele na ilha de Creta e no Egito. Tudo indica que, na época, era nesses locais que o Artífice dos Deuses estava empregando suas habilidades.

Quando Kothar-Hasis chegou ao lugar onde Baal o esperava, os dois começaram a estudar os projetos da construção. Baal desejava uma estrutura em duas partes, sendo uma E-Khal ("grande casa") e a outra Behmtam, termo geralmente traduzido por "casa", mas que literalmente significa "uma plataforma elevada". Houve alguma discordância entre os deuses sobre o local onde deveria ficar uma certa janela em forma de funil que se abria e fechava de maneira incomum. "Tu deves prestar atenção às minhas palavras, Ó Baal", insistiu Kothar-Hasis. Terminada a construção da estrutura, Baal mostrou-se preocupado com a segurança de suas mulheres e filhos. Para tranqüilizá-lo, Kothar-Hasis mandou que árvores do Líbano, "de Sirion seus preciosos cedros", fossem empilhadas dentro da estrutura e ateou fogo nelas. Durante uma semana inteira a fogueira ardeu intensamente; ouro e prata colocados nela derreteram, mas a estrutura em si não foi destruída nem abalada.

O silo subterrâneo e a plataforma estavam prontos! Sem perder tempo, Baal resolveu testar a instalação:


Baal abriu o Funil na Plataforma Elevada,

A janela dentro da Grande Casa.

Nas nuvens, Baal abriu fendas.

Seu clamor sagrado Baal emite...

Seu clamor sagrado sacode a Terra.

As montanhas estremecem...

Tremendo estão...

No leste e no oeste, os montes da terra balançam...


Quando Baal começou a subir para o espaço, os divinos mensageiros Gapan e Ugar juntaram-se a ele no vôo: "Os alados, os dois, congregam-se nas nuvens" atrás de Baal; "como pássaros", a dupla sobrevoou os picos nevados de Zafon. Com o término da construção das novas estruturas, a Crista de Zafon passou a ser chamada de "Fortaleza de Zafon", e o monte Líbano ("O Branco", em virtude de seus picos nevados) adquiriu o epíteto Sirion - a Montanha "Armada".

Por ter conseguido o domínio da fortaleza de Zafon, Baal também ganhou o nome de Baal Zafon. Como título, ele significa apenas "Senhor de Zafon", mas a conotação original do termo Zafon não era geográfica, pois significava tanto "o escondido", como "o local de observação". Sem dúvida, essas conotações tiveram um peso importante na nomeação de Baal como "Senhor de Zafon".

Uma vez obtidos esses poderes e prerrogativas, as ambições de Baal cresceram muito em escala. Convidando os "filhos dos deuses" para um banquete, ele exigiu demonstrações de fidelidade e vassalagem. O castigo não demorou para os que se recusaram a atendê-lo: "Baal agarra os filhos de Asherah; Rabbim ele golpeia nas costas, Dokyamm atinge com uma clava". Alguns foram mortos, outros escaparam. Embriagado pelo poder, Baal zombou deles:

Os inimigos de Baal fogem para as matas;

Seus inimigos escondem-se nas faldas da montanha.

O possante Baal grita:

Ó inimigos de Baal, por que tremem?

Por que tremem, por que se escondem?

O Olho de Baal se fende;

Sua mão estendida o cedro racha;

Sua mão direita é poderosa.
Decidido a conseguir o domínio completo, Baal - com a ajuda de Anat - venceu e aniquilou adversários masculinos como “Lothan, a serpente", "Shahat, o dragão de sete cabeças", "Atak, o bezerro" e a deusa Hashat, "a cadela". Sabemos, através do Velho Testamento, que Iahweh, o Deus bíblico, também era um feroz adversário de Baal. Quando a influência deste cresceu muito entre os israelitas em virtude do casamento de seu rei com uma princesa cananéia, o profeta Elias organizou um competição entre Baal e Iahweh no alto do monte Carmelo. Quando Iahweh prevaleceu, os trezentos sacerdotes de Baal foram imediatamente executados. Era por causa desse acontecimento que o Velho Testamento conferia a Iahweh o domínio sobre a Crista de Zafon. Significativamente, as reivindicações foram feitas em linguagem quase idêntica à usada nas histórias sobre Baal, como deixam claro o Salmo 29 e outros versos:
Tributai a Iahweh, ó filhos dos deuses,

Tributai a Iahweh glória e poder.

Tributai a Iahweh a glória de seu Shem;

Adorai a Iahweh em seu esplendor de santidade.

O clamor de Iahweh sobre as águas;

O Deus glorioso troveja,

Ecoa sobre as águas torrenciais.

Seu clamor é poderoso, majestático.

O clamor de Iahweh despedaça os cedros,

Despedaça Iahweh os cedros do Líbano;

Ele faz o Líbano pular qual bezerro

E o Sirion como cria de búfalo.

O clamor de Iahweh lança chispas de fogo...

E em seu templo tudo grita: glória!


Tal como Baal nos textos cananeus, a deidade hebréia também era um "Cavaleiro das Nuvens". O profeta Isaías teve uma visão dele voando na direção sul, para o Egito, "cavalgando agilmente uma nuvem, ele descerá sobre o Egito; os deuses do Egito estremecerão diante dele". Isaías também afirmava ter visto pessoalmente o Senhor e seus atendentes alados:
 No ano em que faleceu o rei Ozias, vi o Senhor sentado em um trono alto e elevado. Seus carregadores enchiam o santuário. Os atendentes do fogo pairavam sobre ele, seis asas, seis asas para cada um deles... As vigas dos pórticos estremeceram com o clamor e o templo encheu-se de fumaça.
Os hebreus eram proibidos de adorar, e, portanto, de fazer estátuas ou imagens gravadas. Os cananeus, contudo, que devem ter conhecido Iahweh como os hebreus conheciam Baal, deixaram-nos uma sua imagem como concebida por eles. Uma moeda do século 4 a.C, com a inscrição Yahu ("Iahweh"), mostra uma deidade sentada em um trono com forma de uma roda alada.

Assim, era universalmente aceito no Oriente Médio que o deus que conseguia o domínio sobre Zafon ficava com a supremacia sobre os deuses que podiam voar.

Isso, sem dúvida, era o que Baal esperava. Todavia, sete anos depois do término da construção da fortaleza de Zafon, ele foi desafiado por Mot, o senhor das terras ao sul e do Mundo Inferior. Agora a disputa já não era mais sobre quem seria o dono de Zafon, mas sobre "quem terá o domínio sobre toda a Terra".

Chegaram a Mot informações de que Baal estava envolvido em atividades suspeitas. Ilegal e clandestinamente, ele estava "pondo um lábio na Terra e um no Céu", tentando "esticar sua voz até os planetas". De início, Mot exigiu o direito de inspecionar o que estava acontecendo dentro da Crista de Zafon. Em resposta, Baal enviou-lhe emissários com mensagens de paz. "Quem precisa de guerra?", perguntou, "derramemos paz e amizade no centro da terra". Como Mot continuou insistindo, Baal concluiu que o único modo de impedi-lo de ir a Zafon seria procurá-lo em sua própria casa. Assim, viajou para a "cova" de Mot nas "profundezas da Terra", jurando obediência.

No entanto, o que Baal tinha em mente era algo muito mais sinistro - a derrubada de Mot. Mas, para isso, precisava do auxílio da sempre fiel Anat. Por isso, enquanto ele ia ter com Mot, seus emissários procuraram Anat. Os dois emissários receberam instruções de repetirem palavra por palavra uma enigmática mensagem para a deusa:
Tenho uma palavra secreta para te dizer,

Uma mensagem para te cochichar:

É um aparelho que lança palavras,

Uma Pedra que sussurra.

Suas mensagens os homens não entenderão;

As multidões da Terra não compreenderão.


Devemos ter em mente que em todas as línguas da Antiguidade, o termo "pedra" abrangia todas as substâncias mineradas ou garimpadas, incluindo assim todos os minerais e metais. Portanto, Anat logo compreendeu o que Baal mandara lhe dizer: ele estava montando na Crista de Zafon um sofisticado aparelho que podia enviar ou interceptar mensagens secretas!

Na continuação da mensagem levada pelos emissários, há uma melhor descrição da Pedra do Esplendor.


O Céu com a Terra ela faz conversar, os mares com os planetas.

É uma Pedra do Esplendor;

Para o Céu ainda é desconhecida.

Que tu e eu a erijamos dentro de minha caverna, no altíssimo Zafon.


Este então era o segredo: Baal, sem o conhecimento do "Céu" - o governo do planeta mãe -, estava montando um centro de comunicações clandestino, com o qual poderia falar com todas as partes da Terra e também com as naves no espaço. Esse seria o primeiro passo para ele "ter o domínio sobre toda a Terra". Mas, com isso, Baal entrava em confronto direto com Mot, pois era nos territórios dominados por este que se localizava o "Olho da Terra" oficial.

Tendo recebido e compreendido a mensagem, Anat apressou­-se a partir em auxílio de Baal. Os emissários preocupados receberam sua palavra de que ela chegaria lá a tempo. "Vós sois vagarosos, eu sou ligeira", garantiu, e acrescentou:


No distante lugar do deus penetrarei,

A distante cova dos filhos dos deuses.

Duas aberturas ela tem sob o Olho da terra

E três largos túneis.


Chegando à capital de Mot, Anat não conseguiu encontrar Baal. Exigindo saber sobre seu paradeiro, ameaçou Mot com violência. Finalmente foi informada da verdade: os dois deuses tinham se engalfinhado em combate e "Baal tombara". Furiosa, Anat "com uma espada fendeu Mot". Então, com a ajuda da deusa Shepesh, soberana dos Refaim (os "Curadores"), transportou o corpo sem vida de Baal para o pico de Zafon, colocando-o numa caverna.

Rapidamente as duas deusas convocaram o Artífice dos Deuses, também chamado de El Kessem, "O Deus da Mágica". Tal como Hórus foi revivido por Thot depois de ter sido picado por uma serpente, Baal também ressuscitou milagrosamente. No entanto, não fica bem explicado se ele voltou à vida física na Terra ou ganhou, como Osíris, uma Outra Vida Celestial.


É impossível determinar quando os deuses envolveram-se nesses eventos na Crista de Zafon, mas não restam dúvidas de que a Humanidade tinha conhecimento da existência e atributos singulares do Local de Aterrissagem já nos primórdios da História documentada.

Para começar temos o relato sobre a viagem de Gilgamesh à Montanha dos Cedros, que a epopéia também chama de "Morada dos Deuses, a Encruzilhada de Ishtar". Lá, "penetrando na floresta", ele encontrou um túnel que levava "ao recinto onde são emitidas as palavras de comando". Aprofundando-se na montanha, "a morada secreta dos Anunnaki ele abriu". Foi como se Gilgamesh tivesse invadido as mesmas instalações que Baal construíra em segredo! Versos antes misteriosos da epopéia agora assumem um significado empolgante:


Coisas secretas ele viu,

O que está escondido do homem ele conheceu...


Isso, sabemos, aconteceu no terceiro milênio a.C. - por volta de 2.900 a.C.

Outro elo importante entre as lendas dos deuses e homens é a história do idoso Danel, que não tinha descendentes masculinos e morava em algum lugar perto de Cades. Não é possível determinar a época em que ocorreram esses eventos, mas as similaridades com a história de Abraão - inclusive a aparição de "homens", que depois vem-se a saber que eram o Senhor e seus emissários - sugerem a possibilidade de que estamos lendo duas versões da mesma memória ancestral. Se for esse mesmo o caso, possuímos uma outra data: o início do segundo milênio a.C.

Zafon, a fortaleza dos Deuses, continuava lá, no primeiro milênio a.C. O profeta Isaías (século VIII a.C.) castigou Senaqueribe, o invasor assírio da Judéia, por ele ter insultado o Senhor subindo com seus muitos carros de guerra "às alturas da montanha, à Crista de Zafon". Enfatizando a antiguidade do local, Isaías transmitiu a Senaqueribe a admoestação do Senhor:
Não ouviste?

Já de há muito eu a construí,

Nos tempos antigos eu a criei.
Isaías também castigou o rei da Babilônia por ele ter tentado se divinizar escalando a Crista de Zafon:
Como caíste do céu, ó estrela d'alva, filho da aurora!

Como foste atirado à terra, vencedor das nações!

E, no entanto, dizias em teu coração:

Hei de subir até o céu,

Acima das estrelas de Deus colocarei o meu trono,

Estabelecer-me-ei na Montanha da Assembléia,

Na Crista de Zafon, na Plataforma Elevada,

Um Altíssimo serei.

E, contudo, serás precipitado ao Mundo Inferior,

Nas profundezas do abismo.


Temos aqui não somente a confirmação da existência do local e sua antiguidade, mas também a afirmação de que ele incluía uma "Plataforma Elevada", da qual podia-se subir ao espaço e tornar-se um Altíssimo - um deus.

A ascensão aos céus, sabemos por outros textos bíblicos, era feita por meio de "pedras" (aparelhos mecânicos), que podiam viajar. No século VI a.C., o profeta Ezequiel castigou o rei de Tiro porque seu coração tornou-se orgulhoso depois de ele ter recebido permissão de subir à Crista de Zafon e entrar nas "pedras moventes", experiência após a qual anunciou: "Um deus eu sou".

Uma antiga moeda encontrada em Biblos (a bíblica Gebal), uma das cidades cananéias "fenícias na costa do Mediterrâneo, pode bem ser uma ilustração das estruturas erigidas em Zafon por Kothar-Hasis. Ela mostra uma "grande casa", tendo ao lado uma área elevada, cercada por uma muralha alta e larga. Lá, sobre um pódio sustentado por vigas cruzadas, construídas para suportar um grande peso, está montado um objeto cônico - muito conhecido de tantas outras ilustrações do Oriente Médio da Antiguidade - a "Câmara Celestial" dos deuses, uma "pedra movente".

Esses são os indícios que chegaram até nós atravessando milênios após milênios. Ao longo de toda a Antiguidade os povos do Oriente Médio tinham conhecimento de que dentro da Montanha dos Cedros havia uma enorme plataforma para "pedras moventes", tendo ao lado uma "grande casa", no interior da qual ficava escondida "uma pedra que sussurra".

Agora, se estou correto em minha interpretação dos textos e desenhos da Antiguidade - como foi que esse grandioso e conhecido lugar desapareceu?

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